AVISO MUITO IMPORTANTE E DESENVERGONHADO:

Este blog está escrito (sem qualquer arrependimento) de acordo com a 4ª classe dos tempos da "outra senhora", e não tem nada a ver, nem quer, com o Acordo Ortográfico, por entender que a língua PORTUGUÊSA não é o Brasiguês!
Aproveito, ainda, para apelar a uma inssureição geral das escolas, e, de todos quantos ainda sentem vergonha de ter de se sujeitar aos maneirismos e cacafonias, de quem não foi capaz respeitar a herança cultural e linguístic
a dos seus criadores.

quarta-feira, outubro 16, 2013

Requerimento ao Ministério do Ambiente

Sr. Ministro do Ambiente
Excelência
RUFINO FINO FILHO, reformado, contribuinte português devidamente cadastrado, vem, muito respeitosa e humildemente, expor o seguinte:
Ontem, depois de receber a minha já quase inexistente reforma, que por imperativo nacional tem sido minguada, mas ainda dá para 1 almoço de bancário e uma sopa ao jantar, cometi a imprudência de ultrapassar a Quota de Consumo Diário de Oxigénio (QCDO) -obrigatoriamente fixada pela TROIKA- num breve passeio a convite do meu compadre Elias. Na verdade, o puro gozo daquele passeio nocturno, deu asas às minhas pernas já cansadas de tanto uso e só parámos quando, exaustos, regressámos a casa. Sentado no sofá - que tinha vez marcada para substituição este Natal, mas que, devido ao heroico esforço nacional de todos nós, ficará para melhores dias- tomei consciência  desta imprudência, que apenas tem explicação á luz da minha avançada idade. De facto, andara de mais, respirara de mais e, portanto, consumira oxigénio de mais, ultrapassando a quota que me fora fixada pelo Ministério do Ambiente, que Vossa Excelência tão diligentemente governa. No entanto, confesso, este pequeno abuso, deu-me uma imensa satisfação e revigorou o meu corpo já gasto, chegando mesmo a pensar, não ser eu merecedor de tanta alegria, dada a transgressão cometida.
Assim, vergado ao peso desta vergonha, venho requerer, que, em nome  dos 45 anos de trabalho ininterrupto ao serviço desta gloriosa nação, me seja concedido o aumento da Quota de Consumo Diário de Oxigénio (QCDO), numa percentagem que me permita continuar, pelo menos 1 vez por semana, os passeios nocturnos na companhia do meu compadre.
Mais informo Vossa Excelência, que após a douta resposta dos Serviços Ambientais, requererei a sua Excelência o Sr. Ministro das Finanças, de acordo com a determinação legal,  que este aumento de consumo do oxigénio propriedade do Estado Português, seja taxado no escalão mais baixo, sugerindo eu a taxa aplicada aos indigentes, pois, desta forma, apenas abdicaria do pão com manteiga ao pequeno almoço.
Em nome do patriótico sacrifício de todos os reformados e pensionistas, e atendendo ao supremo desígnio, que é o futuro desta Nação e o cumprimento das imposições da Banca e da TROIKA, pede deferimento
O Requerente
Rufino Fino Filho

terça-feira, agosto 13, 2013

De novo...eleições...pufff


Acachapado entre a cama e o sofá, por causa de uma puta de uma dor ciática que me deu, tenho acompanhado a "dança da fertilidade" que os candidatos á Câmara de Penalva do Castelo bailam em público: acabarão com o desemprego num ápice, construirão a variante de imediato, baterão o pé ao Governo que habitar em S. Bento, sem medo, embelezarão tudo e mais alguma coisa, a pedido dos cidadãos, ajudarão os velhos a ficar novos e os jovens mais maduros, vão recuperar, reparar, refazer o que for necessário, tornar mais perfeito e mais atraente tudo o que existe, arrancar com gana com o que é mais urgente,  alindar a vila e aldeias tornando-as a coqueluche das Beiras, construir mais creches e lares para uso da comunidade, e, eliminar, acima de tudo, todos os males que séculos e séculos de esquecimento por parte do governo central e das más gestões camarárias trouxeram ao concelho. Se for possível e ainda forem a tempo, impedirão que Nosso Senhor Jesus Cristo morra na cruz.
Nenhum deles aprendeu nada com o passado. Nenhum deles, aliás, conhece o passado e a realidade do concelho. Vivem da "trilogia", á conta da "trilogia" e para a "trilogia", desde que isso represente comida, bebida e festa. Debitam aquilo que uns e outros vão escrevendo, e, para melhor se prepararem, até mandaram fazer um livro sobre os tempos idos dos séculos XIX e XX. Coisa mais ou menos bem feita, mas com demasiados erros por falta de informação adequada, não do autor, mas de quem lha transmitiu e omitiu dados que deturpam a verdade.
Mas isso não conta. Vem aí o futuro trazido pelos iluminados das novas igrejas Maná´s, os magníficos da politiquice e da desvergonha, os campeões das promessas incumpríveis, mas habituais e quase obrigatórias em tempo de eleições. Comprometem-se por eles, pelos outros e até por aqueles que nascerão sobre o seu reinado. Tudo vai brilhar e o passado triste irá vaporizar-se das nossas mentes. As vigarices do PSD transformar-se-ão em centenas de empregos bem pagos, as asneiras do PS semearão o campo de um desenvolvimento risonho, os oportunismos do CDS abrirão mão da felicidade para todos e, até os esquecidos da CDU sairão á rua gritando "hossanas" pela felicidade dos penalvenses. Será eliminado tudo o que nos afecta e preocupa. Só não se eliminam a eles próprios, porque não cai bem fazer essa promessa. Mas era o que nós precisávamos!
As últimas sextas feiras transformaram-se numa feira de vaidades, com cada candidato a passear-se entre a Câmara velha e os cafés, com surtidas ocasionais á esplanada da Praça e ao Mercado, debitando opiniões, sorrindo, cumprimentando, aguentando palmadas e ouvindo piadas repetidas mil vezes. Dobram-se pela coluna em vénias serviçais, estendem as mãos ansiosas de apertar outras, mesmo que desconhecidas, querem falar com todos, cumprimentar todos e colar uma merda qualquer na lapela de todos. Os próximos dias, até á data das eleições não serão diferentes. Melhor, sê-lo-ão para pior: mais sorrisos mais palavreado, mais apertos de mão, mais papéis, mais apitadelas, mais piadas, mais discursos e mais promessas, promessas e promessas. Há gente á espera que vença o PSD para se manter onde está; há gente á espera que ganhe o PS para correr os instalados; e há gente á espera que vença a CDU, coitados, que vão esperar sentados até os cães miarem e os gatos ladrarem.
Nesta folia tão portuguesa, tão nossa, com que a Liberdade faz questão de nos alegrar periodicamente, ficam as saudades dos tempos em que decidir a escolha de um candidato se tornava substancialmente mais fácil . Eram tempos em "o que contavam eram as pessoas" e os partidos, assistiam á distância e com ansiedade, aos resultados dos seus candidatos. Eram tempos de olhar cara a cara, do trato cordial, do cumprimento afetivo entre adversários e da irrelevância dos partidos. Como diria a minha prima Carminda, "eram outros tempos".  
Hoje, uma catrafia de Miguéis Relvas de pacotilha, espécies estranhas nascidas nas juventudes partidárias e que, por mal dos nossos pecados, não estão em vias de extinção, emergem em todos os concelhos, infiltrando-se nas listas de candidatos e exigindo lugares de destaque. Opinam, decidem, contrapõem, organizam, insinuam, manipulam e alcançam lugares de decisão e responsabilidade para os quais não estão nem foram preparados, sob o lema: "Os fins, justificam os meios".
Vem esta arrazoado a propósito de um post de um blog anónimo e por sinal bem imbecil e persecutório, que coloca um inquérito com a pergunta "Quem foi o melhor Presidente de Câmara", ou algo assim. As respostas surpreendem por 2 motivos: 1.º são poucas, o que diz do desinteresse das pessoas pelo dito blog, e ainda bem; 2.º são surpreendentes, porque os seus leitores estão a votar, por igual, o actual Presidente que abandona o cargo onde se mantém há 12 anos, com um outro, falecido creio que em 1999, e que abandonou o cargo em 1980, data muito anterior ao nascimento da maioria dos frequentadores e do dito blog, suponho eu. Os outros resultados, pouco interessam para o caso.
Bernardino Duarte Pereira, candidato pelo CDS, foi o 1.º Presidente da Câmara de Penalva do Castelo eleito após o 25 de Abril, em 1977, cargo que ocupou durante 2 anos, até 31 de Dezembro de 1979. Já lá vão, 33 anos e alguns meses. Na maioria dos casos, os frequentadores do dito blog, para se lembrarem da sua passagem pelo município como Presidente, deverão andar na casa dos 45 anos, no mínimo.
Leonídio Monteiro, do PSD, é o actual Presidente da Câmara ininterruptamente desde 2001, há 12 anos, para além de ter ocupado o mesmo lugar entre 1985 e 1993, portanto, mais 8 anos. O que quer dizer que esta juventude, a maioria dos frequentadores da internet, cresceu não conhecendo, praticamente, outro Presidente da Câmara de Penalva do Castelo.  Agora, com a televisão e a internet, as notícias correm rapidamente ao contrário de há mais de 30 anos, nos anos 70 do século XX. O que lhe dá vantagem de notoriedade absoluta.
COMO SE EXPLICA QUE UMA PESSOA, FALECIDA HÁ 30 ANOS, DO QUAL APENAS PESSOAS COM CERCA DE 45 ANOS SE DEVEM LEMBAR DELE NO CARGO,TENHA TANTA POPULARIDADE E TANTOS ADMIRADORES COMO O ACTUAL PRESIDENTE DA CÂMARA DE PENALVA DO CASTELO, QUE LEVA 20 ANOS DE PRESIDÊNCIA? UM MORTO ESQUECIDO GANHA A UM VIVO NO ACTIVO?
ESQUSITO E SINTOMÁTICO NÃO É?
A minha prima Carminda tem uma opinião: " o gajo sempre olhou para ele e para os amigos. Os outros apenas lhe interessavam se lhe dessem vantagem política!".
Olhem que ela de burra, não tem nada. Pena foi que tivesse sido lixada nas últimas eleições pela Amélia.
 

