Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Um Blog censurado pela Câmara Municipal de Penalva do Castelo

O vídeo que se segue foi-me enviado por um anónimo, a quem tenho de agradecer e considerar, um Amigo.

As imagens, foram recolhidas no ESPAÇO INTERNET da Câmara Municipa de Penalva do Castelo e, nelas, é possível verificar, no canto inferior, do lado direito, a informação de que não é possível visitar este blog: http://www.batemtodos.blospot.com/ . Está censurado pelos serviços municipais que gerem o Espaço Internet. Isto é, os funcionários que operam o sistema, receberam ordens para impedir que qualquer cidadão, possa visitar este blog, naquele espaço público, pago com o dinheiro de todos nós. Não acredito que, de modo próprio, algum funcionário se atrevesse a fazê-lo. Portanto, receberam ordens para tal e cumpriram o que lhes foi exigido. Falando português, quem terá sido a besta que mandou censurar www.batemtodos.blogspot.com?

Pensava eu que, estes tiques fascistas e ditatorias, já não eram prática nos nossos tempos.

Pensava eu que já vivíamos num país onde, o 25 de Abril permitira que cada um se expressasse da forma que quisesse e sobre o que entendesse, desde que respeitando a liberdade e os direitos dos outros cidadãos.

Pensava eu que a Democracia que permitira a escolha dos nossos Autarcas era respeitada e defendida por eles.

Pensava eu que tudo isto não passava de um mal entendido e fosse o resultado de uma partida que me quisessem pregar.

Pois pensei e pensei mal...

Afinal, a censura existe e foi confirmada.

video

Este Blog, tem tido, de uma forma humorística, uma postura de crítica á actuação do Presidente da Câmara e dos seus seguidores. Não foi, nunca, um lugar de cobardia e difamação, ou, de conformismo e de bajulamento do Presidente da Cãmara e dos seus comparsas. Também não foi, nunca, um lugar onde a má língua, os palavrões e a ordinarice -patentes em outros blogs, não censurados-, tivessem lugar.

Desde Bernardim Ribeiro e Gil Vicente que, o humor, é a forma mais inteligente de criticar e colocar no ridículo, os mais fortes. Por norma, os poderosos, sentem que o humor com que são visados, os coloca mais fracos porque os nivela por baixo, e coloca a crítica ao alcance dos menos letrados.

um imbecil, um mentecapto ou um saudoso do tempo da "outra senhora" mandaria censurar, num espaço público, este blog. Este procedimento fascista, apenas vem dar a razão a este lugar de liberdade e expressão democrática que é o www.batemtodos.blogspot.com .

Para todos os que me acompanham, tenho um pedido a fazer: enviem o link deste post, por todas as formas (Facebook, Plaxo, troca de mensagens, correio electrónico, etc) a tantas pessoas quantas for possível. Vamos dar a conhecer que, infelizmente, ainda existem uns quantos senhores, que, sob a capa da Democracia, não passam de autarcas de meia-tigela e aspirantes a ditadores de trazer por casa.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

O Telefonema


Discretamente, mesmo antes do almoço, no domingo passado, bateram á porta. Uma só pancada, como que a chamar uma pessoa sem alertar a vizinhança. Da varanda, onde me encontrava a ler “O Penalvense” - a pôr-me a par das benzeduras dos senhores curas ás distintas beatas do nosso burgo - e a fazer horas para a mesa, espreitei, mais curioso que alarmado, pois se alguma coisa de grave tivesse acontecido, não seria com aquele o chamamento.
Era a Carminda.
Estranhei. No dia anterior, estivera eu e a “minha” lá em casa, numa visita ainda tenuemente controlada, embora sem máscara, chinelos de papel e tudo, e já me aparecia ali, sozinha, com ar de quem vinha apenas cansada de uma ida a Fátima num autocarro ronceiro do “Amândio Paraíso”. A recuperação da pancada e do desgosto originados pelo resultado das eleições, parecia ter corrido bem.
Levantou a cabeça, viu-me lá em cima na varanda, e, com um meio sorriso, como que a pedir desculpa pelo incómodo de aparecer á hora da paparoca, disse:
- Dá-me o almoço, primo?
- Haja apetite, que comida não falta! – e, lá desci curioso pela cura rápida e milagrosa.
Ali, andava obra do Todo-O-Poderoso, certamente. Ninguém melhora de um dia para o outro, depois de um internamento compulsivo por causa da gripe H1N1, que envolveu uma semana de quarentena e de uma surra eleitoral. “A ligação privilegiada com os padres e com a Igreja tem que dar algum retorno”, pensei.
Quando cheguei cá em baixo, já as duas se abraçavam. A “minha”, sem cuidado beijocava-a, uma vez e outra, e a Carminda, eufórica ia dizendo que “ não há problemas, graças a Deus, já passou e já não se pega!”.
Confesso que tamanha rapidez de cura me pôs de receoso e, para não parecer mal, dei-lhe um abraço levezinho e sem respirar. É que se um gajo não se cuida…
A mesa já estava posta e aquilo foi só meter mais ferramenta á frente de uma cadeira. Inchada por contar “o que ia sendo uma desgraça”, a Carminda começou logo:
- Ai primo, que desta, já Nosso Senhor me livrou!
- Graças a Deus! repetia a “minha”.
- Ora, tudo está bem quando acaba em bem e a prima é difícil de deitar abaixo! Não há gripe que lhe chegue. Agora é de arribar esse espírito e deitar para as costas o passado.
E lá fui dizendo umas merdelhices a ver se a animava.
No meio daquele ramerame da conversa de circunstância e da sopa de nabiças, às tantas, a Carminda atirou esta bojarda que me atarantou e deixou a “minha santa”, com a boca aberta e ao lado, assim como uma pessoa fica quando tem uma trombose:
- Telefonou-me o Presidente da Câmara! – e pronto, sem mais nem menos e a frio, a coisa migou-me os miolos.
- Telefonou-te quem?!
- O pequenito e a Amélia do Fialho!
Subiu-me a tensão e a porcaria da sopa azedou de repente. Enrolou-se-me um nó na garganta e comecei a ouvir um assobio, com eco e tudo, dentro do caixote craniano.
- Homessa! Que queriam eles?
- Saber da minha saúde, primo.
- Aahhhh! – e abri a boca.
A gente não aguenta! Daria para me comover se não conhecesse tais mafarricos.
- Só? Só queriam isso? Foram muito simpáticos! – continuava cá na minha que a coisa não ficara por ali.
- Não, primo. Ele e a Amélia do Fialho querem falar comigo.
- Não me digas!
- É. Na Câmara.
- Na Câmara?
- É. Parece que ela vai ter uma Adjunta e querem convidar-me.
O Black, um rafeirito que me adoptou há uns tempos, ganiu debaixo da mesa. Não sei se o pontapeei sem querer, ou, se também sentiu a mesma impressão que eu: um enorme espanto pelo desplante do convite ou pela forma impassível como a Carminda estava a dar a notícia.
Andaria eu enganado todos estes anos? Sucumbira a minha prima a alguma ambição política? Estaria a passar dificuldades financeiras e o lugar vinha mesmo a jeito? Seria que a Gripe A lhe alterara o tino? Seriam influências do novo Padre, que viera substituir o Padre Carlos?
Já tudo me passava pela cabeça. A “minha”, mais animosa do que eu, perguntou:
- Adjunta? E isso, é bom?
- Cala-te! – impus-me. Ó Carminda, adjunta, mas para fazer o quê?
- Para fazer companhia á Amélia do Fialho.
- Companhia!? Companhia, companhia? Assim a modos que acompanhante para lhe levar o guarda-sol, a pasta, as prendinhas e arrumar as flores no gabinete?
- Pois. Isso mesmo! Companhia, como as damas-de-companhia. Sem fazer nada, só acompanhar a Amélia do Fialho para não parecer mal uma mulher andar pelo concelho, a ver as obras, apenas com o motorista.
Aí, caí da cadeira e, desta vez, pisei mesmo o rafeirote.
Pela minha cabeça passava uma multidão de caras que, desesperadamente aguardam um telefonema destes. Era uma traição o que lhe estavam a fazer. Então, andaram eles dia e noite, numa campanha eleitoral cheia de peripécias, sem dormir, quase sem comer mas com muita bebida, para agora, uma fulana que nunca mexeu uma palha pelo candidato, ser convidada para um lugar a que esta fila de interessados aguardava ansiosamente! Seria possível, que esta gente, que dera o corpo ao manifesto, ser ultrapassada por uma quase inimiga e crítica feroz da candidatura? Seria isto a nova moral política ou a moral de alguns políticos que tratam os seus apoiantes como preservativos? Usam e deitam fora. Eu também tenho “direito á indignação”, como diria o Dr. Mário Soares. Indignado por dois motivos: pelos infelizes que lutaram duramente pelo lugar que agora lhes fugia e com a Carminda, pela mera hipótese de se ter vendido a seu inimigo mais figadal.
Mas, a velha leoa, amiga dos pobres e dos deserdados da vida, vendo em mim um ar de dúvida sobre a sua pessoa, aproximou o indicador da mão direita da minha cara, e, olhando-me de frente, abriu a boca num sorriso alarve e chutou forte:
- Mas não vou lá e já os despachei! Se quer companhia, que nomeiem o homem dela. Sempre haverá melhores reformas para os dois.
Porra, um gajo comove-se com qualquer porcaria. Fui eu que servi a sobremesa á minha querida prima Carminda.

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

Agradecimento e recomendações

A minha prima Carminda pediu-me para avisar que vem, por este meio, dado ser-lhe impossível fazê-lo pessoalmente, como era sua intensão, agradecer a todos quantos se preocuparam com a sua saúde e a visitaram no hospital durante a sua estadia com a Gripe A, vulgo H1N1.
Do mesmo modo, pede-me para informar os seus amigos que, dado o resultado catastrófico e prejudicial ao concelho, das últimas eleições autárquicas, teve uma recaída e está prostada na cama, a aguardar a sua recuperação física e mental, que, será longa.
Pediu ainda para não me esquecer de lembrar ao Sr. Presidente da Câmara, que agora, que tem menos um vereador, vai ter de trabalhar mais e, já agora, recomenda-lhe que trabalhe melhor. Pede-lhe para deixar os afilhados e as promessas eleitorais de fora, dado que daqui a 4 anos, como não se pode recandidatar, ninguem lhe vai pedir contas.
Ao Sr. Vereador Carlos Ferreira, manda o recado de que deve continuar a dar-se bem com os padres e que não se esqueça de castigar os funcionários, que, nestas últimas semanas, andaram atrás do PS, CDU e do MPT. Recomenda-lhe que demonstre um carinho especial pelos beneficiados com o Rendimento Mínimo de Pindo e do Castelo, pelo esforço que fizeram na sexta-feira passada, carregando as bandeiras e as prendinhas do PSD/PP.
Manda ainda um recado para a Amélia do Fialho: sugere-lhe que passe a usar saltos altos e faça dieta, para não ficar abaixo das meninas que infestam os Paços do Concelho. Sugere ainda á Amélia do Fialho, que sempre que se desloque pelo concelho ao serviço da autarquia, leve o marido como acompanhante, para assim poderem identificá-la, como fez, aliáz, durante a campanha eleitoral.
Quanto ao vereador, Beato S. Luís Gonçalves, pede-lhe para ter paciência e que aguarde com calma, pois alguma coisa lhe hão-de arranjar porque, as suas qualidades e capacidades de trabalho, deram nas vistas e fizeram brado em todo o concelho.
E como mais não me encomendou, deixo-vos, com a esperança de uma recuperação rápida da minha prima Carminda,
Rufino Fino Filho

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

A Carminda e a Gripe A


Julgava eu que esta coisa da pandemia da gripe A ou H1N1, era conversa de farmacêuticos para venderem remédios e patrocinada pelo barbudo do Cordeiro, presidente da ANF - Associação Nacional de Farmácias. Cheguei ainda a pensar que o governo tinha inventado tal doença, para, no caso da epidemia atacar uma percentagem substancial de portugueses, poder adiar as eleições e evitar alguma vergonha. É que a massa não é muita e, duas eleições seguidinhas, dói como o caraças nas reservas do Ministério das Finanças, para além das cosas poderem correr mal. De qualquer forma, como um gajo todos os anos se engripa, era mais 1 Cortigripe no pêlo, e “adeus febre que me vou ao tinto”. Afinal, não é assim. A coisa está preta e, com no começo das aulas, parece que podemos ter os putos todos em casa mais uns dias, como se já não bastassem as férias grandes (demais!) para nos encherem a cabeça de gritos e cantilenas. O meu compadre Guedes, então, com a putalhada dele, anda maluco de todo, com o receio de um dia destes lhe devolverem a prole por mais uma semana ou duas.
A verdade, é que, do meu conhecimento, ainda ninguém por aqui teve essa tal gripe A. Já agora, A, porquê? Já houve tantas gripes e, se as identificassem todas com letras do alfabeto, esta seria para aí a V ou Z. A, porquê? Será que vai voltar tudo ao início?
Pronto, agora, vamos ao caso.
Um dia destes a Carminda, telefonou á “minha” a perguntar se podia passar lá em casa. Dizia ela, que andava adoentada, sem forças, sem apetite, que passava as noites em claro e a correr para o quarto de banho, doíam-lhe os ouvidos e os olhos e que, a cabeça, parecia rebentar. Na sexta-feira, a caminho do mercado, a”minha” passou lá em casa para ver a Carminda, não fosse dar-se o caso de também precisar alguma coisa da feira ou da farmácia, vá-se lá saber. Que “não”, nem dum lado nem doutro, “muito obrigado”. O que necessitava era de companhia para ir ao Centro de Saúde á consulta porque andava preocupada com aqueles achaques persistentes e que já duravam há vários dias!
- Olha, deixa-me telefonar ao Rufino para ir buscar a encomenda do peixe e da fruta ao mercado, que já lá vamos - disse a “minha” sossegando a pobre coitada.
Lá me ligou e fui ao mercado, encolhido e encostado às paredes, porque aquele é sítio de mulheres, não de machos peludos. Já viram a figura que um homem faz carregado de sacos plásticos a abarrotar de bananas, e, a largar um cheirete a peixe que tresanda. Meti aquela porcaria na carripana, fui dar duas de conversa na papelaria do Tónio, passei na árvore da má língua onde o Verdinho falava do Benfica e dos brilharetes do início de época, meti uma branquita no Café de Cima (nunca perderá o nome) e regressei a casa. A “minha” ainda não chegara. Esperei meia hora ou mais e adormeci a ler "A Bola”, ficando a meio da leitura de o artigozito sobre a Scolari, que parece andar pelas antigas rússias a treinar uns sujeitos que, antes dele chegar, pensavam que a bola era quadrada.
Acordei, já passava das 2 horas da tarde e, não fosse dar-se o caso das queixas da Carminda serem graves, meti-me na geringonça e fui ao Centro de Saúde. Assim, sempre aproveitava para conhecer o edifício do qual me diziam maravilhas.
Deixei o carro cá fora, porque lugares para os doentes estacionarem não há, e lá fui.”Eh pá, isto está cheio de gente”, pensei. Procurei a “minha” e a Carminda e não as vi. Á minha volta eram só caras dolorosas, enfezadas, amarelas, chorosas, remelosas, febrosas, encarquilhadas e doentias. Que porra de sítio para um gajo ir. Dentro de uma delas deveria estar a minha prima, mas não. A viúva do Pote, com os olhos febris muito brilhantes, lá arranjou forças para me dizer
- Oh Sr. Rufino, a “sua” e a D. Carminda estão lá dentro. Já entraram á um ror de tempo.
Olhei á volta e vi tudo tão moderno e limpinho que, com franqueza, estranhei e pensei, estupidamente que, “agora quase que valia a pena estar doente”. Fui ao guichet e lá disse ao que vinha á funcionária que me atendeu com um grande sorriso na cara.
- A”sua” e a D. Carminda estão com o Dr. João. Quer lá ir?
- Não só queria saber se há alguma coisa grave porque já para aqui vieram há quase três horas.
- Eu vou ver - e lá foi.
Nisto, pelo canto do olho, vejo a D. Amélia, a tal que é candidata a vereadora para melhorar a reforma. Atrás da secretária, bem arrumadinha por sinal, rabiscou um papel, pegou nele, levantou-se com um ar de quem tem na mão um assunto importantíssimo para resolver e, com uma cara preocupada, foi avançando até ao balcão de atendimento. Chegada aí, parou, sempre com os olhos na papeleta, depois, levanta a cabeça e com um olhar espantado atira-me
- Está aí, Sr. Rufino?
Ainda pensei que houvesse ali outro Rufino, pois que, olhando para mim, perguntava se era eu!
- Estou! - esclareci-a.
- Está doente? Vem a alguma consulta? que “não”, disse-lhe.
- É a minha prima Carminda. Está aí com a “minha”.
- Ahhhh! - casquinou e ficou cinzenta. Pois, naquela idade! - disse, maldosa.
Apeteceu-me chateá-la
- É mais nova do que tu! - lembrei-lhe - e como é solteira, está muito bem conservada. Não é? - acusou o toque e virou-me as costas.
Desapareceu nas entranhas do edifício, voltou passados cinco minutos e chamou-me ao canto do balcão para me dar um recado. Pensei logo “queres que te pague o favor da informação pedindo-me o voto”. Nada disso!
- Parece que a sua prima tem a gripe A. O Dr. João está convencido disso e já pediu uma ambulância para a levar a Viseu. Mas não diga nada a ninguém que ele não quer que se saiba.
Foi como se levasse um murro na cabeça. A pobre da Carminda ia ficar de quarentena durante a campanha eleitoral e isso era pior que a gripe A.
- E ela já sabe?
- Já! - e afastou-se com, pareceu-me, um sorriso estranho na face, e foi como se me dissesse “a tua priminha queria ser vereadora, queria, mas, primeiro, está aqui a menina!”.
Eram três horas e chegou a ambulância. Gerou-se uma pequena confusão na sala de espera do Centro de Saúde mas lá conseguiram, sem grandes explicações, meter a minha prima na viatura dos bombeiros. Na passagem, e, apesar da máscara anti-gripe, aproximei-me dela e ainda lhe perguntei
- Então, prima, sente-se bem?
Então, para meu espanto, retira o trapo da boca, deita-me a mão á gola do casaco, aproxima a minha cara da dela, e, com um sorriso maroto diz baixinho
- Ó primo Rufino, ora diga-me lá: já viu se eu entrasse numa lista para a Câmara? Ganhava com certeza absoluta? Que publicidade! Eu, Carminda de Jesus, a primeira penalvense atingida pela gripe A. Não se vai falar noutra coisa! Que trunfo! Era vitória certa! Deus escreve direito por linhas tortas! Ainda se vão arrepender! Ai Amélinha , Amélinha, que coça tu levavas!
E lá seguiu, deixando-me confuso e com a barriga a dar horas, com a “minha” a choramingar e a limpar as lágrimas na manga do meu casaco.

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

A Carminda e a vereadora Amélia


Não era nada que eu não adivinhasse. Passada a fase do choro, da baba e do ranho, a Carminda demorava a ser quem era. Fragilizou-se com o desgosto do convite que recebeu da Coligação PSD/PP. Aquilo foi um golpe que lhe retalhara as profundezas do ego. Uma vida inteira á espera de um mísero convite para ocupar uma cadeira de vereadora e vão convidá-la para integrar uma lista para a Junta de Freguesia da Ínsua! Que desfaçatez!
Ontem, entrou-me pela cozinha adentro a fungar e a bufar como só ela sabe fazer: é um som entre o assobio e o suspiro, assim do género, tthuumtzzzzhhaammm.
A “minha”, mirou-a pelo canto do olho, estendeu-lhe um prato de coscorões, rijos e pouco doces, e, disfarçando o incómodo de iniciar uma conversa lá lhe disse inocentemente, “- Olha, Carminda, já foste ver o novo Centro de Saúde?
Não sei porque, tremi. Aquilo não tinha sido propositado, mas parecia. Pegou num bolito, duro como cornos, abocanhou-lhe uma das pontas, colocou as mãos no regaço e ficou numa pose de Rainha Santa á espera que dali saíssem flores. Com uma voz sumida pela fúria atirou á laia de vingança “-Andas a poupar no açúcar?”.
Precavi-me. Levantei-me devagar e deitei uma mão á chávena de café. Vinha aí borrasca e da grossa. “- E porque é que eu havia de ter ido ao Centro de Saúde? Tenho cara de doente?”. Porra, que a conversa ia azedar. A “minha”, coitada, percebeu logo que já não ia escapar duma sarabanda e lá tentou compor o ramo, “- Credo, mulher, estás com boa cara e só perguntei por perguntar! Valha-me Deus, Carminda!”.
Agora sim, aquilo estava a precisar de um profissional da acalmia e da intervenção de um psicólogo com vasta experiência na resolução de conflitos familiares. Dei dois passos em frente, meti-me entre elas e sussurrei com ar cúmplice, “- Ora, tens boa cara, lá isso tens e não se vai só ao Centro por se estar doente. Olha, eu ainda lá não fui e tenho curiosidade de ver aquilo por dentro”. E numa de compincha lá lhe adiantei, “- Até podemos ir todos, só para ver!”.
Caiu, primeiro o Carmo, depois a Trindade, ou, se calhar, foram os dois ao mesmo tempo e eu não dei conta. Uma explosão de raiva mal contida, numa veterana das sacristias, é assim, como um terramoto do grau 8 ou 9 na escala de Richter: começa por abanar a cabeça a grande velocidade, depois as tremuras passam dos ombros às ancas acrescentando umas sapatadas violentas no chão da cozinha. Imagine-se um pudim fora da forma e nas mãos de um doente de Parkinson. A Carminda abanava toda e até me passou pela cabeça “- Queres ver que está a ter um ataque epiléptico!”.
“- Carminda, mulher, então? Que diabo, tem calma! O que é, caramba?”.
De repente, eclipsou-se-lhe o abanico geral e transformou-se numa leoa selvagem. Parou com as tremedeiras, fila-me a mão esquerda no ombro, deita-me um olhar que chispava fogo - que vindo duma beata assumida e radical nada tinha de divino - quase que me fura as costelas com o indicador da mão direita e, vermelha de raiva, diz-me baixinho mas destilando veneno “- Ao Centro de Saúde novo? Tu sabes quem lá está? Tu queres que eu vá ao Centro de Saúde novo? Queres dar cabo de mim? Tu sabes quem lá está?”, e repetia “Tu sabes quem lá está?
“- Ora, tu conheces toda a gente, Carminda? Há anos que lá vais e só lá tens amigos!”
BUUUMMM! Foi o fim!
“- Amigos? Amigos? Achas que aquela gaja é minha amiga? Achas que a marcadora de consultas é minha amiga? A Amélia, sim, a Amélia é minha amiga? Já foi, sabes, já foi! Essa senhorita roubou-me sabes, roubou-me!”
Gostava de ter entendido tudo á primeira. Os de Castendo são mais intuitivos do que inteligentes, pelo que só agora, depois do tremor de terra ter deitado abaixo toda a caridade daquela cristã verdadeiramente pia e humilde, é que eu percebi. A Amélia Carvalho, socialista empedernida das primeiras lutas políticas locais, trocara a asa esquerda pelo flanco direito da coligação PSD/PP e aspira agora a ser vereadora a tempo inteiro para melhorara parca reforma que a espera. Ocupara o espaço que a fatal ambição e o pecado maior da minha prima sempre aspirara.
“- Essa falsa canhota! Essa manhosa! A socialista de meia-tigela! Comunista é que é! E fascista também! Ó primo Rufino, e então você quer que eu vá ao Centro de Saúde? Só morta! Ouviu, só morta!”, e soluçava descontrolada, gemendo, “só morta, só morta!”, e benzia-se.
Um gajo pode ter um coração duro, mas não está preparado para isto. A coitada da Carminda não merecia esta desfeita.
Cá para mim, e já o disse, os Penalvenses ainda se hão-de arrepender de ter deixado de fora a minha prima.

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

O Convite

Tenho um problema com a minha prima Carminda, que não sei como resolver pois ela não pára de chorar. Fechou-se no quarto, clama que nem uma desalmada pela presença do seu apoio espiritual, o Padre Delfim, e arranca mãos cheias de cabelos como se estivesse a cumprir um ritual de arrependimento e perdão de pecados. O médico já lhe prescreveu anti-depressivos e, o resultado, é miserável pois continua com o ânimo na mó de baixo. Se eu mandasse, as injustiças que se fazem neste mundo, deveriam ser pagas na Terra em sofrimento e dor por aqueles que, sem respeito pelo próximo, assim ofendem a dignidade e as mais justas aspirações de uma alma de Cristo. A minha prima Carminda, não merecia o que lhe aconteceu. E ponto final!
Ao contrário do que era expectável, a Carminda, não foi convidada para qualquer lista de candidatos á Câmara ou Assembleia Municipais, numa posição de topo, entenda-se. O lugar dela, na política local, pela experiência que tem no contacto com as pessoas e pelo conhecimento de tudo – bem, quase tudo – o que se passa na nossa vila, faziam prever uma corrida ao seu apoio e á sua participação. A sua disponibilidade era total e sem reservas.
Confidenciou-me, num momento de franqueza e humildade, que esperava um convite para um lugar de destaque. Era mesmo uma ambição que lhe fazia arder a consciência, com o receio de que tais desejos fossem interpretados como um acto de vaidade e soberba, pecados graves no seu apego religioso.
Tentei demovê-la e trazê-la á realidade: lá lhe fui dizendo que aquilo não era lugar para mulheres solteiras e daquela idade, que iria arranjar mais inimigos e que os amigos se afastariam nos momentos mais difíceis da vida política, que seria apodada de muitos nomes feios quando tivesse que decidir por uns em desfavor de outros, que nunca encontraria forma de satisfazer toda a gente, que, se levasse a sério o cargo, só colheria chatices, que nunca mais teria tempo para as suas conversetas com as amigas, que nunca mais teria sossego em casa, que, sendo ela mulher, lhe escreveriam a folha em três tempos e tudo fariam para a colocar mal vista aos olhos dos seus apoiantes, que se tornaria objecto de uma marcação cerrada por todos os invejosos e incapazes desta terra, que lhe iria doer muito conhecer de perto a miséria moral e intelectual de muitos que ela julgava pessoas de bem, etc. Enfim, fiz o melhor que pude, na firme convicção que lhe estava a dar bons conselhos. Não consegui e continuou a cruzada á espera de um convite para um lugar cimeiro e de prestígio.
Sei bem, que, nos tempos que correm, há candidatos a candidatos de sobra. Desde os políticos de café - enfezados mentais, que temos de suportar, criticando, sempre pela negativa - até aos intelectuais da Árvore da Má-língua, todos se chegaram á frente em bicos de pés, á espera da oportunidade que tarda em lhes bater á porta. Este ano, então foi demais. Mas não para todas as listas partidárias. Dizem-me que, enquanto que o PS tinha candidatos a mais, o PSD, via-se grego para arranjar um cabeça de lista á Junta de Freguesia da Ínsua. Qualquer um, sem critérios de qualidade ou sem olhar á sua personalidade, serviria para o efeito. De um em um, todos foram recusando. Creio bem, que, participando numa corrida que se sabe de antemão perdida, não dá fé e coragem a ninguém
Porém, uns tipos sem vergonha, vieram ter com ela para integrar a lista de candidatos á Junta de Freguesia da Ínsua pela Coligação PSD/PP. Junta de Freguesia, vejam lá! A Carminda, numa Junta! E na lista da Coligação que ela sabia já ter convidado quase duas dúzias de cidadãos e cidadãs e só recebera recusas! O choque foi brutal e ainda não recuperou. Temo sinceramente pela sua saúde mental e pelo seu bem-estar físico.
De facto, ser-se convidado naquelas condições para tal lista, é a expressão máxima do desrespeito por um cidadão que deseja ganhar. No dizer da Carminda, os três mosqueteiros que lá estão vão perpetuar-se no lugar até ao limite da lei: o Laires, o Zé António e o João Ginga. É fã incondicional do charme daqueles três amigos de peito. Convidá-la para os confrontar, já foi uma afronta grave. Ser convidada pela Coligação PSD/PP, foi uma facada no seu coração virgem e um terramoto na sua auto-estima.
Acabou ali o tempo de espera por qualquer convite e terminou também, desfeita em lágrimas de sangue sentidas como só uma mulher de bem sente, a esperança da parceria política que a minha prima Carminda queria fazer com o eleitorado de Penalva do Castelo. A coitada, não resistiu ao enxovalho e ao ultraje de ser convidada por gente que considera pouco menos que, biltres.
Acreditem em mim, quem perde é o concelho de Penalva do Castelo.

