
Era uma vez um puto que nasceu sem jeito nenhum para a música. Já crescido, sentia uma enorme satisfação em brincar com as campainhas das portas vizinhas. Aquele som era o único ao qual a sua habilidade tinha acesso.
O pai, coitado, músico e de família de músicos, vivia desgostoso com a falta de talento do filho. O raio do miúdo, mostrava mais inclinação para a bola do que para a pauta.
O pai bem tentou ensinar-lhe o solfejo mas o catraio não atinava. A tendência musical era tão pouca que pensava que, uma colcheia, era um colchão onde apenas dormiam as mulheres. Confundia as notas na pauta e nunca chegou a perceber porque é que não punham letras no meio das linhas em vez de borrões de tinta. Decididamente, aquele não seria o seu futuro. Aprendeu a ler com facilidade, e, de burro, não tinha nada, mas, de música...nada. O pai, esse, coitado, não se conformava. Aquela ovelha ranhosa, só tinha ouvido para o “
passa a bola!”, “
chuta agora!”, “
corre, vai lá!”, e outras porcarias ligadas ao futebol.
O futuro deste rebento, como músico, não se apresentava muito risonho. O rapaz lá foi crescendo e as possibilidades de corrigir a falta de habilidade, desvaneceram-se com a idade para grande desgosto paterno.
Mas a esperança é sempre a última coisa a morrer e a vida traz sempre soluções, mesmo para os casos em que natureza não foi pródiga na distribuição de talentos. O pai tinha, lá no íntimo, uma fé escondida e, como dizia o outro:
- É preciso ter fé, porque o homem vive é de fezes.
Em determinada altura, aí pelos seus dez anitos, o pai fez a última tentativa. Se aquela não desse resultado, teria que viver o resto da sua vida com o enorme desgosto de ver crescer o seu amado filho sem tocar outros instrumentos, que não fossem as já conhecidas campainhas de porta e o toca discos. Vai daí, convenceu a Direcção dos Bombeiros Voluntários lá da terra de que o que era necessário para cativar os jovens para o voluntariado, era uma fanfarra. (Sim, uma fanfarra dessas com direito a farda com muitos dourados e barrete ridículo!) Ganha a aposta na Direcção, foi-lhe fácil arranjar uma catráfia de putos para a chinfineira, com um argumento que deixava qualquer pai sem outra vontade que não fosse ter o seu rebento a aprender música e a marchar pelas ruas da vila:

-
Vamos tirar os miúdos da rua! Vamos ensinar-lhe o que é disciplina! Comigo não há baldas!
E a sarabanda passou a ostentar o garboso nome de “
Fanfarra dos Bombeiros Voluntários”.
Escusado será dizer que o seu estimado (e nada habilidoso filho) foi o primeiro a inscrever-se (contra a vontade, mas foi).
O garoto lá fez um tremendo esforço, decorou a posição das notas na pauta, aprendeu a esguichar uns sons esquisitos na corneta e passou a ser motivo do orgulho musical daquele pai, devoto de Santa Cecília (a padroeira dos músicos, para quem não sabe).
A verdade é que a qualidade não era muita, mas, o garbo dos executantes e o orgulho do chefe da fanfarra, lá foram disfarçando as fífias que ameaçavam, de surdez permanente, os ouvintes.
Ora, como é próprio da natureza, tudo passa: passa o tempo, passa a paciência, passa moda e…passou à história a fanfarra.
Daquele desastre, salvou-se uma coisa: o seu querido filho, aprendera finalmente a distinguir a tal colcheia do colchão e actuara algumas vezes em público. Se um pai não se orgulha disso, vai orgulhar-se de quê? Passou, assim, a ser um verdadeiro membro daquela família com historial na Banda?
O tempo foi passando, os estudos (sem interrupções e com percalços próprios da juventude) foram enriquecendo os conhecimentos daquele jovem e distinguiu-se mesmo como líder da Associação de Estudantes da sua escola, com grande contentamento do pai. Aderiu, como quase todos os jovens, a um partido político, que, por mera coincidência, era o

mesmo pelo qual o seu pai morria de amores. Para contentamento de todos os familiares foi também Presidente da Concelhia da Juventude do partido. Acredita-se que o inspirador de tal militância tenha sido o seu progenitor, que, sendo durante anos e anos membro da Concelhia de Penalva atingira, por mérito político, um lugar no executivo camarário lá do sítio.
E o mundo deu, de facto muitas voltas, e, aquele pai preocupado, viu, finalmente, a sua fé recompensada.
A câmara local, por exigência dos novos padrões de ensino, tinha que contratar um professor de música para ensinar o bêábá das notas musicais aos pequenitos da escola primária. Abriu, então, um concurso para aquele lugar e foram alguns os interessados que se apresentaram na almejada esperança de serem os escolhidos. Entre eles, estava o filho que tantos desgostos dera ao pai por não ter nascido com talento (mesmo que fosse um jeitito, já dava) para a música, mas que, com muito esforço e denodado trabalho, aprendera a distinguir uma nota musical de uma nota escrita e de uma nota de quinhentos mil réis.
O seu curriculum era vasto: tocara na arruada das festas da vila dois anos seguidos, tocara nas comemorações de aniversário de mais de cinco corporações de bombeiros do distrito, abrilhantara, pelo menos, sete ou oito outras festividades de associações sociais, culturais e desportivas, etc., etc., etc. E os outros? O que é que tinham? Um miserável curso do Conservatório de Música, e, quando muito, eram membros da banda musical há muitos anos (aqui, velhice não é estatuto) ou tinham tirado cursos de música sem qualquer relevância para o efeito.
Portanto, o que pesou na escolha para o lugar de professor de música, foram aqueles anos na fanfarra dos bombeiros, que, em boa hora, o seu pai criara. É certo que nunca fora um bom aprendiz de solfejo e muito menos um bom músico, mas também não iria ensinar os putos da escola para seguirem uma carreira profissional agarrados a qualquer instrumento musical!
O Presidente da Cãmara, que também era do mesmo partido político, disse que em nada interferira no processo, apesar do candidato escolhido ter sido voluntário e ter liderado a juventude partidária e as colagens de propaganda, nas suas campanhas eleitorais. (O que toda a gente acreditou, como é evidente!).
O pai, que jurou não ter interferido na selecção dos candidatos, quando recebeu do filho a boa nova de que seria ele o escolhido do concurso, sentiu faltarem-lhe as forças, virou os olhos ao céu e desfalecendo de alegria, ainda consegui balbuciar antes de desmaiar:

-
Eu sabia! Eu sabia que tu irias longe na música! Meu filho, o mundo ainda vai ser teu! A glória espera-te! Ainda vais tirar o lugar no júri do “Canta Comigo”, na TVI, ao Maestro António Vitorino de Almeida!