quarta-feira, março 20, 2013

Ser filho de/da puta!

Ser filho de/da puta!

Esta é uma questão de interesse nacional com tanta importância como as cagadelas dos pombos da Praça da Figueira. No entanto, os senhores que dependem da interpretação da hipotética diferença, consideram-na um caso de importância extrema do qual dependerá o futuro deste miserável país. Se eu os mandar para a puta que os pariu, toda a gente compreende que o insulto não é para a mãe, é para eles. Por estas e por outras é que os defensores do aborto têm alguma razão: de vez em quando, deve praticar-se, a bem da nação.

 No meu fraco entender, só os que são, cumulativamente, filhos "de" puta e filhos "da" puta, é que não percebem.  Qualquer labrego já viu que a diferença só existe na boca de quem insulta e nos ouvidos de quem ouve. Quem não entende que é a mesma merda, é que não passa de um grande, enorme, descomunal e estratosférico filho de uma nota de 20 paus.

Afinal, qual é a diferença entre um filho "de" puta e um filho "da" puta? Na verdade nenhuma! Um gajo que seja "de" é igual a outro que seja "da".  A diferença só existe se um for um grande filho "de" e o outro for um vulgar filho "da". A verdade é que a puta, mantém-se!

Analisando melhor, direi que, se me chamarem filho "de" puta, não me sentirei melhor do que se me chamarem filho "da" puta. A minha Mãe é sempre atingida pelo insulto, com a agravante de o "da" se referir especificamente a ela, e, o "de" se referir a outra mulher qualquer, que poderia ocupar o seu lugar.

Seja como for, se eu for o alvo do insulto com "da", tendo como veículo o artigo definido feminino "a",  referir-se-á á minha progenitora, transformando-a na principal atingida. Se me insultarem com o "de", o veículo será diferente. Sem artigo definido, torna-se universal, transformando todas as mães em putas. Concluindo, para estes senhores do "de" e do "da", há muito mais putas do que mães, percebem?

Agora digo eu: pobres Mães que os pariram e desgraçado país que os atura.

O povo que temos já deu conta que os Presidentes da/de Câmara, querem é perpetuar-se no poder, á custa da leitura tardia da Lei, por parte de um Presidente da República que ainda não deu conta que, em Portugal, só há bananas na Madeira.

Ainda assim, desabafo á maneira antiga: puta que os pariu a todos!

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

O Tobias dos Santos Júnior

Sempre detestou o nome de baptismo. Para ele, Tobias, era nome de cão. Até a forma como tem de se pronunciar o T de To, estendendo os lábios para fora em forma de canudo, era ridículo. Então, o B de Bias, pior. Parece que vai sair um assobio, bbiiii, para terminar num AS de boca aberta. Eram figuras labiais ridículas que imitavam o cu duma galinha, um sopro amaricado e uma boca aberta à espera de mosca. Pior ainda, eram os gajos que trocavam o Bs pelo Vs. ToVias, era um desastre!

Desde puto que detestava ouvir, “meu menino, como te chamas?”. A família ciente deste ódio, chamava-lhe Júnior. E Júnior ficou na escola e na tropa, se bem que o seu verdadeiro nome lhe impusesse um lugar no fim da fila. Pensou mudar de nome quando atingisse a maioridade mas, uma anedota foleira tirou-lhe a vontade. Era a história de um gajo que se chamava João Merda e farto do nome e do gozo da plateia de amigos e conhecidos, foi ao Registo requerer a mudança. O Conservador concordou “ João Merda não é nome que se ponha, de facto! Como vai ser o seu novo nome?”. “Manuel Merda!”.

Para ajudar a esquecer tal azar, que se agarrava à pele desde que o padrinho (um padrinho pimba, que há muitos anos não via, graças a Deus), mandou fazer uns cartões personalizados: T. dos Santos Júnior. Carregou na tinta do apelido pirata para que se fizesse notar bem a sua vontade.

Este acidente onomástico, contudo, não era uma mania exclusiva no seu espírito. Tinha uma obsessão doentia pelo físico, que cultivava intensamente no ginásio. Em miúdo, vira uma série de fotografias de Charles Atlas (na altura o expoente máximo do culturismo), que marcaram o seu crescimento. Aos 14 anos, com um corpo já modulado por músculos que já lhe delineavam o perfil, era o “ai Jesus!” das meninas do liceu. Cresceu e a sua figura foi-se tornando cada vez mais perfeita, mais fotogénica e mais apreciada pelo sexo feminino. Namoradas nunca lhe faltaram e o seu ego foi aumentado com a idade. Aos vinte anos, era um verdadeiro atleta e foi campeão regional de natação na especialidade de saltos do trampolim. Aquela figura musculada e ágil a voar para a água, deixava novas e velhas a suspirar por uns momentos de prazer a dois.