Terça-feira, Setembro 01, 2009

Os novos emblemas

Com o início da Liga, é normal que os dirigentes dos clubes mais emblemáticos e importantes do país, queiram mostrar que algo vai mudar e dar uma nova esperança e uma nova alma clubística aos adeptos.
Para além das novas contratações e dos novos equipamentos, este ano, as direcções do Futebol Club do Porto, do Sport Lisboa e Benfica e do Sporting Club de Portugal, querem alterar os emblemas dos respectivos clubes e preparam-se para levar às Assembleias Gerais as novas propostas.
Confesso que não foi fácil obter as novas imagens destes eternos rivais. Mas, como em tudo na vida, há sempre que se venda por dez reis de mel coado, e, neste caso, bastou a promessa a cada um dos responsáveis pela imagem do club, de que seriam candidatos às Juntas de Freguesia das Antas, de Benfica e de Alvalade, para que chegassem às nossas mãos as fotografias dos símbolos de cada um: o Dragave, a Águicão e o Leãoguru.
Ora vejam:

FUTEBOL CLUB DO PORTO

SPORT LISBOA E BENFICA

SPORTING CLUB DE PORTUGAL


Quarta-feira, Agosto 26, 2009

Caixa do lixo?


Recebi pelo correio, como quase todos os lares de Penalva do Castelo, alguns opúsculos publicitários dos partidos concorrentes às próximas eleições autárquicas em Penalva do Castelo. Estou habituado a que - apesar de ter colado em local bem visível na minha caixa do correio um papelucho a dizer "NÂO COLOCAR PUBLICIDADE" (oferta gentil dos CTT, aliás) - o sacana do carteiro continue a abarrotar-me com milhares de panfletos de toda a ordem. Vou lá colocar um outro, com um grafismo mais graúdo e dizer “PROIBIDO COLOCAR LIXO”.
Tenho a esperança que o funcionário dos CTT saiba distiguir entre o útil e o desnecessário. Sim...porque até ao dia 11 de Outubro, entre o LIXO e a PUBLICIDADE que nos querem meter dentro de casa, vamos ter muito que vasculhar para encontrar a cartita da reforma.

Segunda-feira, Agosto 17, 2009

Marcolino, o Anarca


As estrelas, o destino, os deuses ou quem quer que seja, determinam a família com que cada um vai ter de conviver e/ou de suportar ao longo da vida. A família nós não escolhemos. Aparece e temo-la, simplesmente, em maior ou menor número com maior ou menor proximidade e afectividade. Já os apêndices familiares conexos (compadres, padrinhos, amigos, e, mesmo os genros e noras) terão, toda a vida a chancela da nossa escolha. Deveria incluir também os primos em 3º grau, mas, esses, por sorte, só aparecem na nossa velhice quando vêem visitar ”a terra onde nasceram os nossos pais” e, por isso, não incomodam, ou se incomodam, é um dia ou dois o que até serve para recordar os mortos e beber uns copos à saúde dos vivos. Portanto, para além da família em 1º grau, arranjamos outra por motivos afectivos, que é aquela, que, em grande parte dos casos, está mais próxima e nos vale nos casos de aflição.
Vem esta conversa a propósito de um amigo que a vida e a sorte me colocaram à frente, e, que, sendo do melhor que há na terra, somos a antítese um do outro. A vida foi, por vezes, madrasta para os dois e às adversidades respondemos com reacções diferentes.
O Marcolino é da esquerda pura (o PCP é "social-fascista", diz ele) e um anarca da pior espécie. Daqueles que ao seguir ao 25 de Abril, borrou as paredes todas com spray vermelho pichando aquelas frases imortais dos anarquistas, do tipo: : “a terra a quem a trabalha…o coveiro não é latifundiário” ou “ as putas ao poder que os filhos já lá estão”. Nunca está bem com o que vê, é sempre do contra mesmo que isso implique um pouco de demagogia, não pode com padres, as beatas fazem-lhe urticária (daí, dar-se mal com a minha prima Carminda), o som dos sinos da igreja arrepiam-lhe os cabelos e diz-se:
- Ateu, graças a Deus!
não vota, nunca
- Não há escolha possível entre safardanas da mesma raça!
e diz que a democracia é uma festa burguesa. Também diz que o comunismo é o roubo, por alguns, da ingenuidade e do trabalho de outros. A direita não lhe merece comentários porque não perde tempo com os “bufos”, "fascistas”, “corujas de igreja”, “padrecos”, "siflíticos" e outros “malfeitores” que a natureza não conseguiu extirpar da sua convivência.
Um dia destes, dizia no Zé Raboto, amigo e compincha de finos e má-língua:
- Olha, cada vez somos mais! Cada vez mais, ouviste? É só olhar! – e apontava duas ou três linhas, nas folhas soltas de um semanário que por ali andava, sem leitores, há meses.
- Vês? Aqui!
E apontava para identificação electrónica dos autores dos artigos ali estampados.
O Marcolino, é dos que, quando vê o símbolo @, pensa que são mensagens encriptadas dos anarquistas.

Quarta-feira, Julho 22, 2009

Eleições


Vêm aí as eleições autárquicas e achei que era altura de reunir a família.

Liguei á Carminda, ao Lopes e ao Guedes. Sei que não é uma grande família, nem sequer uma família grande, mas, para mim, chega. Gosto dela e ela gosta de mim. Não me ouvem muito, é certo, mas, desta vez, quem queria ouvir era eu. E, ora, se a gente se quer aconselhar e não começa pela família, vai começar por quem?

A reunião está marcada para o fim de jantar, amanhã á noite.

Na verdade, não sei, ainda, de que assuntos vamos falar e até tenho receio de me ter antecipado, mas, anda aí uma confusão na vila com os nomes dos possíveis candidatos, que tenho receio de que esta barafunda nos traga, outra vez, mais do mesmo. Com o Lopes á esquerda, o Guedes á direita e a minha prima Carminda (uma possível e desejada candidata independente) á esquerda e á direita, vou procurar saber como param as modas.
Depois dou notícias.
Até lá, aceito sugestões. Ficarei grato pela vossa participação.

Terça-feira, Maio 26, 2009

Ajudem a Carminda!


A minha prima Carminda, anda doente!
Coitada! Doente de morrer, morrer mesmo! Não de corpo, mas de alma.
Já não é a Carminda doutros tempos. Dos tempos em que era capaz de esgadanhar-se por um lugar de besta de carga no transporte do andor na procissão da Santa Ana; dos tempos em que papava léguas diárias a caminho de Fátima; do tempo das noites em claro nas novenas da Santa Eufémia; do tempo das manhãs invernosas e gélidas passadas no arranjo da Igreja da Misericórdia; do tempo dos terços em série, no mês de Maio.
A Carminda anda mortiça! Não de corpo, mas de alma.
Com a saída do Padre Delfim para Nelas, a coitada da Carminda, agarrou-se á esperança sábia do povo a que pertence e da fé que o anima, de que, “atrás de um santo, um santo virá”. Não quis, a Providência Divina, que aquela alma de beata, seca de pecados mundanos, pudesse saciar a sua vontade de ser íntima e confidente dos motoristas de Deus, aqueles que nesta terra o representam e conduzem a Sua doutrina: os padres.
Mandou-lhe, o Criador, primeiro, o Padre Carlos, um tipo de olhar baixo, visceralmente anti-beatas, organizado, exigente e calado como as pedras, mal-encarado, até. Um duro que tratou de colocar no sítio os adoradores do Padre Delfim e que transformou os domingos numa romaria de viaturas pejadas de terços e boas almas a caminho de Nelas. Definitivamente, não era santo do altar da minha prima Carminda.
Esta derrota inesperada, este quebrar da fé num missionário de Cristo, não lhe caiu bem. Nem a ela nem á minha comadre Gatinha (baptizei-lhe um filho), que, não fora a estúpida subida dos combustíveis, ainda hoje era de rota batida para as prédicas dominicais do saudoso.
Poucos meses depois, aí vai o Padre Carlos pregar para outras paróquias, porque, ao que dizem as más línguas impenitentes, se fartou dos joguinhos de sacristia entre as saias de velhas gaiteiras de ar beato e os tardios e arrependidos cantores do coro da igreja. Boatos destes, eu vendo-os como os comprei!
Ido o Padre Carlos, veio um outro sacerdote, com cara de anjinho, olhar inteligente, modos amaneirados mas firmes e de poucas falas. Muito poucas falas. Ora, não era este o protótipo de vigário que a Carminda pedia. A Carminda, é uma santa á maneira antiga. Um padre quer-se sério e circunspecto, pio e amigo de quem mais cristão for, bom garfo e bom copo, que não despreze, pois, os prazeres do mundo, para assim glorificar melhor o Senhor. Um padre deve ser como os Santos: sabemos o seu nome e o seu passado, mas, mantêm-se distantes á fala com os mortais. Era por isso que ela não gostava do padre de Esmolfe, que também já marchou para outras bandas.
Se já não bastassem estas infelicidades, que a têm trazido abatida e chorosa, soube, só agora, que o seu vereador adorado, a quem baptizara de S. Luís Gonçalves e por quem intercedera junto do Reverendíssimo Bispo de Viseu, não era, afinal, doutor. Ora vejam lá! Vale a pena viver para estas coisas? Ela, que o tinha á altura de um S. Tomás de Aquino, vê ruir toda a esperança do concelho de Penalva do Castelo ter um santo no calendário da Igreja: S. Luís da Encoberta. Até o nome teria aquela auréola de mistério que torna mais místicos os dons da santidade: da Encoberta, estão a ver?
Não sei qual vai ser, nem quando vai acabar o fim do sofrimento desta pobre cristã.
Será que é pedir muito, que, uma vez que vêm aí as eleições autárquicas a incluam numa lista?
Embora sabendo que lá para os lados da Avenida Castendo, a minha voz não chega ao céu, atrevo-me a alvitrar – o meu compadre Guedes chamar-lhe-ia, “meter uma cunha” – que pensem bem na possibilidade de a convidarem para integrar as listas da coligação PSD/PP. No PS, nem eu aconselho nem ela aceitaria, porque são todos jacobinos e hereges. Nada de "comunistas enfarpelados e bem cheirosos", como ela os chama. A ser candidata, nada melhor do que nas listas da coligação PSD/PP. Vão necessitar de uma mulher em terceiro lugar, pelo menos, e, melhor do que ela não há: sabe tudo de todos, mexe-se bem nos meios mais críticos ao Presidente da Câmara, tem santidade que baste para encaminhar uns e calar outros, não é mulher para se ficar por meias tintas, representará condignamente a Democracia Cristã, ocupará melhor o lugar que o vereador do PP retirando, assim, um pedregulho (literalmente) do caminho do PSD, tem caridade para dar e vender pelos pobres e oprimidos - potenciais eleitores de uma mulher que vive para distribuir amor sem rodeios – e, sobretudo, calarão uma crítica feroz.
Mas, isto, sou eu a falar! É só uma ideia. Como ela anda assim tão doente, nunca se sabe se aceitará.

Agora, um à parte:
E olhem, na verdade, para fazer o que faz o tal S. Luís da Encoberta, como ela o chama, não é preciso muito. Só há alguns problemas que o tempo ajudará a ultrapassar: não anda pelas tascas, vai muito á missa, não tem carta de condução, não é namoradeira e não diz palavrões. Pelo contrário, também sabe fazer figura de corpo presente, também receberá no final do mês sem fazer nada e também não é doutora.

É, ou não é capaz de ocupar o lugar?

Sexta-feira, Maio 22, 2009

A despedida

Certo padre foi homenageado com um jantar de despedida pelos 25 anos de trabalho ininterrupto à frente de uma paróquia. O presidente da Cãmara, um dos mentores da homenagem, responsável pela entrega do presente que marcaria a passagem do pároco pelo seu concelho e incumbido de proferir um pequeno discurso, atrasou-se. O ano, aliás, era de eleições e não poderia perder a oportunidade de ganhar mais alguns votos porque a coisa estava dificil, naquele ano. O sacerdote, dada a demora e sabendo que o autarca chegaria mais tarde ou mais cedo, decidiu iniciar a solenidade e proferir umas palavras:

-"A primeira impressão que tive da paróquia foi com a primeira confissão que ouvi. Pensei que o bispo tinha me enviado a um lugar terrível, pois a primeira pessoa que se confessou disse-me que tinha roubado um aparelho de TV, que tinha roubado dinheiro dos seus pais, também tinha roubado a firma onde trabalhava, além de ter aventuras amorosas com a esposa do chefe. Também em outras ocasiões se dedicava ao tráfico e a venda de drogas e para concluir, confessou que tinha transmitido uma doença à própria irmã. Fiquei assustadíssimo... Mas com o passar do tempo, entretanto, fui conhecendo mais pessoas que em nada se pareciam com aquele homem... Inclusive vivi a realidade de uma paróquia cheia de gente responsável, com valores, comprometida com sua fé e desta maneira, tenho vivido os 25 anos mais maravilhosos do meu sacerdócio".

Precisamente nesse momento chega o Presidente da Câmara, atrasado mas sorridente, ciente de que todos aguardavam as suas palavras. Trazia gisado um discurso que procuraria agradar a gregos e a troianos e, sobretudo, mostraria o seu lado cristão para que não houvesse dúvidas de beatas, sacristãos e outros católicos da comunidade. O padre, que apenas ia no intróito das suas palavras, interrompe-as , e educadamente, passa a palavra ao Presidente da Cãmara.

Este, de sorriso largo, começou o discurso dizendo:

-"Desculpem o atraso, mas, compreendem, as obrigações de um Presidente de Cãmara nunca acabam. Sr. Padre, nunca vou esquecer o dia em que o senhor chegou à nossa paróquia... Aliás, como poderia? Tive a honra de ser o primeiro a confessar-me a si!."

Quinta-feira, Março 05, 2009

Gosta de poesia?


- Gosta de poesia?
Não ouvi bem à primeira e olhei meio de soslaio e desconfiado para o vulto escuro que se acoitava, como eu, debaixo da pala plástica que protegia a montra da Sá da Costa.
- Gosta de poesia? - repetiu.
Um tipo de abordagem original”, pensei. A pergunta parecia-me deslocada no frio da manhã, e, apesar de feita à porta de uma livraria, devo ter mostrado um ar surpreendido porque, rápida e suavemente, ouvi de uma voz quebrada de força, uma explicação:
- Estou desempregada!
Devo ter feito um ar idiota porque a mão direita puxa de uma pasta de elástico, guardada num saco de um supermercado qualquer, abre-a lenta e respeitosamente - como se guardasse algo de muito querido - e estende-me uma folha fotocopiada.
- Veja se gosta! Por favor, leia.
Era uma súplica. Tentei articular qualquer coisa como “obrigado, mas estou com pressa” ou “não, não gosto de poesia”, mas, tudo o que eu pudesse dar como escusa, me parecia um insulto. Olhei melhor a figura meia ensopada pela chuva de molha tolos que continuava a cair brandamente. No meio de um chapéu de mulher, com as abas muito largas e que cobriam aquela figura até aos ombros, estava um rosto pálido ainda jovem. Olhos muito pretos e brilhantes, quase febris, sem olheiras, um nariz fino e elegante, uma face branca e sem pintura e, sem sorriso. Toda de preto como se estivesse enlutada e uma compostura geral de sofrimento.
Quase envergonhado peguei na folha que me estendia e li:

Descreve-me o silêncio…
Não questiones o mar
Despe-o ao invés…
Deixa tudo, mas mesmo tudo.
Mergulha de vez na eloquência
Da nudez, rasga a palavra, recorta-a
Até que dela só reste picadinho…
E só aí talvez de ti digam que
Finalmente és uma pessoa banal…
Ou então nem assim porque todos
De ti já sabem que dormes e
Acordas cada dia com a tua loucura
E tens por amante a poesia…

- Sabe, vendo-lhe esses versos! Não quero pedir! Ainda quero viver de forma digna! Se gostou, compre-mos, por favor.
Não me atrevi a perguntar “os versos, foi você que os escreveu?”. Peguei em 5 euros e estendi-lhos, cheio de vergonha por não saber o que dizer e sentir que há coisas que nunca se podem comprar. Serei o fiel depositário daquele naco de vida.
Então, puxa de uma esferográfica, apoia a fotocópia no vidro da montra repleta de best sellers de escritores de nomeada e, com a dignidade que as dificuldades da vida ainda lhe deixaram, escreveu o nome e colocou a data.
- Que tenha um bom dia e muito obrigado! agradeceu.
Pareceu-me ver um sorriso no rosto, mas, se calhar, era um esgar de tristeza, por ter vendido um pedaço da sua alma.

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

Escritos, Séries e Telenovelas


A Carminda e o Guedes andam esquisitos (cabisbaixos e sisudos, será o melhor termo para definir a situação). Encontrei-os no minimercado da Virita a sussurrar junto ao expositor dos queijos, com um ar beato e de quem se preparava para sofrer todos os males do mundo. A palmadinha nas costas com que habitualmente saúdo o meu compadre, não funcionou desta vez. Virou-se lentamente e de cabeça, caída ao lado, num ar de desalento que comia a alma (lembrou-me o rafeiro Black quando suspirava pela Branca da Maria Bolacha).
“-Viva Rufino!” - e manteve o mesmo ar infeliz como se a sua vida fosse acabar ali mesmo, junto da arca frigorífica.
“-Olá, primo!” - tremelicou a voz da minha prima.
”-Morreu alguém?” - a minha preocupação era a sério.
Pelos vistos, a coisa estava preta naquelas bandas e nenhum deles estava no seu estado normal. Algo, de verdadeiramente grave se passava e, como os amigos são para as ocasiões, comecei a sentir um ligeiro pânico - que atribuí mais à ignorância sobre o problema deles, do que a algum acontecimento nefasto, propriamente dito. Inconscientemente sentia que, se o caso tivesse a dimensão de uma calamidade pública, eu já saberia.
Insisti:
- “Vocês estão bem? Morreu alguém? Algum amigo?”
-“É. É quase isso!” - desabafaram quase ao mesmo tempo. E, puxando-me para a rua, deram-me conta daquilo que os preocupava. A montra da Farmácia Claro foi testemunha do sofrimento mental e quase físico da Carminda e do Guedes. O caso, aliás, não era para menos. Conhecendo-os eu, como conhecia, ia, pouco a pouco, tomando conta e avaliando a dimensão da sua preocupação. As pessoas que tinham sido um farol de virtudes nas suas vidas, estavam na origem de tudo. A honestidade, o rigor, o comportamento cristão, o apego à família, o espírito de sacrifício, a bondade, o amor à Pátria, o desapego às coisas mundanas, a nobreza de carácter, a probidade, a discrição, a serenidade, o bom senso, enfim, todos os dons e qualidades que, durante décadas, secretamente, acreditaram serem as referências da pessoa que mais admiravam, António de Oliveira Salazar, estavam a ser postas em causa e discutidas na praça pública. O que mais lhes doía, era o escárnio com que a vida pessoal do ditador era tratada pelos seus detractores. Ele, que fora “um patriota e um cidadão exemplar”! O mundo caíra em cima das suas convicções mais íntimas. O Deus escondido que lhes alimentara as esperanças de uma sociedade sem sobressaltos, estava a cair aos poucos, diante de todos, sem apelo nem agravo e sem haver uma “alma caridosa e esclarecida, que o defendesse às claras, gritando alto e bom som que o país lhe devia muito”.
- “A Guerra de 45, compadre…se não fosse ele…A minha mãe contava…”, e lá vinha um rosário de dificuldades, doenças, fome e miséria, apenas possíveis de ultrapassar graças às bênçãos e benefícios que Portugal tinha usufruído por influência e pela política seguida e praticada por Salazar.
- “Agora”, murmurava a Carminda, “até amantes, uma quantidade delas, lhe apontam”. Ele que sempre fora um esteio moral para as suas convicções sobre o celibato.
- “Pior”, balbuciava o Guedes, com uma fúria que o incapacitava de levantar a voz, “algumas delas até dizem que eram casadas”. O adultério era uma coisa inconcebível para o Guedes, casado com a Isaura, sua companheira há mais de trinta anos, pai de três filhos e avô de dois netos e que nunca a trocara, mesmo ocasionalmente ou em espírito.
Um “crime de calúnia e de difamação dos jornais, dos livros e da televisão”, diziam eles, estava a ser praticado sem que a vítima se pudesse defender, e, eu, já arrependido de me ter metido no meio das confissões tão íntimas daquelas duas almas defraudadas pela democracia, comecei a tentar descobrir de que modo poderia sair-me airosamente sem lhes dizer de uma vez só, que, “o que está morto, enterrado está e cheira mal”.
Comecei, tentando dar uma no cravo e outra na ferradura. Não podia sanar a questão com um “deixem-se dessas coisas, estes gajos têm dor de corno”, ou “falam mas nunca lhe chegarão aos calcanhares ” ou, ainda, “só se fala de quem tem valor”. Os amigos amparam-se nas aflições, não se abandonam nem se humilham. Tinha-me metido numa camisa-de-onze-varas e, agora, procurava sair airosamente desta situação complicada para mim e dolorosa para eles.
- “De facto, nos últimos anos têm sido publicados muitos livros e muitos artigos sobre o Salazar, a maior parte dos quais mais interessada em divulgar a sua vida privada do que analisar as virtudes ou os erros da sua governação. É uma reacção natural nas sociedades e da curiosidade humana a funcionar: procurar saber mais sobre quem detém ou deteve o poder. A História faz-se assim: com o conhecimtento do que foi notoriamente público, e, da influência da vida privada dos protagonistas no ocorrer dos acontecimentos. Para além disso, o secretismo que Salazar sempre quis impor sobre a sua clausura em S. Bento e sobre a sua vida privada, desperta curiosidade, em contraponto ao mediatismo dos nossos políticos, e, á devassa, a maior parte das vezes semi-autorizada, do seu dia-a-dia”.
Ganhara a sua atenção. O que até nem era mau! Procurara dar-lhes uma explicação aceitável para o interesse súbito pela vida de Salazar.
- “Olhe, compadre Guedes, uma coisa é certa, pelos vistos o Salazar não era maricas, mas sim um verdadeiro Macho Latino, daqueles que não deixou o bom nome da virilidade dos portugueses, por mãos alheias. Um português à maneira antiga, dos que não perdiam nenhuma queca bem dada. Com as mariquices que andam por aí, tomaram estes políticos de hoje ter um sopro da tusa do homem”.
O Guedes, riu. O que era bom sinal!
- “Carminda, já pensaste que há males que vêm por bem? Já viste que afinal, o Salazar é o causador da Igreja poder vir a ter mais uma santa nos altares? Olha, rapariga, ainda ninguém se lembrou disso e, acho que tu podias fazer um figurão e calar esses tipos que ganham uma fortuna. á conta de quem caricaturam nos livros e nas séries da televisão”.
Empinou as orelhas! Toquei-lhe no ponto fraco! Igreja e santos, eram com ela! Se tudo estivesse ligado com o seu respeitado mentor político, melhor ainda: seria ouro sobre azul.
- "Ora, Rufino. Como?" - arregalou os olhos, grandes e pretos como azeitonas.
- "Tens que entrar em contacto com o Sr. Bispo de Viseu e dar-lhe conta de uma novidade que todos estão a deixar passar em claro. Será a tua Glória e a tua Vingança. No meio desta devassa da vida privada de Salazar, descobriu-se que, a sua eterna governanta, a D. Maria, morreu virgem, contrariando toda a má-língua que sempre perseguiu a bendita senhora. Já percebeste? Como é que uma mulher vive mais de 40 anos com um galifão que papava tudo o que aparecia pela frente, resiste? Só sendo santa! A D. Maria pode passar a chamar-se Santa Maria de S. Bento ou Santa Maria de Santa Comba!"
E a Carminda chorou de alegria! Benza-a Deus!

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

Já chega de Ingleses!

Começamos a ficar todos fartos da história do FREEPORT.
Eu, pelo menos começo!
Já viram que os causadores do caso e os polícias, são Ingleses?
Esses gajos só nos têm lixado desde que que D. João I e a D. Filipa de Lencastre resolveram fazer uma vaquinha com eles.
É a mesma malta que pilhava os nossos barcos quando retornavam da Índia e do Brasil carregadinhos de especiarias; são os mesmos gajos que por aqui estiveram durante as Invasões Francesas, com com a justificação de que vinham defender-nos, e, tomaram conta do país, que governaram como se fosse mais uma ilha da costa inglesa, quando,o que eles pretendiam, era defender o traseiro das investidas do Napoleão; são os maltrapilhos que nos viraram as costas na questão do Mapa Côr de Rosa e se tornaram os maiores colonialistas da história da humanidade (Estados Unidos da América, Canadá, África do Sul, Austrália, Rodésia, Índia, Ceilão, etc.); são os pirosos que compraram o Algarve por meia dúzia de patacos e enviam para cá umas quarentonas desenxaibidas e carentes, que nem dá para levantar o tareco; são os mariconços do universo, que se passeiam a rabiar como bichas de Carnaval; vêm de férias, perdem os putos, e nós é que ficamos mal vistos; levam-nos os cracks da bola e nós contentamo-nos com refugo, que não distingue uma bola de um paralelipípedo.
São Ingleses, pronto!
Lembram-se (quem leu os LUSÍADAS, conhece) que os estes mariquinhas não tiveram tomates para defender uma quantas virgens injuriadas, e, as fulaninhas, tiveram que recorrer aos nossos marialvas ( os Magriços, ou os Doze de Inglaterra) para lhes defender a honra e o coiro? Pois é desses marrecos que estamos falar! A maioria dos Ingleses não tem fuças para levar uma chapada e até criaram um club, os Holligans, que, para se divertirem, têm que sair do país e vir por aí fora dar porrada em inocentes espectadores da bola.
Bem...aquelas avantesmas, até têm uma Raínha em vez de um Rei. Percebem?
Os gajos não são normais!
Viajam milhas em vez de quilómetros; medem em polegadas em vez de centímetros; pesam em libras em vez de quilos; pagam em libras esterlinas em vez de euros; vivem cercados de água por todos os lados, só veêm o sol meia dúzia de vezes por ano e conduzem do outro lado da estrada, á esquerda!!!
Os gajos não são normais!
Parece que, nós os Portugueses, ainda não demos conta do modo de actuar destes predadores sodomitas e continuamos a acariciar aquelas trombas deslavadas.
Eu, cá para mim, tenho uma teoria: estes meninos, querem, mais uma vez, dar uma facada na tal "mais antiga aliança política do mundo". Os atrasadinhos querem provocar a demissão do Sócrates com este conto do FREEPORT e estão vendidos ao PSD, que não encontra outra forma de correr com a malta do PS que está no poleiro.
Querem apostar?

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Bom Ano de 2009

Esta casa, do batemtodos, foi visitada por 13.000 pacientes e desesperados amigos, desde Maio.
Pacientes porque, reconheço, é preciso muita paciência para ler as historietas da treta que aqui estampo;
Desesperados porque só quem não tem algo melhor para fazer, perde tempo a lê-las.
De qualquer forma, fica-me bem agradecer as visitas e os comentários destes parceiros, que, ainda por cima, não têm rosto nem nome, como eu.
Bem hajam!
Que o ano de 2009 seja melhor do este desgraçado que nos deixa!

Segunda-feira, Setembro 29, 2008

O Mãozinhas


O Marco, cedo começou a mostrar que era uma criança precoce. As mãos enormes e desproporcionadas num bebé daquela idade, que a avó dizia serem de pianista, estavam sempre em movimento. Ao colo, ou entravam pelo decote ou vasculhavam os bolsos atirando tudo ao chão. Aqueles dedos finos e compridos, demonstravam uma desenvoltura extraordinária, manuseando correctamente objectos próprios para crianças mais velhas e mais experientes. A mãe, orgulhosa das habilidades do miúdo, chamava-lhe Mãozinhas. Nunca uma premonição foi tão acertada!
Aos 3 anitos, regressava todos os dias a casa, vindo do infantário, com mais uma chupeta no bolso do bibe. A mãe, achando graça, lá devolvia as chuchas no dia seguinte. Na escola primária, tornou-se o maior coleccionador de lápis, borrachas e afias, em quantidades que fariam inveja ás organizações que juntam e enviam material didáctico para as escolas africana. Aí, o espertalhote, convencia toda a família que os ganhara a tralha ao jogo do cromo, o que toda a gente acreditava, dado a vantagem que tinha em relação aos outros garotos, no tamanho das mãos. Já no liceu, onde era um aluno brilhante, ia aproveitando as aulas de Educação Física para aumentar a colecção de ténis, telemóveis, moedas e notas, cometendo a proeza de nunca ter sido apanhado. Na verdade, aquelas mãos enormes e quase mágicas, tornaram-no precoce no roubo. Nascera para ser dono e admirador de outros bens que não os seus.
Aos 14 anos, alto e desengonçado, apareceu-lhe o buço e começou a mirar-se ao espelho e a mirar as garotas: deixava-se prender pelo andar delas, olhava-as pelo canto do olho, dava-lhes palmadinhas amigáveis nas costas, mostrava atenção ás suas conversas e corava com muita facilidade se alguma delas olhava de frente. Sentia o corpo e o comportamento a mudar e não percebia o que estava a passar-se com ele.
A Olga, uma morenita que passara, até aí, despercebida na turma, ganhara as formas de mulher muito rapidamente e o Marco reparou que passava mais tempo a olhar para ela e menos tempo para os professores. Aquela nova e estranha sensação inquietava-o e aproveitava todas as oportunidades para se aproximar e meter conversa, fosse qual motivo fosse. A pequena, como quase toda a turma, deu conta das tentativas, mas, com a atenção mais virada para o Antero, um puto cheio de vida e de piada sempre na ponta da língua, foi-o evitando até ao momento em que, incomodada, lhe disse:
- Ó Mãozinhas, eu gosto é do Antero!
Amuou e a coisa espalhou-se entre a malta.
Sentindo-se alvo da galhofa dos colegas - que, assim, encontravam uma maneira de o nivelarem por baixo, dada a sua superioridade nas notas escolares – perdeu o sono a congeminar uma vingança que o colocasse no patamar de respeitabilidade em que a turma o tinha anteriormente, e, que, ao mesmo tempo, amarfanhasse de vergonha o seu rival e a sua amada.
A sua habilidade era gamar. Mas gamar o quê? As cuecas ou o soutien da Olga? Bah, seria impossível e ordinário. Um bilhetinho amoroso do Antero que o ridicularizasse? Não, o tipo não era de escritas. O telemóvel com as mensagens amorosas tocadas? Impossível! Denunciá-lo-ia como ladrão. Estava bicuda solução!
Descobriu como, no casamento do seu primo.
Os pais da Olga eram amigos de infância da família da noiva e lá foram como convidados. A pequena, filha única, de vestido preto, decotado e muito justo, passeou-se o tempo todo entre a malta jovem e a cumplicidade permitida pela festa, deu chance ao Marco de se aproximar. O pessoal mais novo entrou junto na igreja e lá ficou, rindo e conversando, durante a cerimónia. Como que por acidente, o Marco ficou ao lado da Olga e sorriu, inocentemente, como quem diz: “vamos lá a ver se a missa acaba depressa?”
O padre, perorava sobre a felicidade futura e a vida em comum, sobre a unidade criada pela troca de alianças e os filhos para educar na fé cristã, sobre o amor do homens e o amor de Deus, e, dando concelhos matrimoniais, que, vindos de um celibatário, eram sempre objecto de desconfiança dos menos crédulos. A cerimónia decorria com a normalidade e a alegria destas ocasiões. Chegada a hora do vigário pedir aos convidados que se saudassem na “Paz do Senhor”, houve apertos de mão e beijos numa demonstração conjunta de amizade e festa.
Chegara a hora! A ideia para a vingança viera da boca do padre! Aquela história do “saúdem-se na Paz do Senhor” dera-lhe a inspiração necessária, e o cérebro, rápido a pensar, encontrou instantaneamente a solução. Calmamente, saudou todos os vizinhos numa manifestação de genuína alegria deixando para o fim a Olga. Virou-se e esperou que esta terminasse os cumprimentos, que espalhara abundantemente pela vizinhança. Aguardou que se virasse, sorriu e estendeu levemente a mão direita que lhe tocou no ombro. Ela, mais baixa, elevou-se e aproximou a face num movimento normal e com um sorriso nos lábios. Ele, baixou-se ligeiramente como quem vai dar um beijo na face, e, num movimento rápido, afasta a cabeça para trás, desvia a trajectória e ferra-lhe um beijo na boca. O sorriso desapareceu da cara da pequena e foi substituído por um olhar de espanto e surpresa pelo atrevimento que a paralisou. Ele, endireitou-se e tomou uma pose de inocente. Olhou em redor, certificando-se que os amigos tinham testemunhado o feito. E tinham! Olhavam e cocichavam entre eles. Com um sorriso maroto nos lábios, respirou fundo e pensou:
- “Acabou-se o Mãozinhas! Viva o Beijinhos”.
PS: Foto Daniel Oliveira

Quarta-feira, Agosto 27, 2008

Uma história de Amor


Chamava-se Laura - a Cigarreira, na boca do povo. Casou com as ilusões de um português á procura da árvore das patacas no Brasil, juntando, assim, dois destinos na busca de uma felicidade que não fosse madrasta. Para ele, estando lá, o Brasil foi ficando cada vez mais longe e o amor cada vez mais forte. Para ela, Portugal, tornou-se uma saudade na boca do seu amado. Assim, transferiram os sonhos e o futuro que nunca teriam, e, ela, acompanhou-o com a promessa de amor eterno e na esperança de um riso de filhos e uma casa farta. Ele regressou, trazendo como única riqueza aquele amor transbordante que guardaria até ao fim. Quarenta anos depois ainda eram felizes no amor que sempre lhes matou as dificuldades da vida. Mirraram e estiolaram á espera de melhores dias, que nunca vieram. Filhos, nunca tiveram e a casa era um tugúrio malcheiroso e insalubre no meio da vila. A cabra da vida viu-os passar e nunca buliu na sua porta.
A pele de mulata disfarçava a sujidade, e, o cheiro nauseabundo que exalava, era apenas atenuado pelo odor do álcool que lhe diluía a saudade e dos cigarros que lhe enganavam a fome. Nunca a terra tinha visto uma mulher a fumar. Com admiração e espanto, os novos conterrâneos, foram generosos e ofereceram-lhe a alcunha que a acompanhou toda a vida: Cigarreira. Os olhos grandes, castanhos e generosos no brilho, espelharam sempre uma alma livre e compreensiva com as amarguezas diárias.
Viviam com dezenas de gatos, porventura a única ternura e amizade honesta e leal que encontraram até ao fim da vida. A todos, ela, pôs um nome. Sempre um nome que lhe recordasse o mar que deixara e os deuses pagãos que adorara na meninice. Os nomes eram do seu amado Brasil e recordavam-lhe a felicidade que perseguira mas nunca encontrara.
Primeiro, partiu ele e levou consigo as únicas riquezas que verdadeiramente foram suas: a imagem e o amor da sua mulher - a única que conhecera e a quem pertencera - e o nome, Manuel, Marreco na boca do povo.
Ela, pouco mais durou. Apagou-se, só, no casebre infecto. Serenamente como a chama no coto de uma vela.
PS: Foto de Carlos Mendes

Quinta-feira, Agosto 21, 2008

O alfaiate

O Júlio Rabeca era mestre alfaiate, um estatuto que ganhara com o tempo, habilidade e bons fregueses. Tornara-se exímio no uso da tesoura, da agulha e do dedal depois de uma aprendizagem sofredora com o Artur Alfaiate. Filho de uma numerosa família - era o décimo de catorze irmãos - cujo destino e a necessidade espalharam pelo mundo num corrilório pela vida. Foi o único rapaz, juntamente com a irmã Deolinda, a ficar pelas berças. Na escola, onde entrou com sete anos, só o deixaram completar a segunda classe. Mostrava jeito para o desenho e era o melhor na tabuada, recitada em coro, e, tendo a marcar o ritmo, uma cana da Índia, dura como ferro, cheia de nós, apanhada no canavial do paredão da Senhora de Lurdes. Letras, o professor, fazia questão de mandar os putos cortar meia dúzia delas e depois escolher a mais adequada á função. Na falta momentânea da batuta da matemática, servia o pau da vassoura de piassaba. Para os mais erráticos, a sinfonia acabava com umas palmatoadas que punham o Letras vermelho pelo esforço.
Aos nove anos, o pai entendeu que já lia bem demais e fazia contas melhor que um merceeiro, pelo que, sem lhe pedir opinião, arranjou forma de o mandar aprender a arte de alfaiate com o melhor artista de Castendo, o velho Artur. No primeiro dia, tomou conhecimento com a “pedra de afiar agulhas”, um enorme rebolo, de granito, que carregou entre as alfaiatarias do mestre Artur e a do Elias, outro artista do mesmo ramo, que morava no Cimo da Vila. Cansado e dorido, foi avisado da brincadeira por outro aprendiz, a quem tinha sido pregada a mesma partida. Amuou. Na vinda da terceira viagem, deitou a “ferramenta” dentro do pio junto á Misericórdia e rumou a casa, com a firme intenção de abandonar o futuro que o pai lhe preparara. Á noite, no regresso da pedreira, o velho Rabeca, num ápice, explicou-lhe, com cinco dedos da mão direita e mais cinco da esquerda, que as suas decisões, não tinham contestação. No dia seguinte, pelas sete horas, lá estava ele a assentar praça no mestre Artur. Desta vez, para sempre, pois, a explicação paterna, primara pela eficácia e a mensagem fora bem entendida. Passou um ano até que fizesse o primeiro ponto e abrisse as primeiras casas numas calças de cotim. Até ali, as suas responsabilidades e obrigações passaram por trabalhos menores mas necessários: acendia o ferro, arrumava fazendas, ia á água, entregava fatos e levava umas lambadas quando respondia torto, quando preguiçava ou quando as coisas não corriam muito bem aos artesãos. Dois anos depois caseou a primeira vez um fato domingueiro e começou a pespontar bainhas. O primeiro dinheirinho deu-se á cor aos 15 anos quando o Padre Felício recebeu das suas mãos uma nova batina, com a indicação expressa do mestre de que “eu só a tracei e cortei o resto foi o Júlio que fez”. O vigário, generoso, deu-lhe, vinte e cinco tostões, cinco coroas. Coser, passajar, chulear, vincar com ferro, riscar os moldes, cortar o tecido e outros segredos da arte, foi uma aprendizagem que lhe consumiu 12 anos. Um dia, depois de talhar um fato para o Sr. Doutor das Quintãs, o mestre Artur, num momento de franqueza atirou-lhe de sopetão:
- Já não tenho mais nada para te ensinar, rapaz!
Aos 21 - livre da tropa graças a um físico demasiado magro - com uns trocos amealhados, comprou as ferramentas necessárias ao ofício nos Bernardinos e abriu uma alfaiataria, numa loja térrea arrendada ao Duarte Tarola, por vinte escudos ao mês. Espalhou-se pela vila a fama da sua habilidade e talento. Hábil como era, não lhe faltava trabalho. A Deolinda, que trabalhava na costura em casa da Morgada, mudou-se com agulhas e dedal para a nova oficina, e tudo ia de vento em popa. Era um artista do corte e costura. Hoje, chamar-lhe.iam, estilista.
Ali perto, numa tentação permanente, estava a taberna do Armando Cego. Lá se juntavam no sábado á tarde, vindos da Serra de Esmolfe, os pedreiros, e, ali deixavam parte do seu suor, em vinho, amendoins, sardinha de escabeche, bacalhau frito e outros petiscos servidos em pratos e copos de duvidosa limpeza.
Júlio Rabeca, filho, neto e bisneto de pedreiros, desde miúdo que assistia a esse ritual semanal e, tratado como um deles, depressa enriqueceu o paladar com tintos e brancos. Ampliada a herança genética de uma irresistível tendência para o álcool, cedo se tornou um hábito largar amiúde o trabalho e fazer uma rápida visita ao Armando Cego. Pelo meio, cobiçou-lhe filha mais nova e deu cabo da cabeça á rapariga. Fez-lhe um filho entre os pipos da adega e casou apadrinhado pelo mestre Artur Alfaiate. Com uma figura magríssima, curvada pela idade e pelo jeito que a profissão moldara ao corpo, foi-se consumindo e deixando consumir, primeiro pelo tinto, depois pelo bagaço, e, finalmente por tudo o que fosse bebível e lhe desse a clareza de ideias e lhe parasse a tremura das mãos. Ao caminhar, mantinha os braços rígidos, um á frente e outro atrás, com os dedos mindinhos espetados, como se estivesse a beber uma chávena de chá em casa da Morgada.
Ora, um dos trabalhos em que a arte do alfaiate Rabeca era mais requisitado, eram as saias para senhora. Um artigo que entrara na sua oficina pela mão da Deolinda e que os outros alfaiates da terra achavam despropositado. Depressa descobriu que lidar com corpos de mulher, lhe exigia novos truques de tesoura. Descobriu a arte de saber disfarçar os excessos carnais das matronas, adelgaçando-lhe as formas bojudas e disfarçando os traseiros enormes. Com outro corte diferente do habitual, mais uma ou outra prega e um aperto na cintura, fazia milagres.
Um dia, em que as idas ao balcão do sogro tinham sido para além do habitual, entra-lhe pela porta dentro a Mariazinha Lopes, uma mulher imensa, cuja vida girava entre os prazeres da mesa e as obrigações da igreja. O Júlio, avaro de carnes e ateu, sentiu um murro no debilitado estômago - em vinho de alhos - mas lá conseguiu arriscar um nebuloso “em que é que posso servi-la, minha senhora?”. "Uma saia", ela queria mandar fazer uma saia, pois uma amiga tinha-lhe dito que o “Sr. Rabeca, era um artista e até fazia uma mulher ficar mais bonita e mais elegante”.
Toldado, na penumbra da oficina, olha aquele monstro a abarrotar de carnes por todos os lados, mediu-a, e sibilou entre dentes:
- E como quer que faça isso? Lá fazer a saia, eu faço-lha, que é metade da encomenda. Agora pô-la mais bonita e mais elegante, eu não sei. Eu milagres não faço. Milagres, só Deus, e vindo vocemecê da igreja, porque não volta lá e Lhe pede a outra metade.

Segunda-feira, Agosto 11, 2008

O Bolo de Chocolate

Levantei-me cedo, e, como o costume, mandei o cão á rua antes que a idade já avançada vencesse a sua boa educação sobre regras de higiene e o obrigasse a dar-me um desgosto oferecendo-me uma dose de trabalhos manuais com a esfregona logo pela manhã. Ainda choco com o sono, pareceu-me ver uma linha preta no chão e achei estranho ser tão grande e tão visível. Depois, achei ainda mais estranho que se movesse! Pensei, “que merda é esta?” e dei um salto, desviando o pé, que, em desequilíbrio, avançava ameaçando pisar aquela porcaria. Baixei-me, olhei melhor e nem queria acreditar: era uma invasão de formigas, daquelas minúsculas que, aos milhares, atravessavam a cozinha de uma ponta á outra em direcção á despensa. Em pequenas linhas rectas, quebradas pelo desvio às pernas da mesa ou das cadeiras, aquele traço negro parecia uma seta apontada a um alvo bem escolhido. Eram em número suficiente para despejar um armazém em menos tempo do que leva a estrelar um ovo. Umas, passavam por debaixo da porta e desapareciam na prateleiras, outras, saíam carregando com pequenos grãos de açúcar, respeitando sempre o mesmo caminho e cruzando-se pela esquerda e pela direita com pequenas paragens para se cheirarem, pareceu-me.
Corri á rua com a determinação de descobrir a origem da ameaça e tentando, ao mesmo tempo, recordar-me do lugar onde a” minha” tinha guardado o pózito que, no ano anterior, espantara umas primas, um pouco mais avantajadas, que andavam a roubar as sementes de relva acabada de semear no canteiro onde antes cresciam as plantas aromáticas – hortelã, salsa e coentros – que, por motivos que desconheço, acabaram por ser substituídas por saquinhos de plástico com folhas das ditas lá dentro, adquiridos no Continente ou no Ecomarché.
Aquela linha móvel nascia no portão do quintal, percorria a meia dúzia de metros que o separavam da casa e esgueirava-se pelo canto da porta da cozinha. O exercitozinho das liliputianas deixava um carreiro limpinho de areias, restos de folhas e pauzinhos. Nem um grão de pó se via. Lá organizadas e limpinhas, eram elas!
Furioso pelo desplante, falhei um chuto no rafeiro que andava a cirandar á minha volta e gritei para dentro de casa “olha lá, onde puseste o veneno das formigas?”. “Vê na garagem”, respondeu a “minha”. Corri tudo: virei as gavetas dos móveis velhos que ali jazem há anos e são os fiéis depositários de quanta traqitana há, despejei o armário da ferramenta e as prateleiras de madeira, encontrando coisas que procurava há anos. Encontrei tudo, menos o Baygon, que sendo fatal e mortífero para aquelas cabrinhas, seria o meu Xanax matinal. Na dúvida, fui á casa da lenha e á garrafeira. Nada! “Olha lá, aqui não está!”, e, de lá dentro, outra vez “já viste bem na garagem?”. As coisas começavam a complicar-se e evitei uma resposta mais acelerada.
E, o vai e vem das ladras do açúcar, lá continuava, interminável, determinado e com sucesso. Pensei em tudo: em água a ferver para uma eliminação instantânea, na sola do sapato esborrachando-as às centenas, numa vassourada bem dada para lhes desorganizar o ataque, num banho de vinagre com o borrifador da roupa, eu sei lá, até pensei numa bomba de sopro que as levasse de uma vez só. Mas não conseguia descortinar um modo eficaz de as tirar, de vez, da minha cozinha. Sentei-me á mesa, a olhar para o incessante movimento de milhares de formigas-mirins, devastado pela impotência em acabar com o inimigo, que tendo um tamanho minúsculo, estava a dar comigo em doido. Ingeri os comprimidos para a tensão arterial, que devia estar para aí a 20 ou mais.
Imaginei-me a apontar uma arma radical que evaporasse, de vez, as invasoras. Assim como nos filmes de aventuras no espaço onde as armas eclipsam instantaneamente os monstros e…foi então que descobri o método de eliminação imediato das malditas. Entrei no quarto onde a “minha” guarda toda tralha necessária á manutenção doméstica e armei-me. Liguei o aparelhómetro á corrente, botei um sorriso maléfico nas trombas, comecei a deitar faíscas pelos olhos, chutei a porta da despensa, apontei o cano da arma ao ajuntamento que me surripiava o açúcar e…comecei a aspirar. Que maravilha! Era vê-las desaparecer! Depois de limpa a despensa, passei á cozinha e recordo-me que ia assobiando uma marcha qualquer enquanto o buraco negro do tubo do aspirador ia sugando aquele cordão negro que me estragara a manhã. Saí de casa, contente como o raio, e a festa do chupanço continuou até ao portão da rua. Vitória! Adeus cabrinhas!
Limpa a zona, rapidamente, peguei num saco de plástico do supermercado, coloquei lá dentro o filtro do aspirador, dei dois nós bem apertados, e, muito mais bem disposto, depositei o saco no caixote do lixo. Agora, podia tomar o pequeno-almoço descansado sem ter milhares de olhos a invejarem o açúcar que deitava no café.
Em cima da bancada da cozinha, estava um volume tapado por um pano branco. Levantei uma ponta e vi um esplendoroso bolo de chocolate que ali ficara a arrefecer desde a noite anterior. Olha se aquelas danadas tinham dado com ele! Perguntei, como se necessitasse de resposta “posso partir um bocado do bolo?” e, lá de dentro, veio a resposta com um aviso á mistura, do género, “podes, mas come pouco por causa do teu colesterol”. Tirei uma faca da gaveta e parti dois pedaços iguais. Sentia-me magnânimo. Procurei outro saco de plástico do supermercado, meti lá denro uma das fatias daquele apetitoso bolo de chocolate, vim ao portão da rua, coloquei-o junto ao formigueiro e fui comer a minha parte. Uma hora depois, voltei ao local da oferta, e o pedaço de bolo estava coberto por milhares e milhares e bicharocos que se lambuzavam, cortavam e transportavam pedacinhos para os buraquitos. Cuidadosamente, fechei o saco, dei dois ou três nós, levantei a tampa do caixote do lixo e juntei-o ao outro que jazia lá no fundo. Pronto, solução definitiva! Assim, estavam todas juntas e não se iriam sentir sós.
Adeus, amigas!

Domingo, Agosto 03, 2008

Deus é GRANDE!