Na tropa, devido ao seu portentoso físico, foi parar à Polícia Militar. Nas rondas nocturnas, pela zona dos bares do Intendente e no Cais do Sodré -onde os militares da província tentavam, por 20 escudos, encontrar um pouco de calor humano- tornou-se conhecido como “um gajo porreiro”. Na verdade, para além de compreender a necessidade que a soldadesca tinha de afogar “o galo”, aproveitava as rondas para conhecer e seleccionar as mais belas entre o putedo disponível. Comeu quanto quis e do que quis, enquanto vestiu farda. O Júnior tornou-se um profundo conhecedor da noite lisboeta.

Mesmo com vida de noctívago, encontrou sempre tempo para cultivar o físico e manter uma musculatura invejável. Na verdade, esse era o passaporte para as infindáveis noites de prazer. Alto e bom som, afirmava que “das mulheres conheço todos os géneros”, como se essa ciência lhe tivesse sido distribuída em exclusividade, por Deus, à nascença.

Um dia, no health club mais fino do 24 de Julho, enquanto levava a musculação ao limite nos halteres, passou o olhar de predador pelo salão em busca de uma possível vítima. E viu-a! Elegantíssima e curvilínea dentro de um fato de fitness, chamava a atenção pela beleza e ar de desinteresse pelo que a rodeava. Tinha um “não sei quê”, que o prendeu num ápice! A auto-estima que sentia próximo das mulheres, impeliu-o ao primeiro contacto. Como um gato à caça, foi-se aproximando da mulher, que, por essa altura, estava a ser vítima dos olhares de um cento de babados solitários e suados. Já perto, avaliou a presa com olhos de perito: vinte e poucos anos, soutien copa C, olhos azuis, 1 metro e setenta e tal, 60 e picos quilos e sem aliança. Encaixava-se nos padrões mais exigentes do Júnior. Adengou-se pelo salão, encostou-se à passadeira onde ela caminhava num ritmo de passo acelerado, descartou o sorriso habitual para um primeiro encontro, adocicou o olhar e disse mansamente,

- Olá! Sou o Júnior!, e ficou-se, sorrindo, à espera da habitual

- Olá! Eu sou a…!.

A vítima desligou a máquina e suspendeu a caminhada, depois, abriu um sorriso do tamanho do Mar da Palha, mediu-o de alto a baixo, estendeu a mão direita, formou com dedo polegar uma pinça, beliscou-lhe ao de leve os bíceps do braço mais próximo e falou dengosamente a meia voz:

- “Sim?! Júnior, não é? … É nome de miúdo a quem falta muito para ser adulto! Ou de coisas pequenitas!”. Incomodado com a resposta ainda articulou mastigando as palavras:

- “Na verdade o meu nome é Tobias”. Ela olhou-o de frente e soltou:

- “Tobiiiias? Tobias Júúúúnior? Homem, que raio de nome lhe puseram! Você teve um padrinho de merda! Isso é nome de cão!”.

Enervado, ainda teve forças para dizer,

- “Santos! Tobias Santos!”.

A garota, divertida com o domínio da situação, rematou,

- Então e o Júnior? Lá em casa tem alguém seja sénior?... Em tudo!”, e virou-lhe as costas.

A partir desse dia os cartões de visitas foram alterados para Dos Santos, apenas Dos Santos!

segunda-feira, janeiro 23, 2012

O Aposentado

No dia exacto em que fez 40 anos de trabalho, pediu a aposentação. “Já chegava”, disse. Na manhã seguinte, meteu um atestado médico e ficou em casa a aguardar que lhe dissessem quanto iria receber. Era menos do que no emprego mas, em contrapartida, acabava a rigidez dos horários e teria todo o tempo necessário para as coisas de casa que nunca foram terminadas por razões várias, entre as quais, o cansaço, e, a maior parte das vezes, a preguiça. Estas, sempre se sobrepuseram as outras mais justificáveis. “Corpo que trabalha, quer descanso”, desculpava-se perante a mulher.

Nunca fora um tipo muito habilidoso de mãos mas presumia saber de tudo um pouco. A vida de funcionário público, pedia-lhe mais que apresentasse uma unhas limpas, do que sabedoria em substituir uma tomada eléctrica ou uma torneira. Portanto, tratou sempre de defender a sua imagem atràs do balcão de atendimento ao público: um casaco e uma camisa branca sempre fizeram milagres. No inverno juntava-lhes uma gravata e uma camisola de malha, e, às vezes, parecia ele o chefe da repartição. E merecia ter sido! Entrara para o Estado quando regressara do Ultramar onde passara 20 e tal meses em Timor. A guerra, por ali, só a da cerveja fresca! Achava que tinha capacidade para chefiar a repartição, mas nunca o promoveram. Agora, de saída, que se lixassem todos. Desta vez teria tempo para arranjar o estendal da roupa estragado há anos, caiar os muros já verdes de tanto musgo, substituir as telhas que se esfarelavam no telhado da garagem, passear o estupor do cão, ir ao parque com os netos que a filha e os 3 filhos lhe deram, e, o mais interessante, para se baldar nos sábados à tarde e ir bater as cartas no salão dos bombeiros ou no Rabiça. Ah! E as couves! Iria semear um talhão de couves. A costela de agricultor aparecera com a idade. Era altura de dar aso às ambições hortícolas.

Uma vida de trabalho e sacrifício, merece um justo descanso!”. E fazia as contas: “40 anos, eram 480 meses, 2.080 semanas, 14.600 dias, 116.800 horas e mais de 7 milhões de minutos. Já viram? 7 milhões de minutos!”. A esta contabilidade tão organizada, a mulher respondia: “E as férias, e as faltas, e as saídas prá tacita de branco, e as baldas no serviço externo? Quantos minutos são? Desconta lá isso, homem!”. Aí, fazia ouvidos de mercador. Como fazer-lhe entender que até as noitadas nos copos, as comezainas ao fim da tarde, a tal “tacita de branco”, as conversas sobre futebol e outras coisas salutares para o dia-a-dia de um funcionário do estado, eram uma forma suprema de contactar os contribuintes, de lhes ouvir as reclamações, de lhes dar a conhecer as leis da república, de os ajudar nas malhas intrincadas da legislação, de os ensinar a serem cidadãos mais cumpridores e melhores pessoas. Este trabalho, fora do horário, nunca fora reconhecido por ninguém! Fora um funcionário exemplar dentro da repartição e, principalmente, fora da repartição. Quantos passariam as suas horas livres em missão de cidadania? Que ele se lembrasse, ninguém! Isto, ela não entenderia, portanto, que se contentasse com os tais “7 milhões de minutos”. E, na verdade, quantas esposas se poderiam gabar que o marido se reformara aos 65 anos, com tantos milhões de minutos de trabalho?

Meses depois, lá veio a novidade: 1.300 euros de reforma à qual haveria que deduzir o IRS. Não era muito, mas teria de dar. Criara os filhos com bem menos e com a ajuda das batatas e das galinhas dos sogros. Agora já crescidos, lá se iam amanhando nuns empregos rascas. Não eram doutores, mas tinham trabalho, o que já não era mau. Ele e a Maria, que nunca trabalhara num emprego remunerado e que lhe desse direito a qualquer benefício com a idade, aguentar-se-iam com os tais 1.300 euros. Tinha um carro com 15 anos que comprara em segunda mão e pago em prestações de 7 contos e quinhentos, não comprara casa porque a herdara dos pais, nunca se metera em cavalarias financeiras e a mulher era uma óptima substituta de aspiradores e máquinas de lavar. A sua vida bancária não entusiasmaria uma beata falsa. Nunca conseguira poupar, mas também não devia aos bancos. Por isso, o valor atribuído, não era bom nem era mau, chegava.