O Tomé Palheta tocava requinta na Banda de Castendo. Sempre desejara tocar caixa, mas, quando entrou como aprendiz aos 9 anos, reinava o Pauzinhos, que não sabendo tocar por pauta - por não saber ler música -, tinha um extraordinário ouvido e um talentoso ritmo de mãos, de tal forma, que, tendo entrado na ausência de uma emigração temporária do anterior titular do instrumento, nunca mais fora substituído. Na verdade, não passara por ali Mestre que não o mantivesse no lugar, apesar da absoluta incapacidade para aprender o solfejo. Nos ensaios de novas peças musicais parecia que adivinhava o ritmo do compasso, a intensidade da batida, o sussurro dos rufos e a macieza da pancada. Nunca falhara uma entrada. A sua prodigiosa memória auditiva permitia-lhe manter-se, há mais de cinquenta anos, como titular indiscutível das baquetas, que se tornavam mágicas nas suas mãos.
O Tomé, entrara para os instrumentos de madeira quando o velho e saudoso Manuel das Tintas se deixou de festas devido á avançada idade, que já não lhe permitia aguentar o ritmo e as caminhadas de arruadas e procissões. Contrariado por o instrumentos dos seus sonhos já ter dono, rapidamente absorveu as claves, os sustenidos, as colcheias, os pianíssimos, os moderatos, enfim, mostrando ser dono de uma habilidade e um talento nato para a música, que em meio ano, o premiou com a primeira saída para as festas de Pega, no Sabugal. Pressionado pela responsabilidade da substituição e ainda sob a desconfiança dos mais velhos, cumpriu bem a encomenda e nunca mais foi objecto de desconfiança na sua capacidade de músico. E, assim, desfeito o sonho da caixa, lá se foi ficando pela requinta já lá vai quase uma vida.
Certo dia, a caminho de casa depois de mais um ensaio, viu, reflectido pelo luar, um brilhozito que saía da valeta da estrada. Baixou-se e apanhou o que, aparentemente, parecia uma navalhita. Meteu-o no bolso e seguiu.
Dias depois, não se recordando já do achado, lá o encontrou quando se fardava para o concerto que a Banda ia dar no coreto da Praça Magalhães Coutinho. Ferrou a unha na ranhura do aço, deu um jeitinho, puxou, e, o canivete, duplicou de tamanho. Soprou na cama da lâmina, enxotando o pó e a terra acumulada e, lentamente, limpou-o com papel e um pano velho até ficar brilhante. Restos de tinta de palavras meio apagadas, que ainda eram visíveis nos lados em osso, não era já legíveis. Apurou o olhar e colocou-o de lado na tentativa de conseguir ver as marcas mais profundas da gravação. Havia ali uns traços muito débeis mas impossíveis de identificar se eram correspondentes às letras ou ao uso e maus-tratos da navalha. Impossível! Só com uma lente e muita paciência. E lá voltou para o bolso do casaco da farda.
Naquela noite -grande para a Banda e para a vila - seria apresentada pela primeira vez em público, uma nova obra musical, treinada e ensaiada centenas de vezes nos últimos tempos pelo Mestre Horácio: uma marcha, bastante ritmada e que se iniciava com um enorme e estrondoso rufo de caixa, onde brilhava o Pauzinhos. Seria a última peça a executar e serviria para dar a conhecer que, devido á idade e às maleitas, também chegara a vez deste músico, o Pauzinhos, deixar de fazer parte dos executantes, passando, pelo amor que tinha á Banda, a ser apenas colaborador na cobrança da quotas aos sócios. A notícia seria dada antes da Banda executar o último número que serviria, também como homenagem a quem, durante 50 anos, servira dedicadamente a associação.
E tudo correu bem: praça cheia, escadas da Misericórdia á cunha, janelas e sacadas a abarrotar de mirones e melómanos, trânsito desviado para ruas vizinhas, noite quente de Agosto, alegria aos rodos, e, na verdade, um bom concerto.
Até que chegou a última peça - por todos esperada - e que mantinha nervosos e ansiosos todos os músicos. O Mestre Horácio, chegou-se a frente do microfone, bateu com a unha três ou quatro vezes no aparelho, tossicou e aguardou que se fizesse silêncio no recinto. Olhou a volta, ganhou coragem e com a voz embargada de emoção lá arrancou um
- Boa noite a todos!
que foi respondido com um enorme coro
- Boa noite!
Respirou e adiantou:
- Boa noite, outra vez! Vamos tocar o último número, ensaiado especialmente para esta noite e queria chamar ao palco o Sr. Presidente da Câmara para entregar ao Pauzinhos, já não perde a alcunha, uma placa, em nome de todos os músicos, pelos quase 50 anos em que foi músico desta banda.
Uma enorme salva de palmas ouviu-se pela praça fora.
Lá sobe o Presidente da Câmara as escadas do coreto, lá vem o Pauzinhos á frente para receber a placa - a mostrar as lágrimas que já lhe assomavam nos olhos meio fechados de emoção - e, perante os músicos de pé e a bater palmas, houve abraços e mil agradecimentos.
Tudo nos seus lugares, mão do Mestre no ar, um último olhar em redor, um golpe rápido da batuta e aí vem a esperada obra.
Plof, plof, plof,plof
Da caixa do Pauzinhos, só saíam plofs, plofs e nada de prruunspumpuns.
Um incrédulo maestro sem respiração olhava apavorado o Pauzinhos; este atónito e a colapsar olhava a pele da caixa rota de onde não soava nada de jeito; os músicos, entre o riso e a vergonha, olhavam para o chão; o público, apanhado de surpresa, silenciara.
O Tomé Palheta, com uma mão no bolso das calças, fechava cuidadosamente o canivete, depois de, na confusão dos abraços de eterna saudade, o ter utilizado pela primeira vez.
Nessa noite, de lupa á frente dos olhos, conseguiu ler o que estava escrito no canivete;
- DEUS É GRANDE!

Segunda-feira, Julho 28, 2008

A minha feminista


São 6:00h... O despertador cantou de galo e esteve “vai, não vai” a caminho da parede mas faltaram-me as forças...O cansaço navegava-me no corpo amortecendo os movimentos e alterando a minha relação com a gravidade. As pálpebras pesavam-me o dobro e dei uma volta á almofada. Acordei a cara-metade com uma notícia desagradável:
-Levanta-te! Tens de ir trabalhar.
Devia estar à espera, acordada naquela doce morrinha matinal que paira entre o sono e o despertar definitivamente. Resmungou:
- Não queria ter que trabalhar hoje... Hoje, não…Nem nunca…
E foi ladainhando o seu desespero acompanhado por uns quantos esticar de braços:
- O que não daria para ficar em casa, a cozinhar aqueles pratos que te levam o palato ao quinto céu e a ouvir a música, que nunca tenho tempo para escutar, cantarolando o “my way” do Frank e outras lamechices parecidas... Se tivéssemos filhos, gozaria a manhã brincando com eles e ensinando-lhes os jogos da minha juventude; se tivéssemos um cachorro, gato ou canguru, tanto faz, passearia pelas redondezas de trelas na mão... Aquário? Ficaria olhando os peixinhos nadarem naquele bamboleio sempre igual... Faria tudo! Tudo, menos sair da cama. Gostaria de saber quem foi a mentecapta, a infeliz matriz das feministas que teve a estúpida ideia de reivindicar direitos de mulher. Que estupidez e falta de senso! Só nos prejudicou!…
Sacudiu os lençóis que a cobriam, atirou com as pernas para fora da cama e continuou:
- Era tudo tão bom no tempo das nossas avós... Passavam o dia a bordar, trocar receitas com as amigas, ensinando-se mutuamente segredos de molhos e temperos, de remédios caseiros, lendo bons livros das bibliotecas dos maridos, decorando a casa, podando árvores, plantando flores, colhendo legumes das hortas, educando as crianças, frequentando saraus. Enfim, a vida era um grande curso de artesanato, medicina alternativa e culinária.
Vai daí, vem uma fulaninha qualquer que não gostava de sutiã nem tão pouco de espartilho, e contamina várias outras rebeldes inconsequentes com ideias mirabolantes sobre "vamos conquistar o nosso espaço"!!! Que espaço, minha filha???

Fui acordando pelo meio da reza com aquele vago sentido de que era comigo aquela conversa. Não percebia porquê mas o rosário de queixas tinha um destinatário.
- As mulheres já tinham a casa inteira, o bairro todo, o mundo aos seus pés. Detinham o domínio completo sobre os homens e eles dependiam de nós para comer, vestir, para tudo!!! Que raio de direitos mais poderiam elas querer? Agora, os homens, andam por aí todos confusos porque não sabem que papéis desempenhar na sociedade e fugindo de nós como o diabo foge da cruz... Essa brincadeira do feminismo acabou enchendo-nos de deveres e lançando as mulheres no calabouço da solteirice aguda, isso sim. Antigamente, os casamentos duravam para sempre. Porquê, digam-me??? Digam-me porque raio, as mulheres, que tinham tudo do bom e do melhor, que só precisavam de ser frágeis, foram se meter a competir com os machos? Olha o tamanho do bíceps deles, e olha o tamanho do nosso. Estava na cara que isso não podia dar certo!!!
Mau, mau…aquilo era mesmo comigo. Virei-me para o outro lado, lancei um ronco de tamanho médio, como se estivesse no meu mais perfeito sono, aninhei-me, e esperei que a sinfonia acabasse ali. Enganei-me.
- Uma mulher a trabalhar é um moiro de trabalho. Por tudo! Já não aguento ser obrigada ao ritual diário de escovar, maquiar, espalhar cremes hidratantes, escolher que roupa vestir e que sapatos combinar, que acessórios usar... estou cansada de ter que disfarçar o mau humor, de sair sempre a correr, de ficar engarrafada, de correr risco de ser assaltada, de morrer atropelada, de passar o dia direita á frente do computador e com o telefone no ouvido resolvendo problemas que nem sequer são meus!!! E como se não bastasse, ser fiscalizada e com a obrigação de estar sempre em forma, sem estrias, depilada, sorridente, cheirosa, com as unhas feitas, sem falar no currículo impecável, recheado de mestrados, doutorados, e especializações, porra. Viramos super mulheres e continuamos a ganhar menos do que eles... Não era muito melhor ter ficado fazendo tricô na cadeira de balanço? CHEGAAAAAAA!!!... Eu quero alguém que pague as minhas contas, abra a porta para eu passar, puxe a cadeira para eu me sentar, me mande flores com cartões cheios de poesia, faça serenatas na minha janela... E há mais: quero alguém que, quando chegue do trabalho, se sente junto ao meu lado e diga "meu amor, eu vou-te buscar um cafezinho”. Descobri que não nasci para servir.
Era de mais! Um homem não pode ouvir tudo! Os direitos da mulher terminam onde começam os direitos do ocupante da outra metade da cama. Não fui eu quem inventou aquela história do ”para a vida e para a morte”, “no bem e no mal”, “na doença e na saúde”, etc., etc., e, como tal, não tenho que pagar um erro da juventude pela vida fora. Desenrolei-me do lençol, e arrastei a voz:
- Amorzinho, são 6:30. Cá em casa, alguém tem que trabalhar.
- Ai, meu Deus, já são 6:30! Tenho que me arranjar!...

Metida na casa de banho, ainda a ouço gritar antes de voltar a adormecer.
- Deixo-te o almoço feito no frigorífico e é só aquecer a sopa. Antes de sair ainda vou buscar o pão e fica o café feito na cafeteira. Vai vendo o que queres comer ao jantar! Passo na lavandaria e trago-te o fato que vais levar, no domingo ao casamento do filho do compadre e depois passo-te uma gravata e…
Confesso que o resto já não ouvi porque adormeci a pensar:
- Que bom que é ter uma mulher feminista!

Quinta-feira, Julho 03, 2008

A primeira vez...




A Maria Bolacha é minha vizinha. Um dos muitos namorados da sua vida, ofereceu-lhe uma cadelita, uma husky, branquita como a neve, de olhos de cor desigual (a gente olha e parece que é vesga!), e, aqui há uns tempos atrás, andou de amores com um rafeirito que, á falta de melhor, dorme aqui na garagem, num cesto de duas asas, abandonado no lixo e aproveitado já não me lembro bem para quê. Já o canito também é quase da mesma origem do cesto: trouxe-o, ainda bebé, da Serra de Esmolfe, e, era tão engraçado e gostou tanto da porcaria do cesto, que nos adoptou sem esforço, mas não sem que primeiro levasse uma barrela e uma carga de DDT que o livrassem da camada de pulgas hospedadas no pelo negro. A cachorra chama-se mesmo Branca e o meu saco de pulgas, Black. Estão para o outro, não é?
Ora, a Maria Bolacha, uma trintona, solteira e grande como o caraças e uma história de vida que dava um livro do tamanho do processo da Casa Pia, embirrou com as fosquices com que o meu inquilino mimoseava a lambisgóia vesga do Pólo Norte. Vai daí, para além de umas bocas dirigidas, sabe-se lá se com a intenção de serem ouvidas do lado de cá do muro que separa os dois quintais, e, do género
(- Só me faltava mais este cão vadio. Já havia cá poucos!...)
tomou ainda a precaução de manter a bichana fechada, enquanto durou a fase em que a natureza exigia que cumprisse os actos necessários à multiplicação das espécies. O Black acicatado nos seus instintos mais básicos, não descurava nenhuma ocasião de se pirar para os domínios alheios, e, tentar, apesar de ser um palmo mais baixo, cumprir uma função, tão natural como o nascer do dia. Por mais do que uma vez as tentativas iam dando para o torto: quando a coisa estava quase, quase - e eu do lado de cá espreitava pela sebe na tentativa de contabilizar uma vitória para o bicho - aparecia a Maria Bolacha e estragava tudo.
- Xô, que queres tu, pirralho? Põe-te a andar que isto é carne a mais para os teus dentes! – e acompanhava os gritos histéricos com amplos movimentos da vassoura, como se quisesse bater no cão e no dono.
O pobre do Black, já com o ar deprimido de quem teve á mão a sorte grande e a deixou fugir, começou a desmoralizar. De vez em quando, dava com ele deitado no tapete da entrada da cozinha com umas trombas de infeliz e, juro, que me parecia que uma lágrima lhe deslizava pelo canto do olho. O apetite – ele, que até salada de tomate come – era pouco. O raio do cão metia pena. A mulher dizia de cada vez que o via naqueles modos:
- Já desparasitás-te o cão? Ele não anda bem! Nem ladra ao padeiro, nem nada! Leva-o ao veterinário que o bicho está doente!
Era uma doença, era! Como eu o compreendia!
A verdade, é que o desânimo estava a dar cabo da saúde, pelo menos mental, do meu guarda-nocturno, e, sentia-me culpado por não ser capaz de lhe explicar que aquilo não era por ele ser cão ou por ser preto. Gostaria de lhe fazer entender que, com o tempo, teria muitas oportunidades de ser feliz.
Para mim, começou a ser uma situação intolerável quando, numa última tentativa e com a glória á vista, o Black sofreu no lombo o peso de uma cavaca. Era demais! A partir daí, o caso passou para a minha esfera pessoal. Jurei que o raio da Branca de Neve, ia ter direito a um Anão.
Nunca fui polícia ou sequer parecido com isso. Mas, nos filmes americanos, aprende-se muito.
Pacientemente, esperei uma oportunidade – como se estivesse a trabalhar para mim! – e, para melhor poder observar o campo adversário, mudei a cadeira da sesta, estacionada há anos no alpendre, para debaixo da oliveira mirrada que ainda resiste aos maus tratos e que está a dois metros do campo do inimigo. Sem binóculos, sem lentes de aumento, sem chapéu á detective e sem perseguições de automóvel, chegou o dia em que a MB – num momento qualquer da vigilância, por uma questão de rapidez de raciocínio, deixei de a chamar Maria Bolacha e passou a ser, MB – deu o passo em falso. Aprendemos, no cinema e na vida real, que os bandidos apenas são apanhados porque dão sempre um passo em falso. E o dela aconteceu pelos mesmos motivos porque castigava o Black e a Branca.
Estava eu a regar umas plantas pindéricas que a velha tem junto ao galinheiro
- Vai regar os vasos que o dia esteve quente e esta reguinha á noite torna-as mais viçosas!
quando ouvi parar um automóvel no caminho atrás e que dá para as matas do Zé Diogo. Não era coisa normal àquela hora e por descargo de consciência, não fossem por aí os janados no palmanço, cheguei-me ao portão.
A MB, mulher dada á vida e de vida dada, deixara passar pelo portão da entrada e subir rapidamente as escadas, o Nunes Carteiro. Carteiro é alcunha ganha com a profissão.
Ora, deduzi, á Sherlock Holmes:
- Ás onze da noite, não há distribuição do correio! A encomenda para entrega àquela hora, só podia ser uma! Uma encomenda igual á que o meu desgraçado e destroçado Black queria entregar á ansiosa Branca e que aquela vaca tinha andado a impedir.
O Nunes Carteiro era novo por ali, que eu soubesse, e, comecei a tentar lembrar-me de quantos furtivos já vira entrar na casa vizinha.
Não tive tempo! Um ladrar dorido veio do cimo das escadas e um vulto branco mexia-se inquieto no patamar.
- Branquinha! – chamei baixinho. Bocho, bocho, bocho!
E não é que ela desce as escadas de rabo a dar a dar e veio saltitar para junto do muro onde eu estava, já acompanhado pelo Black, que ouvira, como eu, o choro da cadelita, posta fora de casa para que a dona pudesse desembrulhar a encomenda, que o Nunes lhe levara, com tanto sacrifício, àquela hora da noite!
Não me contive!
- Anima-te! Tens pelo menos 20 minutos!
Peguei-lhe pelas patitas da frente, passei-o para lá do muro, e, mais rápido do que leva contar, a menina estava disponível.
A questão da diferença de alturas foi facilmente ultrapassada: ela ficou no tapete de rede do fundo das escadas e ele no primeiro degrau! Foi limpinho! Com a Técnica do Tejolo transformada na Técnica do Degrau, o Black ganhou o céu em três tempos.
A MB também, suponho eu!

Terça-feira, Maio 06, 2008

A Carminda e o falso doutor


A minha prima Carminda resolveu dar à costa lá prás bandas da minha casa. Devia faltar um quarto para as nove. Não lhe punha vista em cima seguramente há três ou quatro meses. Não que as saudades fossem muitas, mas é da família, gosta de mim e diverte-me. Trazia novidades sobre a Câmara Municipal e o Executivo que ela chama de “incapaz até de se molhar quando chove”. Nunca percebi porque esta raivinha, que, pelo que me parece, é diária e matinal. Se não ganhar cãibras no estômago, é um milagre, que, por mim, atribuo ao desaparecido Padre Delfim, seu extinto conselheiro nas coisas da Igreja.
Começou pianinho e exibindo um ar sério:
- É uma pouca-vergonha o que se passa na Câmara e tu tens de saber disso. Sei que não me ouves nem queres falar de nada, mas alguém tem que colocar cobro àquela falta de senso. Se a coisa vem a terreiro o concelho vai ser motivo de risada geral.
Cortei-lhe o pio porque aquele tema sabia ela de cor e salteado e mim não me dizia puto. A Câmara e o seu Executivo eram bílis para a Carminda, mas, para mim, uma fonte de riso e ridículo permanente. Aqueles tipos, se não existissem tinham de ser inventados.
- Olha lá Carminda, ainda é muito cedo. Poupa-me às tuas queixinhas. Se os tipos lá estão é porque alguém os lá pôs e eu não fui, por isso, fica com eles todos e deixa-me em paz com essas carraças.
Virei costas e desci as escadas com a intenção de aproveitar para uma caminhada antes que o sol ficasse mais rijo. Deu dois passos em frente, agarrou-me pelo braço e sussurrou:
- Rufino, o doutor não é doutor! – não foi a boca dela que falou, foi a alma. Aquela alma dorida com tudo o que magoasse um Penalvense. – Enganou toda a gente com a história de ser doutor e, afinal, nem acabou o terceiro ano daquele curso de cozinheiro, acho eu!
De quando em quando, tocam umas campainhas na minha caixa craniana e desta vez, sem ter bem a consciência do que poderia ser, as campainhas soaram-me como as trombetas de Jericó. Um arrepio percorreu-me a espinha e já nada me levaria dali.
- Desembucha. Qual doutor? Não há lá assim tantos!
- O de Pindo! O do CDS/PP! Então esse não é doutor com um curso de cozinha, ou lá o que foi? Todos dizem isso! Que ajuda a emagrecer e a engordar que precisa. Isso é um curso de cozinheiro, não é?
- Não mulher, ele é Nutricionista e isso é um curso superior. Tirou-o em Viseu no Pia…
Não passei dali. Começou a bufar:
- Não fez nada. É tudo mentira. Já há por aí papéis a dizer isso. Andamos a chamá-lo doutor há que tempos e afinal é tudo balela. Se fores à Câmara até vês uma placa com o nome dele: Dr. Luís tal e tal! O Presidente diz que foi enganado! O PSD está furioso e querem-no ver pelas costas! Os outros vereadores gozam com o assunto! Os funcionários da Câmara riem às escondidas! Tudo isto é muito bonito mas a terra é que paga. Um doutor da mula ruça que nos levou a todos na cantiga. Já cá tínhamos vergonhas que chegassem e não precisávamos de mais esta. Isto é um enxovalho para a terra!
Eu fiquei siderado.
A Carminda, doente, desceu as escadas, encostou-se ao muro dos quintais e lá foi junto à valeta pela rua acima. Juro que tive pena dela! A dor e a vergonha de ver o nome de Penalva ser levado ao ridículo público, tirava-lhe anos de vida.
Mas, na verdade, o ridículo já faz parte do nosso inconsciente colectivo: um doutor que não é doutor fez-me lembrar um crocodilo que não era crocodilo.
SE, UM DIA,O RIDÍCULO MATAR, AS GENTES DE PENALVA DO CASTELO MORRERÃO DE RISO.

Quarta-feira, Abril 30, 2008

CASTANHAS



Castanha era aquele fruto que os putos roubavam à Casa da Ínsua quando fugiam aos velhotes, no Verão, e se escapavam para umas banhocas refrescantes no Poço dos Cavalinhos, na Senhora de Lurdes. Na volta, eram as cerejas e os bagos pintores, se já os houvesse. Moscatél, de preferência!
Castanha era o que os esperava à chegada a casa: duas lambadas bem dadas no focinho, que limpavam o nariz do ranho ganho na água fria do Côja.
Castanha era fugir da GNR quando se jogava à bola nas ruas da vila estafando as botas que o Menino Jesus trouxera no Natal ou esfolando os dedos dos pés com topadas na calçada.
Castanha era começar a trabalha aos 10, 11 anos, como aprendiz e levar nas trombas umas solhas dos mestres, quando saía asneira no ofício.
Castanha era também o Serviço Militar, com a quarta classe mal feita, que oferecia viagens gratuitas e possibilidades de emigrar para uma das províncias ultramarinas, que então enfrentavam uma guerra de guerrilha extenuante e nunca definitivamente vencida.
Castanha era a entrada na vida activa: maus empregos, muito trabalho e mal pago.
Castanha era o caminho para dar o salto em direcção a melhores vencimentos e condições de trabalho lá para a França e Alemanha.
Castanha vinha também com o casamento: filhos, novos encargos e despesas não previstas.
Castanha era a puta da vida, por aí fora, até se rebentar e ir desta para melhor sem saber como.
A Castanha, hoje, é mais doce. Mas é Castanha, na mesma.
Já ninguém as rouba a caminho da Senhora de Lurdes porque: não há castanheiros, porque não vão a pé, porque têm medo da água fria, porque não sabem caminhar descalços na areia grossa das margens, porque dizem que a água do rio está suja, porque já têm piscina municipal com aguinha quente, porque as mamãs não deixam, por isto e por aquilo…por isto e por aquilo… Aliás, fruta nas árvores, já ninguém rouba, porque é uma canseira e não distinguem uma maçã do bravo duma maçã reineta.
À bola já ninguém joga pela rua ou no Terreiro da Misericórdia. Sempre há o campo da Cerca e o Relvado da Sant’Ana, com escolinhas e tudo, com chuteiras á Ronaldo para não estragar o sapatinho fino ou o ténis da Adidas.
Já ninguém leva uma castanhinha na face rosada, porque bater nos meninos “não se faz”. Hoje confunde-se a má educação com “os nervos do menino” e assoprasse para o lado deixando que a Escola substitua os “paizinhos”.
Salvou-se a juventude do Serviço Militar Obrigatório e perderam-se as Castanhas africanas.
Mas há Castanhas eternas.
A França, a Alemanha continuam a ser a América da Europa: emigra-se, como há muitos anos não se via.
Continuam os empregos mal pagos que nos obrigam a comer as Castanhas que o Diabo amassou.
Castanha continua a ser a puta da vida, por aí fora, até se rebentar e ir desta para melhor sem saber como.

Salvam-se as Castanhas d'ovos!

Quinta-feira, Abril 17, 2008

O AKORDORTOGRÁFIKU


axo k çé feitum akordortográfico é praçinplifikaras koizas. açim akabaçe custraçus cuspontus cusaçentus menusno é e no á i screvçcomuçfala. tamém çacabancós letras grandes praçer mais fassil screverá makina enu konputador. vaiçerducarassas purkaçim num á erros nasskolas i paçamosaçer todos bonsalunos. u pior vaiçer u tempo k ç leváprender esta modernice. numeu tempumgajo levava xapada k fervia porkausa da porkaria dus erros i até porkausa da pontuassaum. çfoçoje íamos todosás trombasaus profs katé jánunnus podem xumbar porkausadas faltasásaulas. indabem cum gajo açim çabek pode screver prakem lhapeteçer e numvai çer xamado danalfabeto. tamémçacabam cusparágrafos porkaçim poupaçnu papel kestákaro içaunmenosárvores k çabatem. por mimtá tudo bem. aporra ék demoro mais tempaeskever i açim jánunçei ç valapenámudança. u futuruu dirá.

Quarta-feira, Abril 09, 2008

MARIQUICES*


1 - Pedir meias doses. Se se chama dose, é porque está calculado: é uma dose. Um homem, uma dose. Quem pede meia dose é meio homem. Cozido à portuguesa: é comida de homem. Meia dose de cozido… é mariquice. O pior é pedir meia dose de qualquer comida terminada em “inho” ou “inhos”: meia dose de bifinhos, meia dose de lulinhas… Comidas que são de homem, para além do cozido: feijoada, mão de vaca, coelho à caçador e todas as partes do porco. Tudo o que tiver porco é de homem.
2 - Chegar aos trinta anos e não ter barriga. É panasca !

3 - Comer Cornetos e outras tretas dessas. As únicas coisas que um homem pode chupar são patas de sapateira, percebes, cabeças de pescada e charutos.

4 - Ter gatos. Um gato não passa dum cão abichanado - Tem guizo; Toma banho com a própria língua, come peixinho e nunca se embebeda. Ou seja, um homem que tenha um gato em casa está no fundo a viver uma intensa relação homossexual. O dono dum cão chama-o com dignidade masculina: “Savimbi, anda cá meu sacana!” E assobia: “Aqui já !” O dono dum gato chama-o “Bsss-bsss-bsss-bsss-bsss, bichaninho”. Ridículo!

5 - Não ir à caça porque não há sítio para fazer as necessidades. Um homem fá-lo quando e onde lhe apetece. Quem nunca experimentou atingir um javali a zagalote com as calças em baixo não sabe o que é ser homem. O que as mulheres não sabem é que a caça é apenas uma grande desculpa para o homem poder ir para o mato mijar para marcar território.

6 - Ver o correio todos os dias… É mariquice! Um gajo chega a casa depois de oito horas de trabalho e três de copofonia, cansado e meio grosso, cheio de fome e qual é a primeira coisa que faz? Um homem só abre o correio quando lhe cortarem a água, a luz ou o gás. E que homem é que consegue pegar numa chave do correio…? Aquilo é feito para dedos de gaja.

7- Pedir garotos… É de homossexual!!! Ou bicas escaldadas, ou bicas cheias, ou duplas, ou cariocas, ou italianas ou abatanados… Café é café. A única coisa que se pode acrescentar a um café é um bagaço ou um uísque. Mas o pior de tudo são os descafeinados: “Ai, menino, tire-me a cafeína do meu café”. É mariquice!

8 -Deixar que uma gaja nos esprema as borbulhas… É totalmente maricas! As borbulhas de um homem não são para espremer. Um homem é uma máquina auto-suficiente em termos de saúde e higiene. Os homens só vão ao médico e tomam banho porque senão as gajas não se deitam com eles.

9 -Saber o nome de mais de quatro bolos de pastelaria … Um homem que é homem só sabe o nome da bola de Berlim, do bolo de arroz, do croquete e do rissol. E mesmo assim só para poder pedir uma sandes de torresmo com rissol. Ver um… “homem”… entrar numa pastelaria e dizer: “Olhe, se faz favor, embrulhe-me aí dois garibaldis, uma pirâmide, um éclaire…” Com plantéis de 24 jogadores e 18 equipas na primeira liga, quem é que ainda tem espaço na memória para decorar nomes de bolos?

10 -Pescar à linha… É maricas! Uma coisa é sair para o mar alto às duas da manhã com doze mânfios perdidos de bêbedos para deitar redes e cargas ao mar numa traineira chamada “Barba de Goraz”.. . Outra é ir aos domingos para a Barragem de Fagilde de carro com uma caninha, umas minhocas, um tupperware para guardar os peixinhos e um lanchezinho para meio da tarde. O bom da pesca é irem quinze gajos para alto mar e não se saber quantos é que vão voltar.

11- Alimentar o cão com latinhas de comida para cão… É mariquice! A comida para cão é uma invenção das multinacionais para enganar bichos e rabichos. Não há cá comida para cão. Os cães comem o que cai no chão ou o que desenterram. É que depois de comerem aquelas mixórdias, começam a ficar esquisitos. Deixam de beber água do esgoto, já não tocam em nada que esteja podre, e começam a deixar os gatos a meio.

12 -Ir à Feira do Livro. É ma-ri-qui-ce! Para quê gastar trinta ou quarenta contos em livros quando se pode ir à Ovibeja e trazer uma ovelha para casa? Ir a uma feira de homens é acordar bêbedo às sete e meia da manhã, calçar umas galochas, pôr uma broa debaixo do braço e ir à Feira da Cebola ou à Fatacil. Ou, aos sábados de manhã, ir na carrinha para a Feira de Recauchutados e Rações nas traseiras da Siderurgia Nacional. Feira de homens pressupõe porrada, coiratos, chouriços, botas caneleiras e bonés. Não é cá livros do dia e gajos amaricados magrinhos de óculos e sessões de autógrafos.

13 -Conduzir com as duas mãos no volante. É maricas! Então se os “cóbois” conseguem laçar um bisonte só com uma mão, porque é que um homem há-de precisar das duas para agarrar o volante? O último sítio onde um homem precisa de ter as duas mãos é no volante. O volante só serve para duas coisas: ultrapassar ou buzinar. De resto, a mão direita é para andar livre, para a poder meter na tranca da gaja que vai ao lado, sintonizar a rádio no relato de futebol, agarrar na cervejola, falar ao telemóvel e dar calduços nos putos.

14 -Passear cães com trela. Os cães é para andarem soltos. Passear um cão é uma actividade de risco. O giro é não saber nunca se o cão vai voltar a casa, esfacelar a perna de um bófia, atirar velhas ao chão ou ser atropelado por um combóio. Trelas é para miúdos e não há mais conversa.

15 -Gostar de Fado de Coimbra. … da-se…!!!! O fado é para ser cantado em tascas por gabirus com gajas por conta, que só conhecem sete letras do abecedário e que julgam que tremoço é marisco. E o fado não é cá para falar de amores de estudante. O fado é para contar histórias com porradaria, campinos, naifadas, marinheiros, gajas, sarjetas e vinho tinto.

16 -Combinar encontros com homens à porta de cafés, cinemas ou centros comerciais. “Ai filho, vem ter comigo à porta da pastelaria “Mirita”?! Eu não me encontro com um homem à porta de sítio nenhum. Homem que é homem marca encontros é na estrada para Alcochete, no quilómetro dezasseis ao pé do cão morto. Mais nada!

17 -Dormir com o cãozinho aos pés da cama. Um cão é para ficar no quintal ou fechado na marquise a ladrar a noite inteira para moer a cabeça aos vizinhos. Os únicos mimos que um homem dá a um cão são estaladões ou ossos gamados no talho. Brincar com o cão é soltá-lo no pombal do vizinho.

18 -Usar calçadeira. A calçadeira é a vaselina dos pés! Se um homem tem problemas em enfiar um pé num sapato à força, é claramente panasca. Os sapatos foram feitos para cheirar mal e andar com 120 quilos em cima a arrastarem-se pela calçada em cima do que acabámos de vomitar.

19 -Comer em restaurantes chineses COM PAUZINHOS!!! Um homem a agarrar em pauzinhos??? A única coisa delicada que um homem é capaz de segurar nas mãos é uma chave de rodas nbvc, e é para a torcer. Nunca ninguém viu um estivador, um tractorista, um calceteiro, ou um gajo dos altos-fornos a comer com pauzinhos!

20 -Usar shampoo e amaciador para o cabelo. Um homem que se preocupa em ficar bonito tem de ser rabicho. “Ai, mas é bom porque o cabelo fica mais fofinho…”?! Um homem que é homem não quer ter nada no corpo que seja fofinho.

21 -Ter uma carrinha familiar. Ter uma carrinha é um anúncio público de que se é casado e de que se tem filhos. Ora, o único homem que pode querer que isso se saiba é o larilas, para despistar os polícias no parque Eduardo VII.

22 -Usar cigarreira ou uma boquilha… “Ai não, é mais higiénico porque os maços apanham humidade e podem contaminar os cigarros com bactérias. Ai, não, assim assimilo menos nicotina” Bactérias?! Nicotina??!! Um gajo anda a descarregar quilos de alcatrão para dentro dos pulmões há vinte ou trinta anos e está preocupado com uma bicharada que só se vê ao microscópio?

23 -Pedir descontos… Ai, não me faz uma atençãozinha?” Mas isto é conversa de homem???

24 -Não ser emigrante e falar francês. O francês é a língua oficial dos rotos e a mais apasnacada do mundo. Nem uma avó balhelhas a falar com um recém-nascido usa tantos “nhô nhôs” e “bibidus” como um francês.

25 -Estar mais de seis minutos e meio na Internet sem ver gajas nuas. E não há cá desculpas de que é a pagar e não sei quê, e que não quero dar o número do cartão de crédito.


Perceberam? ou querem ler outra vez?
*Do meu compadre JMTMF

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

O Natal é assim!


O Guedes é o compadre que cobre a minha asa direita.
Ele, os três filhos e a mulher, são bem 350 quilogramas á moda antiga: cara vermelhusca, bem cheiinhos, carne dura, apetite á prova de gripe, mesa farta, coração aberto, alegria transbordante, voluntários na Igreja, catequese obrigatória para os rebentos (o neto também segue a cartilha), e benfiquistas (todos!). Com o Guedes os professores dos miúdos tiveram autorização para uma bofetada na altura certa
- “só lhe fizeram bem; vejam esta malta, hoje!”
coloca a mão na testa e franze os olhos.
São bem o protótipo do Zé Povinho do Rafael Bordalo Pinheiro, sem a má criação que o boneco tipifica.
Logo passado o Dia do Corpo de Deus, o Guedes entrou no rodopio que lhe adivinho todos os anos e que contagia também a minha comadre Isaura. Começa a enumerar, amiúde, os familiares e amigos mais chegados que estão ausentes nos caminhos da emigração, os que estão espalhados por Portugal “continental” (como ele gosta de dizer) e os que lhe estão ao pé da porta, como se algum lhe tivesse falhado na memória. Subtrai os que partiram durante o ano para o país das caçadas eternas e soma os novos rebentos á lista. Repete a contagem vezes sem conta, e, acredito, que lá pela noite fora, acorda, e, de mãos fora dos lençóis, vai fechando um a um os dedos ao pronunciar o nome de cada familiar e amigo que recorda.
Por volta do dia 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, como gosta de acentuar, pára-lhe esta febre e apresenta uma listagem completa com os nomes de todos quantos foi capaz de recordar, colocando, à frente de cada nome, uma cruz, um traço ou um ponte de interrogação. Uma cruz para os merecedores, um traço para os que vão voltar a esperar por outro Natal para terem uma cruz á frente do nome e um ponto de interrogação para os duvidosos. Mostra o trabalho à Isaura, acerta com ela o que há para acertar e passa, então, à segunda fase da obra: determinar quanto pode gastar nas prendas para aquela malta toda.
O Guedes é reformado das Finanças, a Isaura foi uma dona de casa toda a vida, poupada e trabalhadora. Vivem bem, sem grandes luxos, e, mesmo que celebrar o Natal fosse um luxo, o Guedes iria fazer as coisas da mesma maneira. Organizadinho como é, fruto de 40 anos no guichée da Repartição, não falha nas suas contas nem foge dos seus objectivos.
Este ano, as coisas complicaram-se.
Com a Cimeira de Lisboa, vitória incontestável para o nosso Primeiro-Ministro e para Portugal, o Lopes, o outro compadre que me cobre a asa esquerda, encheu-se de nove horas e cantou alto de mais. Atreveu-se, inocentemente, a comentar
- “ó Guedes, o futuro é a Europa. Tu nunca quiseste apoiar a nossa entrada na Grande Casa Comum, mas, como vês, já damos cartas!”
e o Guedes, anti-europeiísta convicto, riscou a cruz e colocou-lhe um ponto de interrogação à frente do nome. A minha comadre Isaura não gostou e bufou (o que era raro!) entre dentes que
- “vale mais o Lopes do que muitos dos da tua família”
coisa que o Guedes levou a mal. A conversa azedou e nem a bondade da época natalícia atenuou o arrufo entre o casal.
O coitado do Lopes, na ignorância da ofensa praticada e como era hábito todos os anos, no dia da Consoada pelo meio-dia, atravessou a rua e largou em cima da mesa de cozinha ma caixa de Milénium, da Adega Cooperativa, com os votos de
- “um Santo Natal e um Ano de 2008 próspero para o amigo Guedes e família”.
Aquilo foi uma bomba artesanal na alma politicamente ofendida do Guedes. A Isaura, ás voltas com os tachos, com a alma cheia de contentamento pelo gesto do Lopes convida-o
- “para o bacalhau da Consoada. E olhe que contamos cá consigo!”.
O celibato do Lopes retirava-lhe nestas noites mais íntimas e familiares, o convívio de uma família, que aliás, nunca tivera. O seu liberalismo político e a sua pouca apetência e inclinação para qualquer tendência religiosa, não o inibia, contudo, de sentir que o Natal era uma época diferente que aproximava os homens e aquecia as almas mais solitárias.
- “Se insiste, virei. Muito obrigado!”.
O Guedes sentiu que aquelas garrafas de vinho estavam armadilhadas com o explosivo mais potente que um coração de manteiga, como o dele, poderia aguentar: uma amizade profunda que nada poderia separar. Fungou, tossiu, assou-se para encobrir uma lágrima lamechas de culpa e não conseguiu evitar que o olhar da Isaura o fizesse sentir ainda mais culpado.
- “Ora essa, ó Lopes, você é da casa. É mais que família e levava a mal se não viesse”.
Depois, pegou na lista feita com tanto cuidado, rapa de um lápis, risca o ponto de interrogação e coloca uma grande cruz à frente do nome do Lopes.
O cachecol que comprara a mais, sempre iria ter dono!

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

Oferta de Natal

http://www.youtube.com/watch?v=bdCjaiXmUb0

Resposta do Sr. Bispo de Viseu


Estava no Magalhães, a passear um copo de fino pela boca, quando, na esquina da antiga Casa Beirão, do outro lado da rua, apareceu, resplandecente, a minha prima Carminda. Saia cinzenta escura nova, casaco preto de malha, lenço descaído da cabeça deixando à mostra uma farta cabeleira sem brancas, apesar da idade. Vinha, como disse o Magalhães, “toda aperaltada e muito alegre”. Atravessou a rua com sobranceria e sem olhar aos carros, que abrandaram para que o pudesse fazer em segurança. Há por ali passadeira, marcada no pavimento, mas dada a sua invisibilidade, foi um risco a forma como fez.
- Toma! Limpa-te lá!-esticou o braço, com um envelope na mão e sentou-se.
- O que é?- perguntei.
- Lê!- foi uma ordem.
Abri depois de ver o timbre no exterior do envelope e adivinhei logo o motivo da sua alegria e do seu desassombro em aparecer àquela hora no Raboto.
Começava assim:

Viseu, tantos de tal
Cara Paroquiana, Sr.ª D.ª Carminda:

Encarrega-me o Sr. Bispo de Viseu de lhe dar conhecimento que recebeu e pondera tomar em consideração a sua carta de recomendação, na qual sugere que do Sr. Vereador Luís seja nomeado sacristão da Igreja da Misericórdia de Penalva do Castelo e da Igreja Paroquial da Ínsua. Para se conseguir tal desiderato, teremos que aguardar pela reforma do Sr. Tiago, prestável sacristão das ditas Igrejas há mais de 40 anos. Considera o Sr. Bispo, que o desvelo e o carinho que o Sr. Tiago sempre dispensou às coisas da Igreja, merecem a sua consideração, pelo que não é oportuno tal nomeação. No entanto, e na continuidade das sugestões que se dignou apontar, informo-a que, nesta data, foi remetido ao Sr. Padre Carlos, pároco dessa vila de Penalva do Castelo, um ofício solicitando a abertura imediata de um Inquérito com vista a averiguar se o pensamento e as obras do Sr. Vereador Luís, se enquadram com a possibilidade de vir a ser mais um beato português, na senda do agora Santo, Condestável D. Nuno Álvares Pereira.
Encarrega-me, ainda, o Sr. Bispo, de lhe transmitir o quanto apreciou a sua missiva e a discrição com que, inteligentemente, chamou a sua atenção para um potencial Dr. da Igreja, que, quem sabe, poderá vir a ombrear com Santo Agostinho de Hipona, São Tomás de Aquino, Santa Teresa de Ávila, São Francisco de Sales ou mesmo Santa Catarina de Siena, para apenas falar nos mais notáveis.
Todos aqui, no Bispado, comungamos da sua alegria pela conversão do Sr. Vereador e, sobretudo, pelas suas capacidades de, rapidamente, ter encaminhado as suas forças e os seus desejos para a nossa Comunidade Cristã, sem qualquer espécie de dúvida, por inspiração divina.
Com uma bênção muito especial, para si, do Sr. Bispo, despeço-me com os desejos de um Santo Natal e um Ano de 2008 pleno da Graça Divina.

O Escrivão do Bispado

(assinatura ilegível)

PS:
O Senhor Bispo de Viseu, ficou muito sensibilizado com o facto do Sr. Vereador Luís ser a única pessoa capaz de ver as chagas de Cristo na Bandeira Nacional, pelo que vai solicitar uma audiência ao Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa, para lhe dar conhecimento desta inusitada capacidade visual, na certeza que, só por isto, poderá vir a ser beatificado por Sua Santidade o Papa Bento XVI. Por dever de lealdade, informará também o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Penalva do Castelo, dando-lhe, ao mesmo tempo, conta do alto significado que poderá ter, em termos turísticos, a possibilidade de uma beatificação em Terras de Penalva.


Como diria o velho Fernando Pessa: E ESTA, HEM!!!

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

Bom Natal



Este ano não vai haver presépio:

a vaca está louca e não se segura nas patas;

os Reis Magos não podem vir porque os camelos estão no governo;

o burro está na escola a dar aulas de substituição;

a Nossa Senhora e o S. José foram chamados à escola para avaliar o burro;

a ASAE fechou o estábulo por falta de condições;

o Tribunal de Coimbra obrigou a entrega do Menino Jesus ao pai biológico.

Assim sendo, um bom Natal com o que nos resta.

Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

Carta ao Bispo de Viseu


A minha prima Carminda passou cá por casa e mostrou-me uma carta que tinha redigido e que era dirigida ao Bispo de Viseu. O meu papel era corrigir-lhe os erros, se os houvesse. No conteúdo, não mexi nem me atreveria a tanto. Pelo interesse público que pode representar para o concelho, pedi-lhe que a deixasse publicar neste blog. A custo, consegui, convencendo-a que o conhecimento alargado da sua intenção, poderia ajudar os seus intentos e, se tal viesse aconcretizar-se, ela seria louvada pela sua perspicácia.
Aqui vai.

Ex.ª Reverendíssima Senhor Bispo de Viseu

Reverência:

Serve a missiva desta cristã pecadora, para dar conta a V.ª Ex.ª Reverendíssima de um grande milagre que aconteceu na Vila e Concelho de Penalva do Castelo.
Depois de ficarmos sem o apoio religioso do Sr. Padre Delfim e o Sr. Padre Leitão, Deus, nos Seus altos desígnios traçados para a governação dos homens, quis dar um sinal a esta terra de infiéis e mal crentes, colocando a Sua mão sobre a cabeça de um pobre cidadão que toda a vida fora um ímpio e cujo crime maior é estar metido na política até aos cabelos. Jovem ainda, e fruto das más companhias na escola, foi presidente da associação que representava todos os alunos junto da direcção do estabelecimento de ensino que frequentou. Para além de outros pecados menores, como seja, ser mulherengo, beber o seu copito a mais, fumar desalmadamente e não gostar de trabalhar, nunca foi um homem que frequentasse a Igreja e cumprisse os seus deveres de baptizado. Também como todos os miúdos da sua idade, escapou-se à catequese, roubou fruta, fumou charros, leu revistas pornográficas, fugiu de casa para ir a bailes em garagens, deu uns murros nuns colegas mais fracotes, insultou a polícia, guiou carros sem carta de condução, não sendo, pois, um jovem diferente de todos os outros. Mais tarde, numa decisão, certamente não pensada e fruto da sua tenra idade, aderiu ao CDS/PP, aceitando mesmo representar este partido nas listas do PPD/PSD, que concorreu à Câmara Municipal desta vila de Penalva do Castelo. Por sorte dele e azar dos munícipes, foi eleito tomando posse como vereador a tempo inteiro, passando, por isso, a receber quase 400 contos por mês. Do seu trabalho na Câmara não se conhecem grandes feitos, a não ser andar a dizer por todo o lado, que dada a sua experiência adquirida como vereador, irá concorrer como cabeça de lista nas próximas eleições de 2009, à frente de uma lista do seu amado CDS/PP. Por este motivo, a população andava desconfiada que, se calhar, tinham escolhido mal e já havia quem rezasse (confesso que eu o fazia), para que o Presidente da Câmara o substituísse por outro qualquer, mesmo inválido, mas que não fosse mal agradecido.
Ora, quis Nosso Senhor, na Sua infinita Bondade e Misericórdia, dar-nos um sinal que deixará o nome desta terra ao nível de Fátima e que trago ao conhecimento de V.ª Ex.ª Reverendíssima.
Para completo conhecimento de V.ª Ex.ª Reverendíssima, acrescento que esta missiva tem o conhecimento e a autorização do Sr. Padre António, da Direcção da Misericórdia e de todas as cristãs piedosas que comigo tratam da limpeza e da mudança das flores na Igreja e na Casa Paroquial.
No passado mês de Novembro, um milagre aconteceu nesta terra, pois outra explicação não se encontra para uma mudança tão rápida no Sr. Vereador Luís. Nesta vila de ignorantes, numa mudança que só a intervenção divina justifica, fez-se Luz no espírito do Sr. Vereador Luís e colocou na Internet um blog, cujo endereço me atrevo a indicar no final desta humilde carta. Os seus comentários, todos virados para nos ajudar a passar cristãmente as tormentas deste mundo, revelam uma alma pura, bem intencionada, amiga do próximo e capaz de ser um exemplo para todos nós, e, sobretudo, para a juventude, que, fruto da política dos socialistas e do herege que nos governa, está a afastar-se cada vez mais da Igreja que zela pela nossa alma e pela nossa salvação.
Fala e condena o aborto como só um pecador arrependido é capaz; fala do crime que foi a retirada dos crucifixos nas escolas e da revolta popular que tal acto infame pode originar no país; fala da Natureza e defende os animais que o Criador colocou neste mundo para nossa companhia e deleite; fala da necessidade de criar melhores condições para os mais idosos e para as crianças desamparadas; fala, sobretudo com o coração na boca, ou melhor, escreve com o coração nas mãos. Uma alma assim, que tão depressa deixa de fazer observações banais sobre o que sabe e não sabe e passa espalhar a Palavra de Deus, só pode ter sido tocado pelo Senhor. Sabemos que uns quantos críticos ateus o acusam de copiar os seus posts dos trabalhos de outros autores. Mas, mesmo que os copie, não é já um milagre a mudança espiritual que sofreu? Mas, mesmo que os copie não é já um milagre que tenha optado por textos de pensadores cristãos? Mas, mesmo que os copie, não é já um milagre a coragem que teve em assumir a mudança?
Creia, Ex.ª Reverendíssima, Senhor Bispo de Viseu, que, no entender dos humildes pecadores desta terra, apenas um milagre divino poderia ter transformado o Sr. Vereador Luís.
Assim sendo, em nome de todos os católicos de Penalva do Castelo, venho pedir-lhe que nomeie o Sr. Vereador Luís, sacristão das Igrejas da Misericórdia e da Ínsua, em substituição do Tiago, que com a idade e a casmurrice de quem tem monopolizado o lugar, já não está apto a cumprir com desvelo a sua missão.
Não querendo abusar da paciência de Sua Ex.ª Reverendíssima, atrevo-me a solicitar-lhe, sempre em nome dos meus companheiros de martírio terreno, que sugira ao Papa, nosso Padre Máximo, que inclua o Sr. Vereador Luís, na categoria dos Beatos da Igreja, na esperança, de que daqui a alguns anos, possamos ter em Penalva do Castelo um Santo que sirva de exemplo a todos os pecadores, pela sua capacidade de arrependimento e grandiosidade de alma.
Na verdade, confirmada, já este ano, a santificação de D. Nuno Álvares Pereira, continiaríamos a ter um Beato a quem venerar. Permito-me recordar a V.ª Ex.ª Reverendíssima que, ainda há poucos meses o Papa, santificou quase quinhentos beatos espanhóis e nós não somos menos do que eles. Aliás, as acções levadas a cabo por D. Nuno Álvares Pereira e que levaram à sua beatificação, e, agora, à santificação, começaram em Aljubarrota exactamente contra os espanhóis.
Se V.ª Ex.ª Reverendísima quiser ter a maçada de ler o blog do Sr. Vereador Luís, dará conta do amor que este novo católico vota a Cristo e à Bandeira Portuguesa, pois consegue ver, na bandeira nacional, as Chagas de Cristo, coisa que nenhum ateu consegue.
Assina, uma humilde pecadora

Carminda

PS:
O endereço do blog é
www.vereadorcastendo.blogspot.com

Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

Beato S. Luís, o Vereador


A coisa rebentou lá pelas 7 horas da manhã.
Acordar a esta hora com um toque insistente do telefone, não augura nada de bom. Pelo menos para mim, habituado aos lençóis até às 9.
Era a Carminda. Levantada desde a 6 e depois das rezas matinais, estava cheia de força para mais um dia de cânticos em louvor do Senhor, agora na companhia do Padre António, o novo representante de Cristo em Penalva do Castelo.
Podia ter começado por incomodar outro qualquer com as suas beatices, mas não, escolheu-me e a questão não devia ser de somenos.
Ensonado, suspirei:
- Siiim?
- Primo, bom dia, olha, tens Internet?
disparou de rajada.
- Ó Carminda não de cozas! Isto são horas, porra?
- Tens Internet, pois não tens?
- Ó Carminda, tem paciência. Tu tens relógio, carago? Já viste as horas? Eu logo ligo-te e depois falamos ou morreu alguém?
Nem me ouviu.
- Tens Internet, pois, que eu sei.
- Tenho, e depois?
- Tens que lá ir ver uma coisa. É para teu bem! E, olha, tens de andar mais depressa que os outros.
- Ei, ei, ei. Quais outros?
- Os que já andam a fazer lista para as eleições da Câmara. Olha que já não é cedo. O dr. Menezes ainda cá veio jantar um dia destes e, digo-to eu, que sei, que o Baptista já disse que desta vez quem escolhe os candidatos é ele, portanto, tens de te chegar à frente e escolher os melhores antes dele.
- Ó Carminda, poupa-me! Ele que te escolha que ficas lá bem! Não me chateies com essa marmelada! E o que é que tem a Internet a ver com isso?
- Tens que lá ir, primo, e ver uma coisa que o vereador de Pindo, o filho do presidente da junta de freguesia lá escreveu. Olha Rufino (
quando me chama pelo nome a coisa é solene, e, a voz, tornou-se mais calma e firme), o rapazito é uma jóia. Tem um coração de ouro. Ontem na reunião, depois do terço, na Casa Paroquial, o Sr. Padre António, leu-nos umas coisas que o miúdo escreveu, que te digo, ficámos todas admiradas e o Sr. Padre disse que almas como aquela, havia poucas.
- Desembucha!
- Pois é assim! O filho do presidente da junta, tem um blog na Internet e escreveu acerca do aborto e outras coisas. Tens de o agarrar. Ali está uma alma pura!
- Agarrar para quê? O gajo não me diz nada e nem o conheço! Carminda, vai chatear o Camões!
- Olha que só quero o teu bem. Vai lá ver o que o rapaz escreveu e depois diz-me se não tenho razão. Tens de concorrer à Câmara e metê-lo na tua lista. Somos um povo cristão e de bons sentimentos e olha que não arranjas melhor. Não sei não, mas até o Padre Delfim havia de dizer bem dele.
Lá me deu o endereço de um blog e, curioso, lá fui ver o escrito e bem valeu a pena. O vereador da nossa Câmara, na verdade, surpreendeu-me.
Começa assim:

Pensamento para hoje

Não faças crítica negativa; quando não puderes louvar, cala-te.

(Josemaría Escrivá)

È da Opus Dei, certamente.
Pelo que entendo, o Sr. Vereador, não quer críticas negativas ao seu trabalho. E, como o que faz também não merece louvores, adverte-nos para que saibamos calar a boca e, dessa forma, deixar-mos que a sua presença passe sem que se saiba da sua existência.
Preocupadíssimo com o Ambiente e com o futuro da Humanidade, não deixa de tecer ideias brilhantíssimas e pensamentos profundos sobre o Homem e a sua passagem, tão etérea, por esta vida terrena:

“O Homem é um ser predador, porque se alimenta de vida”.