Com a reforma concedida e publicada no Diário da República, deixaram de lhe doer as costas e desapareceu a dor de cabeça permanente, que tinham dado origem aos contínuos atestados médicos que o mantiveram afastado da repartição durante os meses de espera.

E lá cumpriu algumas das promessas que guardara para esta fase da vida. Mandou arranjar o estendal, pintou o muro numa campanha intermitente de 8 manhãs de sábado, pediu ao vizinho que era trolha e lhe devia alguns favores burocráticos que lhe substituísse as telhas da garagem, foi por 2 vezes passear um neto ao parque, aproveitando para ler “A BOLA” e foi poupado ao passeio com o cão, porque, entretanto, o rafeiro foi atropelado pelo camião de recolha do lixo. Quanto às tardes de sábado, era outra coisa: uma promessa é para cumprir e nunca falhou uma vez sequer. Ah! As couves nunca chegaram a nascer.

Com o passar dos tempos, os 1.300 euros foram minguando. Corrigindo: eles não minguaram, davam era, cada vez mais, para menos! Tudo subia: a conta da luz, a conta da mercearia, o gaz, o pão, a gasolina…e a sua tensão. Desta vez a dor de cabeça era real e, arrastado pela mulher, foi ao Centro de Saúde. Diagnóstico: colesterol elevado, triglicéridos nos píncaros e a tensão arterial a oscilar entre os 12, mínima e 18, máxima. O médico disse: ”Travões a fundo, meu caro! Você já não é um carro de corrida! Agora é um calhambeque! A continuar assim, o único sítio onde chega rapidamente, é ao cemitério”. Saiu dali com mais uma despesa às costas: uma catráfia de medicamentos que, para não fugir à regra, no mês seguinte, subiram de preço.

A vida foi-se tornando cada vez mais difícil e os cortes no orçamento caseiro, eram semanais. Os netos já só recebiam um presentito mixuruca no Natal. As prendas dos filhos resumiam-se ao jantar da Consoada e, nos aniversários, o bolo da festa, passou a ser um pão-de-ló barrado de açúcar em ponto com as velas penduradas no topo.

Este fim-de-semana, morreu em frente do televisor durante o noticiário da noite. Em causa, uma notícia que o deixou completamente eufórico e lhe estourou com a tensão arterial, não se contendo em gritar para a Maria: “Vem cá ver o resultado dos meus 7 milhões de minutos. Valeu a pena! Recebo tanto de aposentação como o Presidente da República!”. A comoção foi demais! Finou-se ali mesmo!

terça-feira, janeiro 17, 2012

Os novos Emigrantes em Paris

Quem emigra, mais tarde ou mais cedo, imigra. É como quem diz: quem sai, volta a entrar.

A emigração de alguns dos nossos antigos governantes para o estrangeiro, não me preocupa. Preocupa-me é o seu regresso!

Vão voltar com métodos mais refinados e dissimulados e, vai-não-vai, regressam à vida política activa.

Há que esperar o regresso destes maraus e colocá-los no sítio, ou devolvê-los à procedência.

Coitado, este, da fotografia, foi apanhado na Estação de Santa Apolónia prontinho a embarcar no SUD EXPRESS para Paris. Será que vai voltar aos bancos da universidade, em Paris, juntando-se a um outro, que já por lá anda, a frequentar um curso de Ciência Política, uma vez que não foi admitido em Filosofia Política. Entre a Filosofia e a Ciência, não sei qual será a mais perigosa na cabeça dos nossos ex-primeiros ministros.

Desejo-lhe boa sorte, porque, pelo aspecto da fotografia, bem precisa!

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Viva o VINHO!!!


No tempo de Salazar, velho avaro e manhoso, mas avisado político, correu em Portugal um dito que foi entendido como um slogan protector e promotor do consumo de vinho português. Dizia ele: “Beber vinho é dar de comer a 1 milhão de portugueses”.
Nessa altura eu não era ainda um dos benfeitores da economia nacional e, os meus consumos alcoólicos limitavam-se a uma gemada feita pela minha avó, com gemas de ovos, vinho tinto e açúcar, com pedaços de pão migado naquela pasta avermelhada: chamavam-lhe “sopas de cavalo cansado”. Confesso que, apesar de na altura, e devido á tenra idade, não contar para o círculo dos amantes de sumo de Baco, ficaram-me na memória uns paladares tão agradáveis, que poucos anos depois, juntei-me á caravana. Em boa hora o fiz: passei a ter mais amigos e conhecidos, a andar quase sempre bem-disposto, a dormir melhor e em qualquer lado, a ter que aturar, cada vez menos, os betinhos e as meninas sérias, a suportar o frio e a acalmar as quenturas do verão, e, os meus amigos, começaram a ter alguns locais certos para me encontrarem: aí a partir das 5 da tarde, lá ia pousando de escritório em escritório, que é como quem diz, de tasca em tasca.

Do vinhito á cerveja, foi um passo. Agradável por sinal: bebia-se mais por menos dinheiro! Deixei, pois, de ser um ferrenho adepto de tal slogan e distribuía o consumo pelos dois líquidos. De manhã, apenas umas tacitas de branco (assim tipo, funcionário das Finanças); á tarde, até às 5, só cerveja; depois disso, ia juntando um e outro, entremeado com um bagaço (a melhor descoberta entre as bebidas alcoólicas); à noite, apenas bebidas doces: ginja e jeropiga. Na verdade, nunca fui muito de bebidas estrangeiras, salvo a caipirinha, que é brasileira.

E assim cresci e me fiz homem na companhia de uma irmandade de consumidores apaixonados.

Depois, com esta coisa da democracia, vieram os entendidos: o vinho faz mal, a cerveja faz mal e faz barriga, o bagaço queima-nos por dentro, blablá, blablá!

O problema é que, com estas discussões todas, alguns dos meus companheiros de longos anos, começaram a ter problemas lá em casa. Os filhos, instruídos por umas professorecas da treta, vinham da escola com ideias novas sobre o que se devia e o que não se devia beber. E atreviam-se, a mesa -local sagrado de um bom copo de vinho- a criticar os velhotes -“cotas” chamam-lhe eles- por rezarem a baco, que é como quem diz, beberem uns bons copos de néctar vermelho.

A merda desta conversa começou a incomodar-me e farto de queixinhas amaricadas, resolvi fazer uma análise justa ao consumo das bebidas alcoólicas, tendo como base, a minha experiência de longa data. Assim, recolhi nos jornais alguma informação, e, não deixei de fora uma conversa com alguns companheiros seleccionados pelo agradável contacto diário à frente do balcão. Cada um foi dizendo de sua justiça, sendo certo e unânime que, nesta coisa de pôr defeitos no vinho, tudo era uma injustiça!

Então fui passando para o papel as perguntas que queria ver respondidas. Depois, procurei encontrar as respostas adequadas, verdadeiras e justas, sem me deixar influenciar por comentários de médicos, beatas e afins.
Nestas coisas, todo o cuidado é pouco, por isso, para não ser acusado de machista, consultei a minha amiga Vilastina, tão entendida ou mais do que eu nesta matéria de copos.
As conclusões a que cheguei, não sendo brilhantes, também não são de deitar fora. Se têm algum valor científico, não sei. Mas sei que foram aprovadas por unanimidade tertúlia na cave do TassBem.