Confesso aqui que me envergonhei por não conseguir alcançar o âmago da frase. Mas descobri porque é que morremos todos: se nos alimentamos da vida, acabamos com ela e pimba, lá vamos nós ter com o D. Afonso Henriques, que está no Inferno por ter batido na mãe.

Continua:
“somos nós o "bixo" (sic) HOMEM quem está a degradar a Terra. Se cada um de nós tentar fazer algo de diferente, nem que seja o mais pequeno pormenor, teremos uns milhares de pormenores alterados, o que no total e no final de uns anos significará uma grandiosa mais valia para a natureza e para o planeta ao qual devemos a vida”.

Lembrou-me o discurso do Presidente Américo Tomás, no tempo da outra senhora, na inauguração de mais uma barragem quando disse:
- “ Já inaugurei 15 barragens, com esta faz 16”- o texto não será este, mas o sentido, é-o.


Certamente, como bom aluno da disciplina de catequese que o saudoso Padre Leitão lhe ministrou, arrancou do fundo da alma de pobre pecador, a seguinte tirada:

“a Igreja quer reforçar apoios por todo o país para evitar aumento de abortos.”
“o caminho ideal seria que cada pai e cada mãe tivesse condições para educar os seus filhos com aquele mínimo necessário para os ajudar a crescer e desenvolver-se.
Lamento a falta de outras organizações no terreno para apoiarem as jovens mães.”

Só no final compreendi o motivo do telefonema da minha prima Carminda: estava a meter uma CUNHA pelo Sr. Vereador Luís. No seu íntimo de rata de sacristia, entendeu os devaneios filosóficos como uma preocupação religiosa e social. Por vontade dela, a lista era formada já, e, estou mesmo a ver quem seriam os seus componentes: eu (está ela bem livre disso), o beato Sr. Vereador Luís, o Padre Delfim (era uma forma de regressar ao nosso convívio e à terra que tanto o amou), o Padre Leitão (que, assim, voltaria à sua terra amada, Pindo, na qual deixou eternas saudades) e, porque não, o Padre Clemente, o construtor civil (a experência também conta).
Não vou perder a leitura diária do blog do Sr. Vereador. Vai ensinar-me a ser um homem melhor e mais responsável socialmente.
Só agora percebi com clareza os motivos que levaram o PSD a incluí-lo na sua lista de candidatos à Câmara em 2005: foi para melhorar o nível intelectual da equipa.

PS:

Estou mortinho por ver o gozo que vai dar ao João Paulo Ginga e seus compéres, fazer o Sarau de Natal este ano. Motivos não lhes faltam. Já estou a vê-los entrar disfarçados de frades Capuchinhos e o pessoal a rebentar de riso. Estarei na 1ª fila e aconselho toda a gente a comprar já o bilhete de ingresso antes que esgotem.

Quinta-feira, Novembro 22, 2007

Compadres e Amigos


As estrelas, o destino, os deuses ou quem quer que seja, determinam a família com que cada um vai ter de conviver e/ou de suportar ao longo da vida. A família nós não escolhemos. Aparece e temo-la, simplesmente, em maior ou menor número com maior ou menor proximidade e afectividade. Já os apêndices familiares conexos (compadres, padrinhos, amigos, e, mesmo os genros e noras) terão, toda a vida a chancela da nossa escolha. Deveria incluir também os primos em 3º grau, mas, esses, por sorte, só aparecem na nossa velhice quando vêem visitar ”a terra onde nasceram os nossos pais” e, por isso, não incomodam, ou se incomodam, é um dia ou dois o que até servem para recordar os mortos e beber uns copos à saúde dos vivos. Portanto, para além da família em 1º grau, arranjamos outra por motivos afectivos, que é aquela, que, em grande parte dos casos, está mais próxima e nos vale nos casos de aflição.
Vem esta conversa a propósito de dois compadres que a vida e a sorte me colocaram à frente, e, que, sendo do melhor que há na terra, são a antítese um do outro. A vida foi, por vezes, madrasta para os dois e às adversidades responderam com reacções diferentes.
O Lopes é da esquerda pura (o PCP “é social-fascista”, diz ele) e um anarca da pior espécie. Daqueles que ao seguir ao 25 de Abril, borrou as paredes todas com spray vermelho pichando aquelas frases imortais dos anarquistas, do tipo: “a terra a quem a trabalha…o coveiro não é latifundiário” ou “ as putas ao poder que os filhos já lá estão”. Nunca está bem com o que vê, é sempre do contra mesmo que isso implique um pouco de demagogia, não pode com padres, as beatas fazem-lhe urticária (daí, dar-se mal com a minha prima Carminda), o som dos sinos da igreja arrepiam-lhe os cabelos e diz-se: “Ateu, graças a Deus!”. Não vota, nunca (“não há escolha possível entre safardanas da mesma raça”) e diz que a democracia é uma festa burguesa. Também diz que o comunismo é o roubo, por alguns, da ingenuidade e do trabalho de outros. Quando vê o símbolo @ pensa que são mensagens encriptadas dos anarquistas. Teimoso que nem uma mula da GNR, insiste até o cansaço vencer os opositores. Tem Penalva no coração e as torres da Misericórdia têm que estar sempre ao alcance dos seus olhos, já míopes e que o obrigam a usar uns óculos antiquados, com aros redondos, modelo Trotsky com fundo de garrafa. Alto, seco e abstémio, quase faz uma alimentação vegetariana, não fora o peixe escabechado que ele próprio pesca e prepara. É um sportinguista civilizado e tem lá em casa uma fotografia dos cinco violinos. Não gosta dos lampiões, como diz, e não acredita na história do 6 milhões de benfiquistas. Nunca casou “porque não calhou”, diz.
Mas é uma alma como não há outra: dá o que tem e o que não tem.
O Guedes é de direita. “O CDS/PP é de esquerda” diz. Esteve mobilizado durante 26 meses na Guiné durante a Guerra do Ultramar, e, apesar dos sustos e da porrada que apanhou e das saudades do “puto” (Portugal em linguagem militar), ainda defende que “aquilo era nosso e eles viviam bem melhor do que vivem agora. Os que os governam são uma cambada de ladrões. Até agradeciam que voltássemos”. Ao contrário do compadre Lopes, vota sempre e o mais à direita possível. Os psdês não gostam dele e ele não pode com eles (este ponto baila sempre na conversa quando se encontram cá em casa e deve ser dos poucos assuntos em que acertam o passo). Baixote, com um corpanzil a atirar pró pesado, amante de um bom copo e carne, sempre carne, agora, que está reformado das Finanças, passeia a face corada e um cabelo liso a atirar para o ralo e com risco à direita, pela feira semanal, beberricando com os amigos (que tem em todo o lado) e espalhando alegria por onde passa. Vai à missa, é amigo da Carminda, não falha uma procissão, mas não vai na fila preta dos Irmãos que levam o páleo, os candeeiros ou as varas na mão.”Uma seita” diz. Não atinava com o Padre Delfim nem com Padre Leitão, e, quando nos deixaram por imposição bispal e não de moto-próprio, o Guedes, arranjou motivo para uns copos a mais do que a conta habitual, e, a minha comadre, torceu as fuças e ameaçou deixá-lo a dormir na sala. Ferrenho do Benfica como ele há poucos. É sócio desde miúdo e não falha um directo na Casa do Benfica. Casou novo e tem uma trindade de filhos que lhe moeram a paciência, o juízo e o dinheiro até a vida os tornar adultos e responsáveis. Já lhe deram dois netos: do filho mais velho e da do meio.
O Guedes, numa coisa é igual ao Lopes: ajuda tudo e todos e numa desgraça, é o primeiro com lágrima no olho.
Ora bem, estes meus compadres são unha com carne, são o Roque e a Amiga, são Pedro e Paulo, são o Romeu e a Julieta, isto é, são inseparáveis na amizade. São no, fundo, o equilíbrio um do outro.
O Lopes tomou como família o Guedes e a sua gente. O Guedes irmanou o Lopes como se da sua carne fosse. Não há zangas que perdurem nem teimosias mais firmes. Os extremos da política que cada um devota, une-os, numa tirada de filosofia roceira de que “os extremos, tocam-se”.
O Guedes e o Lopes são meus compadres.
Ao Guedes baptizei-lhe o mais velho e só aceitei quando vergaram ao nome de Rufino. A comadre engoliu em seco um cento de vezes, mas, o compadre, resignou-se em nome da velha amizade iniciada na primária.
O Lopes é meu compadre por adopção. Parece-me, que só a ida ao baptistério, lhe daria urticária.
Sinto-me bem quando vamos os três pela rua: eu no meio, o Lopes à esquerda e o Guedes à direita. Como mandam as regras e a convicção.

Terça-feira, Outubro 30, 2007

O Apóstolo maldito



Era inevitável. Empurrado pela minha prima Carminda, fui forçado a programar uma ida a Fátima. Aquela cabeça não pára, e, então, desde que o Padre Delfim nos trocou por Nelas, cresce nela um desejo esquisito de viajar. Nunca, antes, falhara uma excursão organizada pelo P.D., fosse onde fosse: Roma, Jerusalém, Lurdes, Fátima (uma 200 vezes, acho eu), etc.
Condescendi na esperança de que a visita à nova Igreja da Trindade (ainda não é basílica) me espantasse e me mostrasse um edifício, cuja arquitectura, é já um referencial do arquitecto grego Alexandros Tombasis, e, um local de visita obrigatória dos cursos de arquitectura das nossas universidades. Confesso que metade da minha anuência se deveu à minha curiosidade
Saímos cedo, depósito cheio pago por ela, e, á velocidade de uma Ave-Maria por quilómetro, fomos andando até nos encaixar-mos na bicha de automóveis que, a passo de caracol, avançava para a portagem, que ela também pagou, evidentemente, porque a promessa era dela e eu era apenas o motorista e não o otário de serviço.
Estacionar foi um problema resolvido de forma satisfatória porque, no meio daquele caos de carros e gente, a minha prima Carminda encontrou uma freira amiga, de uma congregação qualquer, que tem uma casa de retiros espirituais junto ao santuário. Na altura pensei que era mais um milagre do que uma coincidência, e, o carrito, lá ficou guardado no parque privado das amigas da minha prima.
Depois foi o rãmerrã do costume: compra e queima de velas
(-Uma é por ti, ó herege! - disse-me baixinho)
reza na Capela das Aparições, dádiva em dinheiro para as obras da nova basílica, cumprimento da promessa com uma volta de joelhos no chão em redor da Capela, etc. O normal para quem vai a Fátima por Fé e convicção.
Mas eu queria era ver a obra que já é a coqueluche da arquitectura religiosa em Portugal.
E gostei! A imponência da construção dissolve-se entre o terreno e o céu, mais parecendo um prolongamento do horizonte e das árvores circundantes. Apesar daquela mole imensa o edifício não é ofensivo e a simplicidade das suas linhas deixam-nos a pensar que outra forma não poderia ter senão aquela.
Por fora, na sua volumetria e na ligação ao espaço de inserção, convenceu-me, e, ouvi memo, numa apreciação de especialista e com ar de entendido um peregrino, construtor civil, certamente, repetir constantemente para a família que o rodeava:
- Tem aqui mais cimento que a Ponte da Arrábida!
Vieram-me à memória as palavras que ouvi de outros peregrinos no dia da inauguração e profusamente transmitidas nas televisões:
- Num gustei! A igreija da minha freguesia é mais bunita questa!
Ou:
- Sei lá! Nem sei! Parece mais uma casa de cinema!
Entrei na Porta do S. Tiago (se não me engano) pois cada porta tem o nome de um dos Apóstolo que acompanhou Cristo neste mundo.
Por dentro, espantou-me!
Simples, rica de espiritualidade, imensa mas acolhedora, com uma luz interior que respeita o recolhimento, confortável, pouco iconoclasta, enfim, creio mesmo que a Mão do Mestre, guiou a mão deste outro mestre terreno, o arquitecto Tombasis. Este templo esmaga o visitante e remete-o à sua condição terrena. Se essa era a intenção de quem mandou construir a Igreja da Trindade, consegui-o.
A visita estava a ser agradável com a vantagem da minha prima Carminda, pagar as despesas do passeio. Nela, sentia-lhe o cheiro da vitória. Apercebera-se que eu estava a sentir-me bem com a visita, e, isso, enchia-a de gozo. O pensamento dela era, mais ou menos do género de quem pensa que angariou mais um militante para a Igreja Católica e que companhia para a missa dominical nunca mais lhe faltaria. E, se tudo estava a correr bem, este ar de gozo fininho, matava-me. Irritava-me pensar que o regresso a Penalva do Castelo seria feito comigo de trombas e com ela a cantarolar o Avé-Avé no banco ao lado.
Saímos pela Porta de S. Matias. Abençoada a hora. Este sim, para mim, é que era um milagre. Passou-me a lua imediatamente. Baixinho, bichanei-lhe ao ouvido.
- Carminda, lê o que está no cimo da porta.
Dizia mais ou menos isto: Porta de S. Matias. E ao lado: ocupou o lugar de Judas, etc, etc…
Não resisti. Aquela seria a minha vingança sobre o nariz arrebitado daquela beata falsa (não me sai da cabeça o Mãozinhas do Corte Inglês).
E vai de azucrinar os ouvidos da coruja de sacristia:
- Pensei que na Igreja Católica não havia discriminação. Afinal enganei-me! S. Matias nunca foi Apóstulo!
E, com ela a bufar e a tentar interromper-me a todo o momento lá lhe fui envenenado o espírito e a alma.
E perorei assim:
Judas foi, de entre todos os Apóstolos, aquele que, na hora da verdade, mais se aproximou de um ser humano. O seu comportamento, ao vender Cristo por trinta moedas, mostrou o lado terreno e material do ser humano. Enforcou-se numa figueira com a dor e remorso da sua traição. Sentiu o seu erro e expiou, por vontade própria, num tipo de justiça aplicado pelos homens, o seu pecado. Jesus já tinha perdoado, por antecipação, a mentira de Pedro, que, por três vezes, negou conhecê-lo com receio do sofrimento no castigo que o esperaria. A traição e morte de Judas dram caminho à vitória de Cristo pois permitiu-Lhe a Ressurreição e a Sua ida para junto do Pai. A traição e morte de Judas permitiram a Glória do Senhor. Porquê, então, esta discriminação sobre o homem, que com o seu pecado, mais permitiu a glorificação de Cristo?
A Carminda estremecia a cada argumento meu. Faltava-lhe o ar e chispava chamas pelos olhos, e, pior, é que sentia que fora apanhada numa armadilha para a qual não tinha de momento, uma resposta adequada. O seu ar pálido de santa de cadeirame deu lugar a uma vermelhidão diabólica no rosto.
Tive pena dela e tentei fazer humor para ver se acalmava:
- Se calhar tiraram-lhe o nome da porta por causa do apelido: Iscariote não é nome de santo. Judas Iscariotes é mesmo um nome feio.
Confesso que receei que lhe desse uma coisa má. Respirava fundo, retorcia os olhos e não me encarava, limpava as mãos constantemente a um lenço de renda bordado com florzinhas amarelas e depois ficava a olhar para chão, quietinha como se estivesse morta.
As pessoas iam passando e uma atreveu-se mesmo a perguntar.
- A senhora sente-se mal? Olhe que estão ali os Escuteiros que a levam à enfermaria. Coitadinha! É do calor!
O caso foi grave e temi por um desmaio ali à Porta de S. Matias. Encostei-a á parede, dei-lhe um pouco de água, calei-me e lá foi estabilizando o ritmo cardíaco e a cor do rosto até se parecer com uma beata humilhada por um fariseu, mas não vencida. Dominou a respiração, e, repentinamente, olha-me de frente e assobiou as palavras carregadinhas de veneno:
- Judas! Judas és tu! Querias uma porta com o nome de Judas? Olha, por mim, punha o nome nesta aqui ao lado! Serve-te?
Olhei. A porta ao lado tinha os símbolos universais de um homem e de uma mulher e depois umas letras em tamanho médio: WC.

Terça-feira, Outubro 16, 2007

Os brasileiros


Já tinha sido avisado mas, como S. Tomé, só vendo!
Um dia destes tive que ir ao Porto, e, como qualquer parolo que se preze, não resisti a entrar no Corte Inglês em Gaia, que é, como se sabe, a terra onde o LFM exerce o lugar de Presidente da Câmara. Melhor, exercia, porque nunca mais lá aparece e vai administrar aquilo pelo telemóvel, continuando aqueles bacocos a pagar-lhe o ordenado.
Voltando á história.
Dizia eu, que embora avisado, não acreditara. E em quê? Que estávamos a ser invadidos por brasileiros…ros, não, ras!
A ideia que eu faço dos brasileiros não é, forçosamente a mesma que faço das brasileiras. Por motivos óbvios, elas dão muito mais serventia e animam muito mais. Eles, pelo menos os que para aqui emigram à procura da sorte (pois que trabalho encontram pouco), sempre me deixaram a impressão de serem aqueles tipos moles, com poucas habilitações, habituados a fazer muito pouco ou nada, originários das grandes metrópoles e do Nordeste, sobrevivendo de expedientes e derretendo à sombra da bananeira com um “suco de coco” a refrescar as goelas, olhando descaradamente para as mulatinhas que enxameiam as favelas e os bairros periféricos e pobres de morrer. Mas devo andar enganado.
Acontece que parei para avaramente deitar uns poucos litros de gasolina no meu velho companheiro de há 20 anos. O mínimo para a viagem, porque, quase 270$00 o litro, custam a dar. Quem me atende?
- Ói, siô! Dá normau ou dá especiau? – disse a cantar um brasuca de boina verde.
- 20 litros da normal.
- Tudo bem, siô!
A minha prima Carminda, que me acompanhava, de rosário na mão (o que é habitual quando as viagens têm mais de 30 quilómetros) e ainda não se tinha calado com a conversa sobre a nova igreja de Fátima, olhou de soslaio, deixou que os olhos mostrassem um brilho fugaz não habitual nela, disse entre dentes e baixinho:
- Não está mal, o pretito!
- Hã?
– eu queria que ela repetisse, mas, apanhada em pecado, corrigiu o tiro.
- Nada! Estava cá a pensar numa coisa. Será que á vinda dá para passar por Fátima?
Nem respondi. Com mais 20 quilos de bagagem no depósito, lá fui. A25, A1, Vila Nova de Gaia, à direita, parque de estacionamento e uma voz:
- Bom dia, siô! Qué lavá o automóveu?
Que não e andei com a minha prima Carminda a olhar para trás.
Aquela porra do Corte Inglês é mesmo grande. À espanhola!
Logo à saída do elevador um par com bom aspecto, diga-se, ele de fato e ela de saia e casaco, dirigiu-se-nos e lá veio outra vez a cantata. Ela:
- Bom dia siô! Posso incomodá um pouquinho?
Ele:
- Como vai a sinhora? Posso lhe roubá uns minutinho só?
Ela:
- Posso lhe mostrá uma cadeira medicinau, que átravéis da vibráção lhi vai dá discanço e lhi vai relaxá o corpo?
Ele:
- À sinhora pode sentá? Vou-lhe dá uma massage com esti aparelho nas costa e no piscoço e vai lhe relaxá o corpo todo o dia? Podi sê?
A minha prima Carminda estava corada e ofegante. Deixava que o fato com um brasileiro lá dentro lhe pegasse na mão e lá ia ela, como uma andorinha cor-de-rosa, a voar atrás dele.
Eu lá me desembaracei como pude, e, a brasileirita, lá foi cantar para outro passante.
- Carminda! Vamos lá! Paramos à volta! Agora não temos tempo. Vamos!
Eu bem queria tirá-la dali, mas ela, moita, nem me ouvia. Comecei a ficar preocupado porque nunca a vira assim. O rosário, que trazia sempre na mão, como os muçulmanos, jazia no fundo do bolso do casaco bem tapado com o lenço de assoar, não fosse perdê-lo, acho eu.
- Ó primo, então, é só um minutinho. É para ver se me passa a dor de costas da viagem. E não se paga nada, sabe?
Que mel teria aquele gajo que era ela agora quem lhe agarrava a patorra e o arrastava para a cadeira, estrategicamente colocada no meio do corredor?
- Ai primo, que pressa! Credo!
E pronto, lá se sentou com aquele tipo, todo mesuras, a fazer-lhe cócegas, durante 10 minutos, no pescoço, na nuca, nas costas, na nuca, nas costas, na nuca e por aí fora. E ela arfava, arfava!
Arrancá-la dali, foi o cabo dos trabalhos.
Nas duas horas que lá passei, comprei umas meias e um aftershave. A minha prima Carminda não comprou puto mas andou o tempo todo:
- Ai primo, que bem que me sinto! Que mãos as do rapaz! Se aquilo não fosse tão caro! Que dinheirão que eles pedem! Minha Nossa Senhora! Mas que mãos, que mãos! É um artista!
Para sairmos, fiz tudo, e consegui, para não passarmos no “mãozinhas abençoadas”.
À vinda, sem o passa contas do rosário e já esquecida da ida a Fátima, ainda teve a lata de dizer entre dois suspiros:
- Primo, ainda bem que estes pobres dos brasileiros falam a nossa língua. Se assim não fosse, coitadinhos, como é que nos iam entender? E, digo-te, aquele pobre moço, tinha cá mas mãos! Um verdadeiro artista, é o que é! Voltas ao Porto, quando?

Quarta-feira, Outubro 03, 2007

Ingleses



De Inglaterra nunca vem nada de bom para Portugal ou para os portugueses.
Esses colonialistas do caraças, entregaram-nos a D. Filipa de Lencastre, e depois, foi sempre a falhar.
Bem…sempre não! Estiveram cá a ajudar nas Invasões Francesas contra o Napoleão, por interesse, é verdade, mas estiveram.
Lixaram-nos (para falar nos últimos 50 anos) no campeonato do mundo em 66, lixaram-nos quando ajudaram, descaradamente, os movimentos emancipalistas nas nossas ex-colónias ultramarinas, lixaram-nos com a ocupação pacífica do Algarve, lixaram-nos com fazendo uma forcinha para mandar-mos tropas para o Iraque, lixaram-nos levando os nossos melhores jogadores de futebol e obrigando-nos a vê-los na TV Cabo, lixam-nos quando passamos pela vergonha de ver na TV os nossos putos a brincar com meninas-bem malcomportadas, lixam-nos quando deixam roubar os filhos em Portugal, lixam-nos com a exportação de paneleirotes para as nossas praias, e, agora, querem lixar a Polícia Judiciária.
Deve ser por isso que a Inglaterra é uma ilha. Ninguém os quis agarrados ao continente. O que não é de admirar: conduzem à esquerda, têm um sistema métrico diferente e medem em polegadas, pesam em libras e até o dinheiro é a libra esterlina. Nada de euros. Mas fazem parte da CEE e mandam mais do que ninguém.
Não haverá um sítio para onde pudéssemos mandar estes gajos sem ser só mandá-los à merda?

Quinta-feira, Setembro 27, 2007

Já há candidato!


Telefonou-me a minha prima Carminda. Quando isso acontece, não cai o Carmo, mas treme a Trindade.
Estava de voz melada. Pensei “foi-se o Padre Delfim e, esta beata falsa, vem aí com uma conversinha de chacha por eu não ter ido ao jantar de despedida. Vens bem, vens!”.
Começa de mansinho:
- Primo – diz lambendo as palavras - já falaram contigo?
- Quem?
- Os do coiso…ai do…como é que se chama?...Valha-me o Santíssimo! Do coiso…ah!- grita – do PPD!
- Do PPD? A que propósito?
- Da Câmara! O que lá está, sabes, o Dr.? Dizem que não vai prás próximas!
- Ó prima, donde é que isso vem? Foi o Espírito Santo que te disse?
- Rufino, não brinques com coisas santas!
– e bufou como as cobras. Foi falado no Rabiça. Ouviu que quis.
- Ai sim?
Tentei tirar mais nabos da púcara (sem más intenções) porque, a notícia, vinda donde vinha, deveria trazer agarradas mais umas quantas novidades.
- Ainda é muito cedo, Carminda, e os que lá estão não querem sair.
- Eu sei que não! Mas já há no coiso…ai, no coiso…
- PSD?
- Sim, isso. Estão-lhe a fazer a cama. E falaram em ti!
- Beeeem! Falaram bem de mim, dizes-me tu?
- Tal e qual!
- Porreiro! E o que disseram?
- Disseram que o que lá prá Câmara era preciso uma pessoa que falasse com todos e soubesse um pouco de tudo. Disseram o teu nome: Rufino Fino Filho, sim senhor.
- Vai gozar outro!
- Primo, primo! Sou uma pessoa séria e se não fosse verdade nem te dizia nada.
- Mas eu, Carminda? Por alma de quem?
- Eu acho bem! Já lá tivemos um, o das Barrocas, que era uma besta quadrada que dizia que não a tudo e fartou-se de fazer inimigos. Agora, temos lá outro, que é um burranca, que diz que sim a tudo sempre a pensar nos votos e só tem amigos. Tu, Rufino, ao menos, quando entrares para Presidente da Câmara, já levas cá de fora os amigos e os inimigos, pelo que não precisas de te matar muito a trabalhar para contentares uns e a chateares-te a fazer outros!
E desligou!

Esmeralda, a condenada


Ele há casos do caraças e a culpa é da comunicação social!
A Esmeralda é uma miúda que o pai fez, por acaso, numa brasileira, que, também por acaso, se deitou debaixo dele. Azar! Procriaram uma garota sem darem conta (ele, pelo menos, não deu) e desandaram cada um para seu lado até a gaja parir. Vai daí, vai ter com o campeão das quecas e diz-lhe que aquele rebentozito que traz ao colo é dele e que deve assumir a paternidade.
A besta nega e desconfia atirando a fazedura da garota para mais uns quantos que, eventualmente, teriam passado na cama da brasuca.
Acabrunhada pelo trato do macho, tira teimas com um exame de ADN.
Resultado: é filha do gajo que a renegou.
Na circunstância, com muitas dificuldades de toda a ordem e atendendo a que o pai não a quer, entrega a menina a pessoas que carinhosamente a trataram até hoje, pese embora as peripécias que aconteceram ao longo destes cinco anos. Vai para o Brasil à sua vida e deixa a garota em boas mãos.
O pai, que nunca reconhecera a filha e refizera a vida com outra, começou a pedir que a filha lhe fosse entre alegando ser o “pai biológico” (palavrão que só veio a conhecer através da comunicação social, que, entretanto, se tinha interessado pelo assunto, porque os pais “adoptivos” da menina, a tinham colocado a coberto das tentativas de retirada da sua guarda, levadas a cabo pela Segurança Social).
Na prática, os tribunais, demoraram anos a decidir e, agora, que a vida da menina está estabilizada (tem quase seis anitos), vêem exigir a sua entrega a quem a não quis em bebé, numa altura de fácil adaptação.
Justiça é Justiça e tem que ser cega. Cega, mas não obtusa nem estúpida.
Então, um tipo, que faz uma filha como quem come uma maçã, numa mulher que não quer para companheira, que nega a paternidade do rebento, descobre, por uma mera análise química que afinal já tem amor a uma coisa que distraidamente fez e abandonou, continua a ter tanto tempo de antena, porquê?
Uma criança com uma vida familiar normal, amada pelos que a rodeiam, com condições financeiras para um futuro sem dificuldades, vai mudar de vida afectiva, vai viver para uma casa que não conhece, com uma família que só em circunstâncias especiais a reconheceu, e, que, pelo que vem nos jornais, nunca lhe conseguirá dar uma vida tão desafogada como a que tem. Aqui, acima de todas as leis, está o bem-estar de uma criança que não tem culpa da morosidade do funcionamento dos nossos tribunais.
Conclusão: se a justiça julgou bem, os homens, neste caso, fizeram más leis.

Segunda-feira, Setembro 10, 2007

A Maddie e o Noddy


Aqueles “bifes” ingleses são tramados. Vieram passar férias a Portugal (ao Algarve, que é mais deles do que nosso) e perderam a filha. Raptada ou não, a verdade é que regressaram “sem novas nem mandadas”.
No meio de toda esta aventura mediática de reportagens, perseguições de automóvel, vigias de horas e horas à espera de novidades que nunca mais chegavam, investigações de polícias portugueses e ingleses, cães pisteiros e farejadores, arguidos, testemunhas, visitas e viagens pela Europa com recepções de políticos à mistura, missas bilingues com casa cheia, adivinhos que só queriam publicidade, palpites de jornalistas à espera de um “furo” de 1ª página, apoios e fundos inesgotáveis engrossados por almas caridosas e outros devaneios que a curiosidade mórbida dos leitores vai alimentando, eis uma novidade finalmente: o Vaticano, retirou da sua página na Internet, qualquer notícia ou alusão ao caso Maddie. Acabou-se! A Igreja, que tão pressurosa acedeu a que os pais da criança fossem recebidos pelo Santo Padre, perdeu o interesse na causa.
A minha prima Carminda, beata de vela acesa, flores brancas e a tempo inteiro, ainda magoada e chorosa com a retirada do Sr. Padre Delfim para outras bandas, teve um sonho, e, digo eu, acertou em cheio com o causador de tamanha desfeita:
- Olha primo Rufino - diz ela. Já viste aquele boneco piroso que a mãe da miúda traz sempre na mão?
- Já. Parece um urso cinzento ou outro bicharoco qualquer. Já vi, já!
- Pois foi por causa dele que a Santa Sé mandou retirar as notícias e, acho eu, proibiu os padres de voltarem a falar no caso.
- Tás a brincar, Carminda!
- Ai estou…? Vê lá se entendes: faltam quatro meses para o Natal. Os miúdos são todos iguais, e, fartos de verem a cara da miúda nos jornais e na televisão e a mãe sempre agarrada ao maltrapilho e à procura dela, o que é que te parece que vão pensar?
- Sei lá! desabafei.
- Pois é! Vão pensar que se tiverem um boneco igual, a mãe vai passar o dia a brincar com elas às escondidas. Já vês?
- Não, porra, não vejo nada!
- O Pai Natal, homem! Foi o Pai Natal, que stressado só de pesar que tinha que carregar aquela bonecada toda na China, foi a Roma e chateou toda Cúria até retirarem da net as imagens do farrapo cinzento que a mãe da garota tem sempre na mão! Tu não desta conta, mas já é o boneco mais conhecido do mundo a seguir ao maricas do Noddy. Tou-te a dizer, primo!

Acreditem: a minha prima Carminda, de burra, não tem nada!

Segunda-feira, Setembro 03, 2007

As Putas Inglesas.
























Há algum tempo atrás, postei aqui um artigozito, e, nele, dizia eu, que “já não havia putas como antigamente”. E é que não há mesmo!
Não que eu seja muito entendido na matéria, mas a vida, tem-me dito que, putas, não são só aquelas mulheres que se deitam por dinheiro (há gajos que são piores que rameiras). Mas agora não viria com esta matéria ao caso, não fora o puto do Cristiano Ronaldo, ter sido apanhado com umas boazonas, que, para além de lhe terem sugado 220 euritos à hora, ainda deram com a língua nos dentes e estão a tramar a vida ao madeirense.
Tivesse ele lido o meu blog, não teria sido surpreendido por aquelas gajas!
É que, sendo as putéfias inglesas (o miúdo só pensou na xixa fresca) se esqueceu que da Inglaterra tudo se pode esperar. Lixaram-nos nos finais do século XIX quando (em vez de nos defenderem com base na mais antiga aliança política da Europa, assinada no tempo de D. João I) deixaram que as terras demarcadas pelos portugueses em África, fossem cobiçadas e surripiadas por outra gente e por eles próprios. O Mapa Cor de Rosa. Lembram-se?
Vamos ás putas! Ora estas meninas, não se contentando com a pipa de massa que receberam, ainda foram dar à língua para os jornais, que, para além de não gostarem do nosso miúdo, ainda encontraram uma maneira de vender a notícia para todo o mundo e ganhar uma bagalhoça farta à conta de quem, sendo puta ordinária, se baixou ao ponto de passar a ser puta rafeira. Não respeitaram os clientes (e que clientes!) que lhes ajudaram a pagar a renda do apartamento, uns jantaritos no Soho e uns sapatos novos da Gucci. O dinheiro, para esta putalhada da nova geração, já não lhes satisfaz o ego. Precisam de mais. Precisam de notoriedade nem que seja à custa de matar quem lhe dá o sustento. Querem fotografias, festas, televisão e muitos basbaques à sua volta.
Acredito que o director do jornal que lhes pagou a delação, tenha largado muito mais patacão do que o que receberam do Cristiano Ronaldo e seus muchachos, Anderson e Nani. Mas será que gozou tanto como eles e teve direito a show erótico?

Quarta-feira, Agosto 29, 2007

A Entrevista e o nosso Turismo


Li a entrevista que Presidente da Câmara de Penalva do Castelo concedeu ao jornal “Diário de Viseu”, o que, como todos os anos, acontece por alturas e por via da festas concelhias (dizem-me que este ano, foram bem melhores que nos anos anteriores). Propaganda pura para emigrantes já em debandada para os locais do ganha-pão.
Não sou um tipo letrado mas ainda sei ler e interpretar o português.
Demagogia ao melhor estilo e piadas de mau gosto ditas com um ar sério, certamente, e transpostas para o papel tal como terão sido ditas.
Como sempre, o mal é do governo. Deste governo, principalmente, esquecendo-se que quando o governo era da sua cor política, nunca conseguiu trazer nenhum benefício para o concelho: veja-se a variante à vila de Penalva do Castelo, objecto de um protocolo no tempo do PSD e que está moribunda ou morta, sabe-se lá.
Como sempre as culpas são dos outros, dos malandros que não lhe dão mais dinheiro para distribuir à tripa-forra e para as festas que nunca mais acabam. Baixou as taxas de IRS 5% como se isso fosse ajudar a nosso população. Para mim, não passa de uma medida popularucha e publicitária como, aliás, bem denuncia o blog http://www.ocastendo.blogs.sapo.pt/, pois, poucos minutos depois de ser aprovada na reunião da Câmara tal medida, já estava ser anunciada na rádio.
Anuncia de seguida 5 prioridades para candidatar ao QREN (que porra é esta?) que me fizeram dar uma gargalhada: a barragem dos Cantos (nas campanhas eleitorais é certo e sabido que a promete sempre), a Variante (dizem que não a quer por lhe atravessar a sua quinta), as Zonas Industriais de Esmolfe e do Servum (com meia dúzia de metros comprados), o Auditório Municipal (é assim tão importante no meio de tantas necessidades?) e a requalificação das ruas da vila. Eu achei demais! Não é por pedir que o homem falha!
A piada de mau gosto sobre os transportes escolares é de um perfeito irresponsável! Com que então a legislação para o transporte das crianças é "demasiado rígida"? E a segurança dos miúdos, não vale nada? Se este é o espírito do nosso principal responsável autárquico, agora percebo o porquê do transporte caótico e perigoso com que os alunos das nossas escolas viajam: ao monte com 3 e 4 a ocupar o lugar de 2 e sem qualquer sistema de segurança colocado. Ficámos, pelo menos, esclarecidos sobre a suas ideias e o respeito que lhe merecem os jovens e os pais, e, a saber que os seus filhos viajam de carro particular para a escola e não nos transportes públicos ou contratados pela Câmara.
Sobre o Queijo da Serra, o Vinho e a Maçã do bravo de Esmolfe foi a mesma treta do costume. exige mas nada faz, reclama mas fica quieto, apoia mas vira os olhos. Chegam-lhe as feiras para consolar os amigos. Gosto daquela do “marketing estruturado e sustentado”. Palavras bonitas, pois! E o resto?
Fiquei atónito com o “grande interesse para empresários nacionais e estrangeiros, que estão a programar e a diligenciar a realização de investimentos na área do turismo” para o concelho de Penalva do Castelo”. Decididamente nem sou desta terra nem deste planeta, sequer!
Diz o homem: “Temos excelentes condições para aqui se fixarem pólos turísticos, aproveitando a excelência da nossa paisagem, da gastronomia, do património e da qualidade ambiental em que está envolvido todo o concelho. Assim o interesse dos investidores tem sido, nos últimos tempos, uma constante”.
De facto, eu já estranhara que os saloios dos responsáveis pelo Turismo nacional e os grandes investidores turísticos, ainda não tivessem deitado os olhos para esta terra e, gulosamente, comprado tudo quanto é casa antiga, quinta, monte e vale. Não se vê mesmo que esta é a terra do lazer e do descanso? Das paisagens infindáveis e das florestas tropicais? Da excelente gastronomia e dos restaurantes com 3 estelas no Guia Michelin? Das águas puras e de um património secular bem preservado? De uma qualidade ambiental sem parceiro na Europa?
Que mente sonhadora e idiota é capaz de afirmar tamanhas imbecilidades?
Onde estão os investidores turísticos quando nem sequer os naturais encontram um restaurante com profissionais qualificados e uma cozinha com qualidade?
Onde estão os investidores quando a comida nos nossos restaurantes não passa de batata frita congelada, pizas, febras e pouco mais?
Onde estão os investidores quando a nossa paisagem, de tão degrada, mete pena? Só pedras e matas queimadas há anos e sem qualquer reflorestação.
Onde estão os investidores quando o nosso património é deliberadamente destruído com a anuência e a bênção da Câmara Municipal? Veja-se o Morro de Castelo de Penalva, onde um padre e meia dúzia de beatos conseguiram construir num local classificado como de interesse arqueológico ou o caso da demolição de uma casa no cruzamento da Ínsua, apesar o projecto aprovado pela Câmara Municipal prever a manutenção das suas paredes em granito.
Onde estão os investidores quando a água que consumimos todos os dias está imprópria há anos e a Câmara Municipal encobre esta situação e continua como se tudo estivesse na normalidade? Veja-se o caso de Germil que andaram a beber, meses, água contaminada com porcaria dos esgotos públicos sem que os responsáveis tomassem medidas.
Fala, o Sr. Presidente, na Visabeira, dando o exemplo de um investidor turístico no concelho. Fala, mas não credita no que diz. A Visabeira só veio atrás da Casa da Ínsua, pelo interesse que representa para completar a sua gama turística de alta qualidade: não veio pela gastronomia, pelo ambiente, pelo património ou pelas paisagens. Aliás, os preços que irá praticar num local daqueles, não serão acessíveis à maioria dos penalvenses. Talvez a ele, que deverá ser convidado para lá almoçar algumas vezes.
Já agora, e, uma vez que declara que a “autarquia está a trabalhar para que Penalva do Castelo disponha de todas as condições para se afirmar, como um pólo de atracção, no turismo de qualidade”, gostaria de saber, e, como eu todos os penalvenses, quais são esses investimentos tão importantes, porque nós ainda não vimos nada.
Tem uma desculpa e apenas uma, Sr. Presidente: deu uma entrevista a um jornal local, sedeado em Viseu, que não se lê em Penalva do Castelo. Como tal, era expectável que essa entrevista servisse para entusiasmar algum viseense a passar por aqui em busca de uma boa mesa cheia de “trilogias de excelências produtivas”, uma boa paisagem para descansar do lufa-lufa da cidade e beber um copinho de água pura á sombra de um monumento qualquer. Bom proveito!

Quarta-feira, Agosto 08, 2007

O Caruncho


A Assembleia da República está a ser atacada pelo caruncho.
A notícia correu rápida e a decisão de acabar com esta epidemia, também.
Estão atentos os nossos deputados da nação.
É preciso ter caultela. As coisas acontecem sempre assim. Primeiro vem o mal que ataca as coisas que nos rodeiam, e, nós, como bons latinos católicos, deixamos tudo para o fim. Acreditamos a ajuda divina aparecerá sempre nas horas de aflição e não deixará que o mal se espalhe ou o fim se aproxime muito depressa.
Estiveram lestos os nossos deputados, pois. Em menos de um fósforo, tratou-se de mandar arrasar aquela bicharada toda com uns produtozitos químicos que vai mandar o caruncho fazer serrim para outro lado.
O pior da coisa, é que estão de férias e assim, são prejudicados. Obras na Assembleia da República durante o período de férias é coisa que não devia ser legalmente autorizada. Aos Senhores Deputados, assiste o direito de fiscalizarem as obras realizadas no seu local de trabalho.
Quem garante que matam todos os bichinhos roedores das madeiras do Palácio de S. Bento?
Quem garante que não ficam uns quantos escondidos por debaixo do soalho, no local da secretária de trabalho e que ficam ali para perturbar a concentração dos Senhores Deputados, nas longas horas que antecedem a votação, por exemplo, da normalização do tamanho dos preservativos em Portugal?
Quem garante, sem margem de erro, que os operários cumprem o seu dever devidamente protegidos contra o uso de pesticidas em lugres tão sagrados como na Assembleia da República, e não dizem palavrões ou vasculham os papéis ainda em cima das secretárias?
Quem garante que, os carunchos são eliminados com absoluto cumprimento de todas as prescrições e normas comunitárias?
Quem garante que os produtos químicos são ecológicos e não vão prejudicar, no futuro, a saúde de suas Excelências?
São estes pormenores que, por vezes, criam mal-estar entre os nossos representantes políticos. Que diabo, eles foram eleitos para trabalhar e não há o direito de os impedir de cumprir esse dever sagrado em nome dos seus eleitores, mandando fazer obras durante o período de fárias.
Por mim, decretava-se, ainda hoje, o fim das férias dos deputados, até porque, a diferença entre o que fizeram durante o ano e o que fazem agora, não é nenhuma.

Um burguês proletário


Corrigiu-me, e bem, (quem sabe, sabe) o Sr. António Vilarigues.
O Pacheco Pereira não pertenceu ao Partido Comunista Português: pertenceu ao PCP (m-l). Quer dizer, era um parente próximo, do tipo primo direito, mas que vivia na China. As minhas desculpas ao PachPer. Agora sei porque usa barbas: para esconder as feições orientais. Tudo bem!
Mas, disse mais o Sr. António Vilarigues e tenho de lhe agradecer, porque realmente não sabia (o que não é de admirar pois não sou comunista nem gosto do tal Saramago): o Saramago, nosso Nobel de Literatura, foi o único comunista que votou a favor da Ditadura do Proletariado no VII Congresso do PCP em 1974.
Vamos lá ver se entendo: no post colocado no seu blog, http://www.ocastendo.blogs.sapo.pt/ “Ainda «A Rota da Grande Dissidente» - ser militante do PCP”, o Sr. Vilarigues diz textualmente, e faço aqui copy paste:

Para se ser membro do Partido Comunista Português é apenas preciso preencher três requisitos:
1 - Estar de acordo com o seu Programa e os seus Estatutos;
2 - Militar numa das suas organizações;
3 - Pagar a sua quotização.


Ora, tendo votado contra o desaparecimento da Ditadura do Proletariado (coisa que nem a Rússia teve durante o regime comunista e que era uma bandeira para enganar papalvos, invejosos e aspirantes a ditadores), portanto contra o Programa e os Estatutos do PCP, porque não foi expulso o tal Saramago? Se o Programa e os Estatutos do PCP foram alterados e ele foi contra, porque se manteve e mantém este saneador mor ainda no partido Comunista?
Este tipo, que se promoveu usando a língua Portuguesa, preferiu ir viver para Espanha como bom burguês que é. Vive principescamente na ilha de Lanzarote e não num bairro proletário dos arredores de Madrid.
Nunca o suportei como homem e até como cidadão. Tem a mania que é um iluminado e é de uma sobranceria e de uma arrogância que metem nojo. Agora, finalmente, descobri porquê: para além de ser o proletário mais burguês, é também o burguês mais proletário.

Terça-feira, Julho 31, 2007

A Zita e o PC.


Li, com interesse e desconfiança, o livro de Zita Seabra, "Foi Assim". A curiosidade em saber o que levara aquela mulher a deixar o Partido Comunista e as razões que apresentava para o justificar, faziam-me morrer de curiosidade. Sobretudo depois da entrevista que deu, na RTP 1, à jornalista Judite de Sousa, no programa a “Grande Entrevista”.
Custava-me a aceitar que, depois de uma enorme fé no comunismo, que a levou a deixar a família com 17 anos, pudesse ter mudado tanto. Quando, no ardor da juventude se tomam decisões assim, é, penso eu, para toda a vida.
Os anos na clandestinidade, a falta da família, o medo constante da polícia política, e, depois do 25 de Abril, o ardor, a convicção e a fé que colocou na defesa dos ideais comunistas, não deixavam margem de dúvidas que estávamos perante uma aparatchik convicta e fiel aos princípios de Marx e Lenine.
Os lugares de responsabilidade que ocupou no partido, tornaram-na numa excelente observadora e deram-lhe o conhecimento exacto e a dimensão necessária dos meandros de um partido que fazia, e ainda faz, um segredo total em relação à sua própria dinâmica interna e à vida dos seus seguidores. Decidir uma coisa tão difícil, como o abandono de um caminho que escolheu para si e pelo qual enfrentou tanta ameaça física e tanto desgaste mental, é coisa que eu não entendia. Até a ler o livro e ler o comentário de José Manuel Jara, no jornal “O Avante”. Aí percebi, o quão difícil deve ter sido para o autor do texto, arranjar críticas com fundamento para justificar a sua (e creio que do Partido Comunista) opinião.
Ao iniciar a leitura de "O Avante", pensei que iria encontrar esclarecimentos sobre as dúvidas que assaltaram a Zita Seabra na sua caminhada política de uma vida e que a levaram a abandonar o caminho que percorrera durante 22 anos da sua vida; pensei que iria justificar os motivos de todas as outras dissidências no Partido Comunista como Pina Moura, Vital Moreira, José Pacheco Pereira e outros políticos importantes da nossa praça; pensei que iria dizer-nos onde se enganou Zita Seabra, na apreciação e no cumprimento das regras do Partido, para que merecesse a expulsão; aguardava uma justificação para o seguidismo em relação a Moscovo por parte de Cunhal e de toda a fileira de altos dirigentes comunistas; esperava, finalmente, saber porque é que a ditadura do proletariado é melhor que a ditadura do capitalismo.
Esperei em vão! O que ficámos a saber é que afinal, já desconfiavam da Zita Seabra há muitos anos, e que, perguntas incómodas e dúvidas sobre o Partido e sobre as políticas comunistas, não são para se ter.
A filiação no Partido Comunista, é um casamento para toda a vida (eles que defendem o divórcio!).
Com camaradas destes, mais vale, de facto, o PSD do Alberto João, do Guilherme Silva e do Mendes!

Quinta-feira, Junho 28, 2007

Já não são como antigamente...

Já não há putas como antigamente.
Nos anos 20/30 foi tempo de espanholas morenas e mamudas, como as serviçais do Eça. Mais tarde, logo após a guerra de 1945, apareceram as francesas e as alemãs, altas e elegantes como os modelos da Dior. Nos anos 60/70, não havia putas. O movimento hippie, com a teoria do amor livre, dava baldas a toda a gente. As da geração de 80, eram, na sua maioria, umas gajas mal casadas que andavam á boleia dum jantar às escondidas num sítio fino qualquer.
Todas tinham, porém uma coisa em comum: eram religiosas de missa, adoradoras da Virgem, rezavam a Santo António e ouviam as mágoas e as desditas de um gajo, sem pressas nem desculpas de que eram já horas tardias ou tinham outro para esfolar. Podia-se falar e confessar o que em casa era proibido. Hoje, são máquinas registadoras, algumas com patente brasileira ou doutro país qualquer da América do Sul ou do Leste europeu.
Antigamente as putas sabiam ser putas. Satisfaziam um tipo, tinham tempo para dois dedos de conversa e ainda davam concelhos matrimoniais, sem inveja, sem falsidades.
Cobravam pouco, poupavam nos extras e davam um beijinho de despedida.
Hoje, as putas, são de outro calibre. Põem anúncios nos jornais com fotografias e tudo, a mostrar a mercadoria, fazem passagens de modelos, aparecem nos programas de televisão sem qualquer despudor, atendem os clientes nos hotéis e cobram à entrada e, depois, escrevem livros a apregoar aos sete ventos as putarias todas sem se importarem com as vítimas que deixam pelo caminho. Outra característica: as putas de antigamente assumiam-se como tal, hoje, são quase todas massagistas, dizem elas.
Os números guias de antigamente, como o 54 ou o 160, foram substituídos pelos indicativos 91,93 e 96, quando não por um ….@...pt qualquer.
Antigamente eram profissionais sérias, competentes zelosas da sua profissão e sempre com o desejo de bem cumprir e satisfazer as taras dos clientes sem acréscimo no preço contratado. Hoje são máquinas de aviar sexo, com preço tabelado à tara e ao tempo disponível para cada um.
Até à proibição da prostituição, pelo Botas, o respeito, na rua, era demonstrado com um virar de olhos para o outro lado, mirando o vazio, não fosse dar-se o caso de se cruzarem conhecimentos comuns de intimidades inconfessáveis. Hoje, correm as ruas com vestimentas provocantes e caras dando nas vistas, como se de publicidade se tratasse, e, despudoradamente, até se fazem amigas das coitadas das esposas enganadas, procurando o mesmo cabeleireiro ou o mesmo salão de chá.
Esta nova putaria que se diz fina, pela-se por dar a conhecer e reconhecer publicamente os seus clientes e, de preferência, nos jornais ou nas revistas que vivem dos casos e das desventuras dos outros. Quanto mas putas, mais estatuto social!
Perderam o respeito pela profissão e por quem lhes dá o dinheiro a ganhar. Estas putas da nova vaga, deixaram de ter respeito por elas próprias. Não se lhes pode confiar nada e já não substituem o divã do psiquiatra nem o confessionário do padre. Com elas, é aviar e toca a andar, antes que chamem um paparazzi, uma câmara de televisão ou encontrem um lápis à mão para tirar apontamentos sobre as perfomances do seu benfeitor.
É a globalização das putas.
Por isso, é que o Pinto da Costa se tramou!

Quarta-feira, Junho 27, 2007

Os Blogs e os Idiotas

Os blogs são uns sítios porreiros. A malta escarrapacha ali tudo: sonhos, pensamentos, desaguisados, invejas, ciúmes, ódios, amores escondidos, ilícitos e imorais, desejos confessados e inconfessáveis, raivas, enfim, qualquer paneleirice serve para borrar o papel. A gente faz estas coisas e esvazia logo uma data de quilos de neurónios. Fica-se limpinho. Pelo menos até aparecer outra carga de chatices que ocupe os espaços vazios na nossa cachola.
Eu pelo menos, venho aqui quando tenho um tempito livre e cá vou dando a minha cretina opinião sobre as merdas que os outros fazem ou, pior anda, não fazem. Para desgosto de uns, eu sei, mas para satisfação de outros que, se quisessem, escreviam larachas bem piores do que as minhas. O meu luxo, nesta treta, é ir recebendo uns comentariozitos da meia dúzia de gajos que perdem tempo a vigiar o que escrevo. E digo vigiar, porque, alguns, parecem-me polícias ou fiscais da moralidade dos outros. Nesta caso, da minha.
Mando bugiar a maior parte dessas opiniões e as que ficam, salvo raras excepções, demonstram um lampejo de inteligência ou ficam para ir satisfazendo a minha curiosidade: será que aquele tipo ainda vai adiantar mais a conversa? Quase sempre é uma desilusão. Querem é dar-me espaço para continuar a chatear os do costume. Gajos inteligentes, observadores e interessantes, são cada vez mais raros. Mas há-os ainda, felizmente.
No entanto, há um, envergonhado do nome que o padrinho lhe deu em dia de baptismo que possui de uma obsessão doentia que ainda o há-de levar à cova. Vai morrer com a boca aberta, com certeza.
Vai opinando nos posts sob a cobertura do anonimato e vai-me chamando, insistentemente, Rufino Gabriel, levado a acreditar, que uma mentira dita mil vezes, passa a ser uma verdade. E fá-lo com a certeza que só os idiotas possuem: nem vendo, nem conhecendo, é capaz de distinguir o meu Eu do outro Eu que ele me quer colar.
Tomando a nuvem por Juno, isto é, o que ele quer que eu seja, por quem não sou, vai despejando, pelos sítios onde passa, um cheiro nauseabundo que exala inveja. Só inveja. Inveja de mim, Rufino, não será, certamente, pois nada tenho que possa dar-me tamanha importância que leve qualquer simples e pobre mortal, a desejar as minhas posses ou as minhas faculdades. De mim, só pode ter inveja da sombra porque é a única coisa que sempre me acompanha, que eu não guardo e ninguém acha interessante, a não ser ele. Terá, por conclusão, inveja do dono do sobrenome que me colou.
Não me incomoda muito, tirando o facto de imaginar essa pessoa a gozar o pratinho à minha custa tirando proveitos de um trabalho que não tem.
Provavelmente nem liga à diarreia mental do tal Anónimo, mas, para mim, é que é uma grande merda. Um idiota que me persegue dando de mão beijada o meu esforço a outro, que nada fez para o merecer, não tem respeito por ninguém. Encontrou, nos blogs e sob anonimato, uma forma de se sentir realizado. Vê, nos seus devaneios, reflectida uma inteligência, uma perspicácia, uma intuição e um poder de adivinhação que não tem e que só passam pela sua imaginação.
O que é típico dos idiotas chapados. Nem é dos redondos, é dos chapados.
No entanto, numa distração fatal, deixou que a sua identificação viesse anexa ao um post: chama-se JOSÉ LUÍS. Quem será?