Ora, dizem que beber vinho faz mal à saúde. Perfeita mentira! Faz, se a pessoa for atropelada por um pipo. Além disso, casos de enfarte do miocárdio em idosos devem ser associados a propagandas sempre feita com modelos boazudas.

Também dizem os entendidos de meia tijela que o vinho é a mais pesada das drogas. Pode ser: uma garrafa de vinho pesa quase 1 quilograma. Se levar com ela nos cornos, ai é pesada, é!

E que o vinho causa dependência psicológica. É uma rematada mentira! Pelo que li,
89,7% dos psicólogos e psicanalistas entrevistados preferem uísque.

Para causar pânico entre as mulheres, afirmam que o vinho faz mal à gravidez. Outro erro! O Viegas, que é polícia da Brigada de Trânsito da GNR, confidenciou-me que, nas operações stop,
a polícia nunca faz o teste do balão ás grávidas. E se elas tiverem que fazer o teste de andar em linha recta, sempre perdem o equilíbrio devido ao peso da barriga.

É como aquela de dizer que o vinho diminui os reflexos dos motoristas. Outra barbaridade! O Viegas também me disse que foi feita uma experiência com mais de 500 motoristas: foi dada uma garrafa de vinho a cada um, e, em seguida, foram colocados um por um diante do espelho. Em nenhum dos casos, os reflexos foram alterados.

Dizem que o vinho envelhece! Pois envelhece, e muito rapidamente! A bebida envelhece muito rápido. Para se ter uma ideia, se você deixar uma garrafa aberta, ela perderá o seu sabor em aproximadamente quinze minutos.

E aquela patacoada de que o vinho prejudica o rendimento escolar! Não, pelo contrário. Se assim fosse, não vendiam vinho nas cantinas e bares das universidades.

Alguns atrasados mentais dizem que o consumo do vinho pelos mais velhos influencia a juventude. Que estúpidos! A miudagem só bebe shots, uma espécie de veneno, feito com bebidas estrangeiras.

E que engorda! O vinho engorda? Uma pôrra é que engorda! O vinho não engorda! Quem engorda são as pessoas!

E também não causa diminuição da memória! …Que eu me lembre!

E, mais a mais, esses inteligentes, que não bebem vinho, não sabem o favor que me fazem! Quanto menos beberem mais fica! E, um dia, se vierem a juntar-se a mim, em frente do balcão do Menicha, ainda hei-de ouvir a desculpa mais cretina do mundo:

- O vinho é exactamente como a sardinha assada: se antes fazia mal, agora é aconselhável comê-la!

terça-feira, janeiro 10, 2012

Salário mínimo!


Recebi isto!
Pôrra! Assim não vale!
Qualquer passo daqui para fora, é sempre melhor do que a nossa "santa terrinha".

quinta-feira, dezembro 22, 2011

A SAUDADE!

Era uma vez um pastor que não sabia ler nem escrever, não sabia que o mundo era redondo e menos sabia o que era o amor Aliás, para além de não saber que havia pastoras de pele lisa, não sabia que haveria de tremer na sua presença e sentir que, afinal, o mundo era maior do que serra onde pastava o gado, que encantava e corria atrás de si.
Um dia, teve vontade de ver e c
onhecer outras paragens, outras serras. Desceu a montanha e caminhou até ao anoitecer. Ao longe, entre o escuro do céu cheio de estrelas reluzentes, a serenidade do barulho do mar e o calor aconchegante da caminhada, viu uma luz que tremia ao sabor do vento tímido que amenizava a noite. Um vulto, sentado numa pedra à beira da estrada, levantou-se suavemente e disse:

- "Estava à tua espera!". Ao pastor, a voz soou como um cântico melodioso, feiticeiro.
- "Hã? Quem és tu? Conheço-te?"
- "Não, ainda não!
- "E que me queres?...De onde vens?...Que valho eu?... És um anjo?".
- "Não! Quero ser o teu futuro!".
- "Porquê? Não te conheço!...Do futuro, apenas sei o que vejo agora. Nem mesmo sei o que quero. Não te conheço e não te quero na minha vida. Quero ser livre e não me prender a ninguém!"
- "Não te posso deixar ir assim. És um homem só. Tens de conhecer o amor!" -
disse o vulto desconhecido.
O enfeitiçamento era total. A voz, as curvas diluídas da imagem, envoltas em seda que esvoaçava ao sabor da brisa cálida da noite tornavam aquele momento mágico, num sonho que o pastor nunca tivera. Resistiu:
- "Não quero o amor. Quero a minha liberdade. Quero conhecer o mundo e a vida. Quero ser livre como um bando de pássaros, livre como o vento. Deixa-me! Liberta-me do encanto da tua voz e do sonho do amor! …Diz-me quem és e que direito tens em querer ser o meu futuro?"
- "Como tu, sou uma alma em busca do amor. Só que tu não sabes que é chegada a tua hora e eu estou no teu caminho. É Natal, sabes?".
- "Sei, mas deixa-me partir! …Mas antes, mostra-me a face, diz-me quem és!".
- "Eu mostro! Com uma condição! Jura-me que voltas!"
- "Voltarei! Juro! Depois de conhecer o desconhecido, depois de ver o mar, depois de sentir o sabor da liberdade. Mostra-te!"
Suavemente as vestes flutuaram para longe, deixando ver um rosto perfeito, brilhante, dourado, e um sorriso doce como o mel acentuado por uns olhos, negros, vivos e apaixonados.
- "Aqui me tens. Agora és meu! És o meu outro eu! A minha sina é enfeitiçar quem me vê o rosto! És o meu escolhido! És o meu amor! Vou encan
tar-te com a maldição da saudade, a que te vai prender a mim. Estejas onde estiveres, sentirás a minha ausência, a falta do meu carinho, da minha presença, do meu amor. …Vai! Volta breve!

E cantou:


OLHA, MEU AMOR,
A SAUDADE
É O ESTIGMA DA AUSÊNCIA,
O PARADOXO DA DISTÂNCIA,
A PRESENÇA AUSENTE DO TEU CORPO,
AS MÃOS FECHADAS SEM TER NADA
E O VALOR DA VIDA NÃO ACHADA.

É O LONGE AQUI TÃO PERTO!

É O CORAÇÃO DA SOLIDÃO SEMPRE ABERTO,
O TEU CHEIRO E A TUA COR DE CHOCOLATE,
TÃO PRESENTE,
QUE A DOR JÁ NÃO ME ABATE
MAS TRANSFORMA O PESO DO NADA, NUM NADA SEM PESO
E TÃO ETÉREO COMO A LUZ.

É O LONGE AQUI TÃO PERTO!

A SAUDADE
QUE EU TENHO, JÁ CORRÓI
NUM CIRANDAR DE EMOÇÕES
QUE ME DESTRÓI O CORPO, A MENTE E O TEMPO QUE FALTA ATÉ AÍ CHEGAR.

É O LONGE AQUI TÃO PERTO!
E TU ESTÁS PERTO, AÍ TÃO LONGE!

A árvore de Natal de 2011

Este é um postal de Natal original. Um amigo acabou de o enviar. Em cima da hora, aqui está com os votos de Santo Natal e um Ano de 2012, com estes maraus, mais atilados!


terça-feira, dezembro 13, 2011

Abraço

Neste NATAL, para todos os curiosos deste devaneio que é o www.batemtodos.blogspot.com , um ABRAÇO!

terça-feira, dezembro 06, 2011

FELIZ NATAL


Para os mais friorentos, este é o meu presente de Natal.

BOAS FESTAS!

segunda-feira, outubro 17, 2011

Carago! Já daqui não saio!




O Neves trabalhava no escritório de advocacia do único causídico que arriscara abrir a porta em Castendo. Entrara ao trabalho de imediato e como parte do negócio de arrendamento do andar térreo, que o Dr. Inácio negociara com a minha comadre Cremilde, dona do espaço por morte da madrinha, que a criara desde miúda, quando os pais morreram com a pneumónica. O Neves, meu parente afastado por parte de um antepassado qualquer, aprendeu a escrever à máquina (uma Remington, pesada p´ra burro) e ali embrenhara nas manhas da advocacia e na história de metade dos habitantes de Castendo e arredores. Pelas suas mãos passaram histórias de roubos e facadas, tiros e sacholadas, traições matrimoniais e divórcios, estupros e acordos de casamentos forçados, compras e vendas de todo o género, vigarices e ciganadas de gente de “bem”, enfim, tudo o que o ser humano é capaz de inventar para se colocar na mão desses gabirus do alheio, os advogados. Não havia podre que não conhecesse mas sempre soubera respeitar o sigilo, esse milagre no seio da advocacia, e, único instrumento capaz de fazer com que o cidadão comum respeite tal profissão.
Casou bem, atendendo às disponibilidades do mulherio nos anos 70. A Tica, era filha de uns feirantes de Molelos que frequentaram a Feira de Castendo, mais de 40 anos. Conhecê-la, amá-la e ir com ela até Vale de Lençóis, foi um ápice. Nos primeiros anos, fez três filhos de seguida, honrando a boa tradição portuguesa, mas já então em desuso.
Agora, na casa dos 60 e picos, com algumas mazelas a roerem-lhe os ossos e com o vinho a mirrar-lhe a pele, está a meio caminho da reforma. Não sem antes, contudo, preparar para o ofício de escriturária, a Rute, filha (e que filha!) do Manelzinho de Pindo, que, não tendo terminado o curso de Direito (por manifesta burrice e gosto pela noite), encontrou no escritório do velho Dr. Inácio, uma forma de dar continuidade ao sonho de ser Doutora. Melhor, de lhe chamarem Doutora!
Com paciência de santo, o Neves, lá foi ensinando o bêábá da arte, do arquivo, da numeração sequencial dos processos, da escrita jurídica, dos espaços, dos parágrafos, das margens nos ofícios, das notificações, dos registos, da gestão da agenda do patrão, da cobrança das consultas, etc. No entanto, o entusiasmo pela vontade de marchar para a reforma, começou a não justificar toda a atenção que dedicava á moça. A proximidade da beldade - muito dada a encostos superficiais e a roçar as mamocas sempre que se cruzavam no corredor, ou distraidamente, as apoiá-las nos ombros do Neves quando espreitava o expediente no computador – começou a mexer com a libido do Neves que voltou aos sonhos dos 20 anos. Seria uma questão de oportunidade, pensava. A miúda não lhe saía do pensamento.
Um dia, chuvoso e nublado, já na escuridão invernal das seis da tarde, ao sair, diz:
- Você quer boleia?
- Claro -respondeu ela- com este tempo ainda mais agradeço – diz, entrando no carro.
Chegando no edifício onde ela morava, parou o carro e, com ar sorrateiro, atira:
- Pronto! Chegámos! Você fica e eu vou embora! – e mira-a de lado, a sorrir. Com o sorriso dos coiros, dos velhos viciados e viciosos.
Ela, olha-o de frente faz uma boquinha lasciva e atira:
- Está frio. Não quer entrar e tomar um cafezinho? Ou outra coisa qualquer? – e prolongou o qualquééérr?.
- Não, obrigado, tenho que ir para Casa.
Alterou aquela espécie sorriso e um ar de infelicidade invadiu-lhe o rosto.
- Imagine! O Sr. Neves foi tão gentil comigo, vamos entrar só um pouquinho. Vá lá!
E lá subiu, atendendo ao pedido da colega.
Ao chegarem no apartamento, o café prometido, transformou-se, qual milagre, num whisky, depois noutro e mais outro, até que a coragem se multiplicou no Neves e como, quem não quer a coisa, diz-lhe ao ouvido, deixando passar a língua pela orelha da garota:
- Carago! Já daqui não saía!
Dengosamente, serviu-o de mais uma bebida e saiu da sala. Pouco depois, voltava, de camisa de dormir, transparente e perfumada. Foi o fim do mundo! O Neves vingou-se de tantos anos de desejos incontidos, da chata da mulher, dos berros dos putos, do cabrão do Dr. Inácio, dos amigos invejosos e, milagrosamente, começou a descer na escala etária: 50, 40, 30, 30, 30…e por ali ficou até perder a noção do tempo e do cansaço. Adormeceu com um sorriso beatífico na cara já rugosa, de sexagenário.
O céu tinha caído, literalmente, em cima do Neves.
Por Volta das 4:00 horas da manhã, acordou, moído mas satisfeito e sem a noção exacta do lugar onde estava. O candeeiro do tecto não era propriamente reconhecido por ele. Depois lembrou-se de tudo.
- Chiiii, que sorte a minha! Foi melhor que o euromilhões!
Lentamente, lá se foi virando, esticou a mão, pegou no relógio e levou o maior susto da sua vida. 4 Horas! Porra! E agora! Como iria arranjar uma desculpa para entrar tão tarde em casa? A noitada valia bem o berreiro da Tica, mas tinha de engendrar uma desculpa qualquer. Nem por sombras se poderia saber que, agora, depois de velho, tinha um ninho de leite e mel á sua espera em casa da coleguinha.
Aí, sentou-se na cama e mais calmo, foi pensando enquanto se vestia.
- Arranjas-me um lápis?
Ela entregou-lhe o lápis. Pegou nele, colocou-o atrás da orelha e foi para casa, guiando devagar. Ainda levava no corpo o diabo da Rute.
A mulher, louca de raiva esperava-o sentada na cama. Antes que começasse a música, o Neves faz um ar de cão perdido e começa:
- Tenho algo para te dizer... Quando saí do trabalho dei boleia á minha colega de trabalho. Depois já á porta do prédio onde ela mora, convidou-me para subir e ofereceu-me um wisky, em seguida, ela foi para o banho e voltou com uma camisola transparente e muito linda, e, olha, acabamos na cama e fizemos sexo toda a noite. Depois, adormeci e acordei agora há pouco...
A mulher com uma raiva incontrolável, deu um berro e sentenciou:
- Seu mentiroso sem vergonha!!! Estiveste na tasca do Menicha a jogar sueca com os teus amigos de merda!! Nem sabes mentir, ATÉ TE ESQUECESTE DO LÁPIS AÍ, ATRÁS DA ORELHA, seu Aldrabão!

quinta-feira, outubro 13, 2011

Os primórdios da CURRUPÇÃO













Transcrevo, com a devida vénia e sem permissão do autor, o texto que é a génese da corrupção autorizada. Ao contrário do que a maioria pensa, este texto é do conhecimento da maioria dos nossos políticos: Isaltino, Felgueiras, Duarte Lima, Ferreira Torres, etc, etc, fizeram deste escrito, o guia das suas vidas, acho eu. Com uma escola deste género, iniciada pela Igreja Católica sob a protecção de um Papa, como é que se pretende acabar com a corrupção em Portugal?


A Taxa Camarae é um tarifário promulgado, em 1517, pelo papa Leão X (1513-1521) destinado a vender indulgências, ou seja, o perdão dos pecados, a todos quantos pudessem pagar umas boas libras ao pontífice. Como veremos na transcrição que se segue, não havia delito, por mais horrível que fosse, que não pudesse ser perdoado a troco de dinheiro. Leão X declarou aberto o céu para todos aqueles, fossem clérigos ou leigos, que tivessem violado crianças e adultos, assassinado uma ou várias pessoas, abortado… desde que se manifestassem generosos com os cofres papais.
Vejamos o seus trinta e cinco artigos:


1. O eclesiástico que cometa o pecado da carne, seja com freiras, seja com primas, sobrinhas ou afilhadas suas, seja, por fim, com outra mulher qualquer, será absolvido, mediante o pagamento de 67 libras, 12 soldos.
2. Se o eclesiástico, além do pecado de fornicação, quiser ser absolvido do pecado contra a natureza ou de bestialidade, deve pagar 219 libras, 15 soldos. Mas se tiver apenas cometido pecado contra a natureza com meninos ou com animais e não com mulheres, somente pagará 131 libras, 15 soldos.
3. O sacerdote que desflorar uma virgem, pagará 2 libras, 8 soldos.
4. A religiosa que quiser alcançar a dignidade de abadessa depois de se ter entregue a um ou mais homens simultânea ou sucessivamente, quer dentro, quer fora do seu convento, pagará 131 libras, 15 soldos.
5. Os sacerdotes que quiserem viver maritalmente com parentes, pagarão 76 libras e 1 soldo.
6. Para todos os pecados de luxúria cometido por um leigo, a absolvição custará 27 libras e 1 soldo; no caso de incesto, acrescentar-se-ão em consciência 4 libras.
7. A mulher adúltera que queira ser absolvida para estar livre de todo e qualquer processo e obter uma ampla dispensa para prosseguir as suas relações ilícitas, pagará ao Papa 87 libras e 3 soldos. Em idêntica situação, o marido pagará a mesma soma; se tiverem cometido incesto com os seus filhos acrescentarão em consciência 6 libras.
8. A absolvição e a certeza de não serem perseguidos por crimes de rapina, roubo ou incêndio, custará aos culpados 131 libras e 7 soldos.
9. A absolvição de um simples assassínio cometido na pessoa de um leigo é fixada em 15 libras, 4 soldos e 3 dinheiros.
10. Se o assassino tiver morto a dois ou mais homens no mesmo dia, pagará como se tivesse apenas assassinado um.
11. O marido que tiver dado maus tratos à sua mulher, pagará aos cofres da chancelaria 3 libras e 4 soldos; se a tiver morto, pagará 17 libras, 15 soldos; se o tiver feito com a intenção de casar com outra, pagará um suplemento de 32 libras e 9 soldos. Se o marido tiver tido ajuda para cometer o crime, cada um dos seus ajudantes será absolvido mediante o pagamento de 2 libras.
12. Quem afogar o seu próprio filho pagará 17 libras e 15 soldos [ou seja, mais duas libras do que por matar um desconhecido (observação do autor do livro)]; caso matem o próprio filho, por mútuo consentimento, o pai e a mãe pagarão 27 libras e 1 soldo pela absolvição.
13. A mulher que destruir o filho que traz nas entranhas, assim como o pai que tiver contribuído para a perpetração do crime, pagarão cada um 17 libras e 15 soldos. Quem facilitar o aborto de uma criatura que não seja seu filho pagará menos 1 libra.
14. Pelo assassinato de um irmão, de uma irmã, de uma mãe ou de um pai, pagar-se-á 17 libras e 5 soldos.
15. Quem matar um bispo ou um prelado de hierarquia superior terá de pagar 131 libras, 14 soldos e y6 dinheiros.
16. O assassino que tiver morto mais de um sacerdote, sem ser de uma só vez, pagará 137 libras e 6 soldos pelo primeiro, e metade pelos restantes.
17. O bispo ou abade que cometa homicídio põe emboscada, por acidente ou por necessidade, terá de pagar, para obter a absolvição, 179 libras e 14 soldos.
18. Quem quiser comprar antecipadamente a absolvição, por todo e qualquer homicídio acidental que venha a cometer no futuro, terá de pagar 168 libras, 15 soldos.
19. O herege que se converta pagará pela sua absolvição 269 libras. O filho de um herege queimado, enforcado ou de qualquer outro modo justiçado, só poderá reabilitar-se mediante o pagamento de 218 libras, 16 soldos, 9 dinheiros.
20. O eclesiástico que, não podendo saldar as suas dívidas, não quiser ver-se processado pelos seus credores, entregará ao pontífice 17 libras, 8 soldos e 6 dinheiros, e a dívida ser-lhe-á perdoada.
21. A licença para instalar pontos de venda de vários géneros, sob o pórtico das igrejas, será concedida mediante o pagamento de 45 libras, 19 soldos e 3 dinheiros.
22. O delito de contrabando e as fraudes relativas aos direitos do príncipe contarão 87 libras e 3 dinheiros.
23. A cidade que quiser obter para os seus habitantes ou para os seus sacerdotes, frades ou monjas autorização de comer carne e lacticínios nas épocas em que está vedado fazê-lo, pagará 781 libras e 10 soldos.
24. O convento que quiser mudar de regra e viver com menos abstinência do que a que estava prescrita, pagará 146 libras e 5 soldos.
25. O frade que para sua maior conveniência, ou gosto, quiser passar a vida numa ermida com uma mulher, entregará ao tesouro pontifício 45 libras e 19 soldos.
26. O apóstata vagabundo que quiser viver sem travas pagará o mesmo montante pela absolvição.
27. O mesmo montante terá de pagar o religioso, regular ou secular, que pretenda viajar vestido de leigo.
28. O filho bastardo de um prior que queira herdar a cura de seu pai, terá de pagar 27 libras e 1 soldo.
29. O bastardo que pretenda receber ordens sacras e usufruir de benefícios pagará 15 libras, 18 soldos e 6 dinheiros.
30. O filho de pais incógnitos que pretenda entrar nas ordens pagará ao tesouro pontifício 27 libras e 1 soldo.
31. Os leigos com defeitos físicos ou disformes, que pretendam receber ordens sacras e usufruir de benefícios pagarão à chancelaria apostólica 58 libras e 2 soldos.
32. Igual soma pagará o cego da vista direita, mas o cego da vista esquerda pagará ao Papa 10 libras e 7 soldos. Os vesgos pagarão 45 libras e 3 soldos.
33. Os eunucos que quiserem entrar nas ordens, pagarão a quantia de 310 libras e 15 soldos.
34. Quem por simonia quiser adquirir um ou mais benefícios deve dirigir-se aos tesoureiros do Papa que lhos venderão por um preço moderado.
35. Quem por ter quebrado um juramento quiser evitar qualquer perseguição e ver-se livre de qualquer marca de infâmia, pagará ao Papa 131 libras e15 soldos. Pagará ainda por cada um dos seus fiadores a quantia de 3 libras.

No entanto, para a historiografia católica, o Papa Leão X, autor de um exemplo de corrupção tão grande como o que acabamos de ler, passa por ser o protagonista da «história do pontificado mais brilhante e talvez o mais perigoso da história da Igreja».

(Fonte: Rodríguez, Pepe (1997). Mentiras fundamentais da Igreja católica. Terramar – Editores, Distribuidores e Livreiros -
(1.ª edição portuguesa, Terramar, Outubro de 2001 – Anexo, pp. 345-348)

quarta-feira, outubro 12, 2011

O exemplo


No degrau de pedra da taberna do falecido Zé Menicha, na porta que tem aquelas fitas plásticas penduradas para impedir a entrada das moscas – na verdade entram na mesma - estava sentado, o Xanata. Era um desgraçado que toda a vida vivera portas-meias com Baco, o deus que ajuda a matar as tristezas e a celebrar as alegrias da vida. Mas, Baco, apesar de ser um deus, tratou de o abandonar numa altura em que o “ordinário” do médico de família, lhe disse:
- “Se continuas assim, vais pró galheiro, pá. Já não tens cabedal prá borracheira! Tu é que sabes, mas, se fosse a ti, mudava de vida e de bebida. Olha, bebe café que sempre é melhor!”.
E foi ali, naquele preciso momento, que o companheiro celestial de tantas celebrações, o abandonou, vá-se lá saber porquê. O Xanata, deixou mesmo a bebida que lhe dava alento e passou a sorver - não sem repugnância no princípio - um café, quase sempre cravado a quem calhava.
Hoje, pela manhã, entrou o Silva. Um emproado funcionário público, magríssimo, daqueles que tem um pijama com uma risca só, desiludido com tudo e com todos, mas teimoso que nem uma mula da GNR.
O Xanata, sonolento, com os olhos semicerrados por causa do sol de Outubro, que mais parecia de Julho, levanta a pala da boina e cumprimenta-o
- “Sr. Silva, bom dia!”
- “Bom dia. Olha lá queres uma cerveja?” - tenta-o.
- “Não, obrigado. Não bebo. Só quero o café”.
O Silva parou no meio das fitas e olhou, então, com mais atenção o miserável que recusava uma cerveja em troca de um a bica. Com um casaco maior que o cabide, calças rotas no joelho – por acaso agora até é moda!- uma espécie de camiseta, suja, botas que já tinham conhecido melhores dias e melhor dono, o Xanata inspirava uma dó que ia para além de um simples cafezito. Generoso, adiantou:
- “Olha, faço melhor. Ofereço-te um bilhete da lotaria, pode ser que fiques rico. Sabe-se lá!”
- “Não, obrigado. Não jogo. Só quero o café”.
O Silva insistiu:
- “Tu é que sabes! Queres ao menos um cigarro?”
- “Não fumo. Só quero o cafezinho” - recusa o Xanata.
- “Diabo, pá. Queria fazer alguma coisa por ti!”.
Baixando a voz, diz-lhe:
- “Olha, e se eu te der uns cobres para ires dar uma queca à Micas do Canto?”.
- “Não, obrigado. Eu não traio a minha mulher. Só quero um café”.
Então o Silva, rápido e desengonçado na magreza, baixa-se, deita-lhe as mãos à gola do casaco, levanta-o com esforço, mede-o de alto a baixo, aguenta o cheiro de um corpo que não via água desde a molha apanhada no invernoso dia da festa do Santo Ildefonso em Esmolfe, e diz-lhe voz firme:
- “Vens comigo a minha casa, já!”.
- “Lá, há café?”.
- “Não! É para mostrar à minha mulher como fica um homem que não bebe, não joga, não fuma e não dá uma foda por fora de vez em quando!”.

segunda-feira, outubro 10, 2011

O CORNO



O Gaspar casou com uma lasca do caraças e toda a gente pensou ”Como é que este gajo arranjou um peixão destes?” A garota, 22 (como escrevem os brasileiros) tinha classe, tinha “applon”, tinha um corpo de fazer parar o SudExpress, tinha tudo e até tinha uma cambada e babosos a deitar água pela boca quando passava a bambolear os glúteos pela rua. O Gaspar também tinha alguma coisa que se visse: tinha mais 15 anos, tinha um trabalho mal pago, tinha uma catráfia de dívidas ao banco, tinha chatices na vida dele que chegavam, e, tinha a garota.
Apesar de tudo a coisa correu bem. Tiveram dois putos, tiveram mais dificuldades que foram aguentando, tiveram sempre muitos amigos à sua volta e tiveram também muitos invejosos à cata duma distracção do Gaspar para palmar a pequena.
Na verdade, e, apesar de tudo, com uma evidência por todos reconhecida, a vida do casal melhorou substancialmente. O único penedo no caminho da felicidade familiar eram os ciúmes doentios do Gaspar.
Nesta coisa de ciúmes, as coisas complicam-se e podem tramar uma pessoa. A vigilância foi-se apertando e, o Gaspar, começou a aparecer a horas desusadas em casa sempre com a secreta esperança de que tudo não passasse de uma doença crónica sem razão, na sua cabeça.
Um dia, chega a meio da tarde e surpreende, por uma nesga da porta entreaberta, a mulher, opulenta balzaquiana, na cama com outro.
Desvairado, louco de dor, uma dor surda que não o deixava respirar, corre à garagem, mete dois cartuchos na caçadeira e regressa silenciosamente. “Um tiro”, pensava, “um tiro e mato os dois”. Cuidadosamente, para não ser ouvido pelos amantes armou o gatilho e meteu os canos da arma pela frincha da porta. Apontou para a cama e, lá no fundo, mesmo à frente do ponto de mira, vê o corpo nu, macio e desejoso da mulher. Faltou-lhe o ar e parou. Na cabeça passou, aceleradamente, a vida em comum. Foi-se lembrando de como a sua vida de casado havia melhorado nos últimos tempos. Como tudo corria bem! A esposa já não pedia dinheiro para comprar carne, aliás, nem para comprar vestidos, jóias e sapatos, apesar de todos os dias aparecer com um vestido novo, uma jóia nova ou umas sandália da moda. Os garotos até tinham mudado da escola pública do bairro para um colégio particular. Sem contar que a mulher trocou o velho Fiat por um Alfa Giullieta, apesar de ele estar a quatro anos sem aumento e ter cortado a mesada dela. O supermercado, então, nem se fala: eles nunca tiveram tanta fartura na mesa quanto nos últimos meses. E as contas de luz, água, telefone, internet, telemóvel e cartão de crédito, há muito tempo que ele nem ouvia falar delas.
Até ela, estava cada vez mais bonita, mais brilhante, com a pele mais macia. Era um avião, toda boa, gostosa. Mesmo com dois filhos o tempo não passava por ela, era coisa de louco.
Lentamente, retirou a arma da porta entreaberta, e, com muito cuidado para não ser ouvido, e foi saindo devagar, para não atrapalhar o parzinho. Na porta da sala parou para reflectir um pouco e disse com os seus botões:
- O gajo paga o aluguer da casa, o supermercado, a escola das crianças, as contas do cartão de crédito, o carro, o supermercado e todas as despesas. Depois, ainda vou para cama com ela todos os dias! O que é que eu ía fazer?
E, fechando a porta atrás de si, saiu de casa.

Na rua, encontrou a Vilastina, uma amiga e confidente de longa data e, entre um lamento e um suspiro de alívio, conta-lhe a peripécia.

Ela, distante dos amores e desamores e com a clarividência de uma mulher independente e farta de conhecer as coisas deste mundo, atira-lhe:
- Gaspar! Relaxa, pá! Puta que pariu o tipo! O CORNO É ELE!!!!