Segunda-feira, Junho 25, 2007

Mas que GRANDE Entrevista!


No blog http://www.penalva-mais1.blogspot.com/ li, e reli, uma entrevista do Sr. Padre Delfim, nosso pastor nestas coisas da religião cristã, deu no ano 1992, à revista Grande Reportagem.
Fiquei a saber que Penalva do Castelo se situa a 30 quilómetros da Guarda, que a Ínsua e Penalva nasceram das famílias dos trabalhadores da Casa da Ínsua e que a “capital” do concelho de Penalva é Penalva do Castelo. Nem mais!
Fiquei ainda a saber que, no século XVIII, houve um sujeito chamada Luís de Albuquerque, que comprou "os terrenos todas da zona" e depois empregou toda a gente, sendo por isso, um senhor feudal (no séc. XVIII???) que passou a dar uma sopita e trabalho àqueles desgraçados. Esta é a nossa história, ou pelo menos aquela que, ao que julgo, deve ser apenas do conhecimento do Sr. Padre Delfim. Quais Romanos, quais Lusitanos, quais Celtas e Visigodos, quais Árabes! A História da nossa terra, assim é que é bem contada: somos só nós a fazê-la e não queremos cá nem Celtas nem Romanos, nem Árabes nem outros maltrapilhos que por aí passaram! Esses tipos só vinham chatear. Foi melhor assim: arranjou-se um senhor feudal tardio e fizeram-se nascer as aldeias e vilas.
Se calhar aconteceu o mesmo com Lisboa e aqueles tipos, agora, até dizem que foi fundada por Ulisses! Cambada de parolos! Está-se mesmo a ver que OLISSIPO, nome que dizem ser o original, foi o nome de um senhor feudal que comprou as margens do Rio Tejo e mandou construir umas casitas por ali para enfeitar as encostas da colina onde tinha o castelo.
A história da rivalidade entre a Ínsua e Penalva, de facto, sempre existiu. Acicatada abertamente, por uns, e, abafada interiormente, por outros, que nunca deram muita importância ao caso. Mas que existia, existia.
Só uma memória curta é que pode olvidar que essa guerra latente mas nunca explodida, foi despoletada por motivos religiosos. A verdade é que ao Padre Delfim se deve o recrudescer dessa guerrilha. Contudo, o tempo veio a dar-lhe razão, apesar das beatas e outros frequentadores de sacristias lhe terem rogado mais pragas que as que caíram sobre os Egípcios no tempo de Moisés.
Na entrevista, deslinda-se o porquê do movimento encetado pelo nosso pároco em defesa da Igreja da Misericórdia: era mais fácil dizer uma missa só, em Penalva. Mas levantado o problema, teve que ter mão para o resolver: passou a dizer missa nos dois lados. O que se ganhou com isto? Ficámos todos a saber que, hierarquicamente, a Igreja, através do S. Padre Delfim, considerava mais importante a Igreja da Misericórdia em Penalva do que a Igreja Matriz da Ínsua.
Na sua opinião fora o tal senhor feudal, que influenciara a divisão administrativa do concelho e levara a Junta de Freguesia para ao pé de sua casa. Será que o fidalgo da Ínsua era também o Presidente da Junta? Não nos custa nada admitir tal hipótese, dado que os senhores feudais do séc. XVIII só não mandavam no futebol porque ainda não tinha sido inventado. A entrevista não esclarece.
Ficámos ainda a saber que os dois maiores problemas do concelho são: os fogos florestais e os alcoólicos. É natural, digo eu, que sejam os bêbados a lançar os fogos. Nunca se sabe! É que estando alcoolizados, são inimputáveis e os Tribunais dão-lhe todas as atenuantes. Por isso é que todos nos recordamos que preso, preso, só houve um. E, esse, não foi por estar bêbado, foi por malandrice e vontade de subir na hierarquia dos Bombeiros.
Na verdade, nunca tinha pensado nisso. É altura do Sr. Presidente da Câmara, responsável máximo da Protecção Civil, mandar recolher à cadeia, durante a época do flagelo dos fogos, todos os apanharem mais de uma piela por mês, ou, então, mais certo ainda, mandar encerrar as tascas entre os meses de Junho e Setembro.
Está na altura.
O Verão já começou!

Informação!


Lista dos aposentados e reformados cuja pensão é paga pela Caixa Geral de Aposentações a partir do mês de Julho de 2007 ou das datas indicadas:


JOSÉ RAMAJAL BASÍLIO DESENHADOR ESPECIALISTA MUNICÍPIO DE AMADORA € 842,18
JOSÉ TEIXEIRA OPERÁRIO SEMIQUALIFICADO MUNICÍPIO DE PESO DA RÉGUA € 619,84
JOSÉ TEÓFILO SANTOS GONÇALVES CANTONEIRO DE LIMPEZA MUNICÍPIO DE VILA NOVA GAIA € 620,67
JOSÉ TINOCO LEITE MACHADO SUBCHEFE 2.ª CLASSE MUNICÍPIO DE PORTO € 1 269,81
JOSÉ VENTURA MARQUES CANAS MOTORISTA DE LIGEIROS MUNICÍPIO DE MAÇÃO € 614,57
JOSÉ VICENTE CARDOSO TAVARES MOTORISTA TRANSP. COLECTIVOS MUNICÍPIO DE AZAMBUJA € 558,53
JOSEFINA AUGUSTA SANTOS ALMEIDA AUXILIAR DE SERVIÇOS GERAIS MUNICÍPIO DE SETÚBAL € 663,97
JÚLIA GONÇALVES CANHETO TÉCNICA PROFISSIONAL PRINCIPAL MUNICÍPIO DE AMADORA € 665,64
JÚLIO PEREIRA CONDUTOR MÁQ. PES. VEÍC. ESP. MUNICÍPIO DE PORTO € 695,27
JUSTINIANO GONÇALVES ENCARREGADO SERV MUNIC VILA FRANCA XIRA ÁGUA SANEAM € 884,67
LAURA ALVES SILVA RAMOS AUXILIAR ADMINISTRATIVA MUNICÍPIO DE SINTRA € 665,60
LEONÍDIO FIGUEIREDO GOMES MONTEIRO PRESIDENTE MUNICÍPIO DE PENALVA CASTELO .....................€ 1 832,17
LEONOR CONCEIÇÃO RODRIGUES R. COSTA FREITAS CHEFE DE SECÇÃO MUNICÍPIO DE CAMINHA € 989,27
MANUEL COELHO MAIA PORTA-MIRAS MUNICÍPIO DE LISBOA € 653,55
MANUEL FRANCISCO GUERREIRO JARDINEIRO MUNICÍPIO DE ALBUFEIRA € 548,49
MANUEL JOAQUIM ANTUNES CONDUTOR MÁQ. PES. VEÍC. ESP. MUNICÍPIO DE BRAGA € 539,45
MANUEL JOSÉ PINTO AMANTE CHEFE DE TRANSPORTES MECÂNICOS MUNICÍPIO DE ÉVORA € 912,59
MANUEL MARCELINO CALÇÃO MORGANHEIRA CONDUTOR MÁQ. PES. VEÍC. ESP. MUNICÍPIO DE VENDAS NOVAS € 765,85
MANUEL MARQUES COELHO JARDINEIRO MUNICÍPIO DE FIGUEIRA DA FOZ € 518,29
MANUEL MATEUS FARINHA MOTORISTA TRANSP. COLECTIVOS FREGUESIA DE SANTA IRIA AZÓIA € 509,64
MANUEL PAULO ALBUQUERQUE FERREIRA CANTONEIRO DE VIAS MUNICIPAIS MUNICÍPIO DE PENALVA DO CASTELO € 409,12


Lista completa em: www.cga.pt/pubDR/2007.07.pdf

Terça-feira, Junho 19, 2007

Um CRIME no nosso Património


Mais um crime!

A casa que se encontrava no cruzamento da Rua 1º de Dezembro com a estrada para a Ínsua (antiga Casa Viúva Beirão), foi arrasada em nome de quê?

Não sendo um exemplar de estilo arquitectónico, era uma edificação que se coadunava com o local, bonita no seu género e em GRANITO. Fazia parte da envolvente ao Largo da Misericórdia e tinham a obrigação de defender a preservação das paredes exteriores. O que quer que vão fazer ali, não será maior, nem mais bonita, nem mais adaptada ao local.

Se era para demolir, porque é que a Câmara não aproveitou para alargar a curva, fazendo recuar a construção, de modo a melhorar a segurança naquele cruzamento?

Reconstruir não é demolir e fazer de novo. Reconstruir é adaptar o existente a uma nova funcionalidade ou modernizar, sem destruir o que existe.

Quem autorizou? Porquê autorizou? Com o parecer e a concordância de quem? Onde está a defesa do património edificado?

Porque é que estão sempre a falar na defesa das construções em granito e quando têm a oportunidade de as preservarem, autorizam a sua demolição?

Já dá vómitos!
Já agora, demulam a Misericórdia para alargar os passeios!!!

Segunda-feira, Junho 11, 2007

Palavra de Deus!


Diz-se que quando Deus criou o mundo para que os Homens prosperassem, concedeu-lhes 2 virtudes:
a) Aos Suíços, fê-los ordenados e cumpridores da lei;
b) Aos Ingleses, fê-los persistentes e estudiosos;
c) Aos Japoneses, fê-los trabalhadores e pacientes;
d) Aos Italianos, alegres e românticos;
e) Aos Franceses, fê-los cultos e refinados.
E, quando chegou aos portugueses, voltou-se para o anjo que tomava notas e disse:
-"Os portugueses vão ser inteligentes, boas pessoas e vão ler o RUFINO".
Quando acabou de criar o mundo, o anjo disse a Deus:
- "Senhor, deste a todos os povos duas virtudes e aos portugueses três. Isto fará com que prevaleçam sobre todos os demais".
Então Deus reflectiu e disse:
- "É pá!... Tens razão...Bom como as virtudes divinas não se podem tirar...que os portugueses, a partir de agora, possam ter qualquer das três, mas que a mesma pessoa não possa ter mais do que uma só virtude de cada vez".
Assim seja que:

1. Português que leia o RUFINO e seja boa pessoa, só pode ser inteligente.
2. O que é inteligente e lê o RUFINO, só pode ser boa pessoa.
3. E o que é inteligente e boa pessoa, só pode ler o RUFINO.

Palavra de DEUS!

PS: Tu, que me lês, acredita em mim: se NÃO enviares isto a todos os teus contactos em menos de 5 minutos, receberás um poster gigante com a cara do RUFINO e que Deus se compadeça da tua alma....

Quinta-feira, Maio 24, 2007

BEBA VINHO


A crise é geral.
O vinho não se vende ou porque é caro ou porque não presta. A solução passa por encontrar um meio de fazer chegar ao consumidor a ideia de que, beber vinho, para além de ajudar a economia nacional, e, no nosso caso particular a da nossa região, é uma bebida saudável.
Devem mesmo utilizar-se todos os meios ao nosso alcance para que o consumo do vinho aumente e o das outras bebidas, diminua. Sobretudo a cerveja, que, para ganhar mais consumidores, já é fabricada sem álcool e até com sabor a morango. Pfffffff! Que porcaria! Uma vergonha e um atentado a uma bebida, que apesar de tudo, tem história, tradição e é, nos países europeus não produtores de vinho, a bebida nacional.
Dou, pois a conhecer o resultado de um estudo, levado a cabo nos Estados Unidos, sobre as alterações que a cerveja produz no Homem. Prestem a tenção porque o caso é grave.
Um cientista americano sugeriu que os homens deveriam tomar mais cuidado com o consumo de cerveja, pois os resultados de um recente estudo a nível nacional revelaram a presença de hormonas femininas na mesma. A conclusão é grave e merece que todos os bebedores de finos, girafas, minis tomem atenção: beber cerveja faz os homens tornarem-se gajas. Para provar a teoria, foram dados a 100 homens 5 litros de cerveja, a cada um. Foi observado que:
a . 100% dos homens ganhou peso (coisa de gaja)
b. Começaram a falar excessivamente e coisas sem sentido (coisa de gaja)
c.. Tornaram-se altamente emocionais (coisa de gaja)
d.. Não conseguiam guiar (coisa de gaja)
e.. Não conseguiam pensar racionalmente (coisa de gaja)
f.. Discutiam por futilidades (coisa de gaja)
g.. Recusavam-se a pedir desculpas quando estavam errados (coisa de gaja)
h.. Passavam a vida no WC (coisa de gaja)
i.. A voz torna-se, em alguns casos, mais fina (coisa de gaja)

O aviso fica dado!
A Adega Cooperativa que pegue neste estudo e mande reproduzi-lo em milhares de cartazes e que os espalhe por todo o lado.
Pode não vender mais vinho com isso, mas cumpre o papel humanitário de avisar a população para o aparecimento de uma nova epidemia.

Quarta-feira, Maio 23, 2007

Um bom Whisky

Ardeu o CUTTY SARK!
Londres, 22/05 - Um incêndio ocorrido segunda feira causou extensos danos ao histórico veleiro Cutty Sark, elevando ainda mais os custos da restauração de uma das maiores relíquias marítimas da Inglaterra. A polícia britânica suspeita que o fogo que danificou o barco da Cutty Sark pode ter sido ateado deliberadamente. O famoso barco do séc. XIX estava atracado em Greenwich, no Reino Unido, para obras de recuperação. Quando o incêndio deflagrou, às primeiras horas da manhã, os bombeiros evacuaram a área em volta do barco. O convés foi a área mais afectada pelas chamas. No entanto, várias partes do barco, incluindo os mastros, já foram transportadas para serem recuperados. A polícia britânica está a analisar as imagens das câmaras de vigilância, à volta do barco, para conseguir perceber o que se passou. Além disso, pretendem questionar algumas pessoas que foram vistas junto da embarcação, antes do incêndio.

Um barco histórico
Antes de ser adquirido pela Cutty Sark o barco realizou várias viagens. A 16 de Fevereiro de 1870, efectuou a travessia desde o Cabo da Boa Esperança até Shangai, em três meses e meio. A embarcação realizou, ainda, mais oito viagens até à China, como meio de transporte para trocas comerciais de chá. O barco foi, mais tarde, utilizado para treinar militares durante a II Guerra Mundial. Em 1951, atracou em Londres para o Festival do Reino Unido e, pouco tempo depois, foi comprado pela sociedade da Cutty Sark.

Bem, estas foram as notícias que os média nos impingiram. Só acredita nelas quem quer, porque, pior do que um cego, é aquele que não quer ver.
Como sabemos, o nome CUTTY SARK, é, também, de uma marca de whisky escocês, mais velha que o diabo e bom como o caraças. Tem para todos os gostos: novo, velho de 10, 12, 15, 20 e mais anos. Tem ainda uns blends especiais, normalmente comemorativos, que são caros pra burro e que fazem o deleite (leite?) de quem tem a ousadia de pagar quase um mês de ordenado por uma botelha. Aquele aroma a flores silvestres e cevada fresca, mata qualquer um. A forma como corre no goto, desliza suavemente pela garganta e aquele doce ardor no estômago, que relaxa a alma e pede outra golada, deixa um ser humano a caminho do paraíso. Aquele rótulo amarelo e o desenho do barquito, acompanharam as minhas noites de farra durante muitos anos.
É certo que, CUTTY SARK também é (ou era?) o nome de um barco, da classe dos cutter (navio rápido, à vela, utilizado para o transporte de mercadorias). Em exposição permanente e aberto ao público, era a preciosa relíquia histórica do poderio marítimo da Inglaterra. Pelos vistos, chegara o tempo da revisão geral às madeiras dos mastros e do convés, ao cordame, ao velho e viajado casco, e, foi entregue a um estaleiro para reparação.
Até aqui, tudo bem!
O pior, é que quando tudo parece estar bem, aparecem sempre uns palermas a estragar a nossa alegria. A mim, parece-me uma conspiração para chatear os Ingleses e os utilizadores do néctar escocês. Ora a minha teoria, contradiz, em tudo, as notícias e que nos quiseram fazer engolir como sendo a verdade da coisa. Senão vejamos:
1 - A Inglaterra foi o principal aliado dos Estados Unidos na invasão do Iraque
2 – A Inglaterra continua a ser o maior parceiro dos Estados Unidos na manutenção do clima de guerra no Iraque
3 - O Primeiro-ministro Blair, gajo de tu cá tu lá com o Bush, vai pôr-se a milhas do governo Inglês
4 – O navio CUTTY SARK era o orgulho dos ingleses
5 – Este navio, era um símbolo do poderio naval do Império Inglês
6 – Era também o símbolo de um Império colonial, que, durante séculos, explorou as riquezas de outras terras nos confins do mundo
7 – Os Ingleses foram a potência administradora do Iraque até este país se ter tornado independente
8 – Todos sabemos que a Escócia, que é o país do whisky, faz parte da Comunidade Britânica
9 – O whisky é o motivo de orgulho e o primeiro produto de exportação da Escócia

Ora, dois e dois são quatro!
Quem fez a fogueirita do CUTTY SARK, foram os tipos da Al-Kaeda!
Razões? Basta uma e comprida:
– Atacando, em pleno coração de Inglaterra um símbolo como o CUTTY SARK, vingam-se, de uma vez só: da colonização inglesa e dos roubos do petróleo, da invasão do Iraque, das tropas ainda estacionadas em Bagdad e noutras cidades, chateiam o Blair quando está de saída para a reforma, e, protestam (simbolicamente) contra o consumo de bebidas alcoólicas, pois, como sabemos, os muçulmanos não tocam em álcool. Para os Ingleses, atacar o whisky dentro das suas portas, é como atacar o nosso Vinho do Porto no Vale do Douro, portanto, há que chatear os gajos!!!
Um tiro limpo, como se diz na gíria das malfeitorias.
É claro, que nestas teses conspirativas, ainda poderia acrescentar mais uns pózitos, mas a origem seria diferente. Também me passou pela cabeça que e fosse a própria empresa, proprietária da marca CUTTY SARK, a deitar fogo ao barco à procura e publicidade gratuita. Poderia, ainda, ter sido uma marca rival, invejosa e vingativa, a pagar a uns quantos meliantes para festejarem o S. João antes do tempo. Mas estas hipóteses não me convencem. São demasiado óbvias.
No entanto, há uma, que, se não fosse por uma questão de patriotismo, eu levaria muito a sério:
Os gajos de Sacavém! Lembram-se do whisky de Sacavém?
Com a crise que está instalada na indústria em geral, mesmo na das bebidas alcoólicas, com a falta de poder de compra de todos nós e com os preços que nos cobram por um bom CUTTY SARK, quem sabe se estes tipos de Sacavém não viram ali a oportunidade de lançarem no mercado uma boa imitação a preços mais convidativos, aproveitando a publicidade que a televisão, a rádio e os jornais fizeram com a comparação automática entre o nome do navio e do whisky? CUTTY SARK é CUTTY SARK, não é?
Vá-se lá saber? Aconselho o Ministro da Indústria, Manuel Pinho, a estar a atento a esta nova janela de oportunidade.

Terça-feira, Maio 15, 2007

O regresso da Carminda.


Finalmente a Carminda deu notícias. A que eu aguardara, dias e dias a fio, já era recessa e cheia de caruncho. Como ela, que não vê coisa de palmo há mais de 20 anos.
Lampeira, telefona e diz:
- Primo, se calhar já sabes o que é que se passou na tal reunião da Cãmara e deu aquela bronca de que te falei. Foi acompra de um terreno de vinha por 29.000 contos para o Parque Industrial. Um dinheirão. Dizem que só valeria metade. Eu sei que já tudo se comenta para aí e o pior é que aquelas chocas não me disseram coisa com coisa que valesse a pena.
-Já sei, já!- respondi. Se estivesse à tua espera ía ouvir a notícia pró ano que vem. Tás a perder qualidades, mulher. As coisas já andam mais depressa do que és capaz de as ouvir. Ou então muda de informadores porque as tuas amigas, já eram.
- Pois. Mas mesmo assim, és capaz de não saber uma coisa.
- Uma coisa não sei, não. Sei muitas!
- Fala-se que foi mandada embora da Câmara uma fulana que estava a trabalhar nas piscinas, mas estava contratada há alguns anos, com o argumento de que estão a reduzir pessoal. A coisa caiu mal e ela refilou tanto com o Presidente que a mandou inscrever no Centro de Emprego para depois a requisitar como estagiária ou como POC. Passa de contratada e emprestada, estás a ver?
Esta eu não sabia.
- Quem te disse?
- Ah, Ah!- saltou. E sabes que já começaram as obras para a construção do Centro de Saúde e o empreiteiro já se prepara para pedir mais dinheiro por causa do poço que estava no meio do edifício e que foi atulhado? Parece que para garantir a segurança do edifício vão ser necessárias mais obras.
Esta, muito menos.
- O quê?
- Ah, Ah!- riu, matreira. E sabes que aquele jogador da Guiné, o negro, o Zanussi ou lá o que é, pirou-se e nem "àgua vai" disse?
- Tás a gozar! O gajo era tratado como um rei!
- Pois era! Mas foi-se. Tchau, tchau!- e pimba, desliga.

Terça-feira, Maio 08, 2007

O Benfica é o MAIOR!

O Grande Líder acordou cedo.
Uma ansiedade que lhe crescera no coração a noite inteira obrigou-o a sair da cama pelas seis da manhã e a calçar os chinelos (presente de Natal duma esposa atenta e carinhosa) comprados no chinês da Rua 25 de Abril. Aquele aperto no peito começara no momento em que tentara passar para o papel meias dúzia de palavras do discurso com que iria receber o Presidente do Benfica. O seu presidente!
Recordava dele, com um carinho muito especial, os olhos esbugalhados e sempre atentos de puto reguila, o corte impecável do cabelo ondulado, o ar esperto e matreiro de um rosto bem escanhoado e as orelhas. Enormes orelhas. Dignas de um homem que a tudo está a tento e nada lhe escapa. Quem lhe dera ter umas orelhas assim!
Com o dia a despontar foi até à varanda, sentou-se na sua espreguiçadeira preferida e passou os olhos pela sua vasta propriedade vinhateira (assim está designada na Internet, com direito a fotografia da casa e tudo). O dia prometia sol. Ainda bem! Uma pequena prece ao S. Pedro não cairia mal e apressou-se:
- S. Pedro, meu querido S. Pedro, faz com que hoje o dia esteja ensolarado e sem chuva. Dá-nos um dia quente, com céu azul e com pouco vento. O vento pode ser apenas o necessário para fazer ondular a bandeira do Glorioso. Ó S. Pedro, se fizeres isso, prometo mandar melhorar o teu nicho da Lameira, iluminá-lo e manter sempre limpo aquele espaço que deixei, mea culpa, degradar e povoar de casotas ilegais que os moradores do bairro construíram e continuam a construir. Prometo e juro! Com a Rita Panarra e a Licínia reformadas, indicarei como responsável pela limpeza e preservação do nicho, o Fiscal da Câmara, que, como sabes melhor do que ninguém, é um funcionário zeloso e responsável, para além de ser careca como tu, e, para além do mais, benfiquista. Não falhará, portanto.
Feita a prece, recostou-se, olhou de soslaio para a gravata vermelha que colocara no mordomo na noite anterior (e fora oferta dos dirigentes da Casa do Benfica pela ajuda que dera com os funcionários municipais na limpeza do local, organização da cerimónia da inauguração e pela disposição que demonstrara em receber o presidente do glorioso oficialmente na Câmara, como se um ministro fosse) e pensou:
- Será que o Padre Delfim, benfiquista dos quatro costados, já se lembrou de pedir uma ajudinha para que tudo corra bem? Estas coisas competem-lhe mais a ele do que a mim.
O resto da manhã foi um martírio. As palavras para o discurso, porventura um dos mais importantes da sua vida, não lhe ocorriam. Sentia-se paralizado pelo peso e importância da visita e do acto.
Ás 11 horas chegou aos Paços do Concelho e passou em revista as ordens que dera durante a semana. Estava tudo normal dentro da anormalidade que sentia ser o funcionamento daquela casa. Mas, o mais importante, estava lá: a bandeira nacional encontrava-se hasteada como mandara. O homem merecia e o o protocolo que se lixasse. O Benfica só era o maior club português com 6 milhões de adeptos, o que, em termos eleitorais, valia mais do que os votos que deram a maioria absoluta ao Partido Socialista nas últimas eleições legislativas. Por isso…
O Presidente da Assembleia Municipal e os Vereadores também lá estavam. Todos. Até o da oposição. A coisa fora levada a sério: et pluribuis unnum, um por todos e todos por um (como dizia o emblema). Só faltavam alguns presidentes de Junta de Freguesia e uns tantos membros da Assembleia Municipal que deveriam ser uns ranhosos de uns sportinguistas.
A hora aproximava-se e a excitação e o nervosismo do momento iam tomando conta do grande Líder.
- Vem já aí!- gritavam uns.
- Está a meia hora de caminho!- clamavam outros
- O Ginga é que sabe! Está à espera na ponte de Mangualde!- sentenciava o Sr. Albano, presidente da casa do Benfica (o Fonseca e não o outro, o Laires, que, esse, ainda é só o Embaixador da Casa do Benfica na Câmara Municipal de Penalva do Castelo).
E o homem nunca mais chegava. Ele e a águia que, em morrendo o Eusébio, será o único símbolo vivo do Sport Lisboa e Benfica.
“E o discurso? Que vou dizer ao homem, porra!” pensava no meio do caos e da música da banda (com 90% de benfiquistas, dizem), que, numa atitude desrespeitosa e despropositada, em vez de ter treinado a Marcha do Benfica, tocava uma treta qualquer.
Nisto, olhou em redor. Tanta gente! Que multidão! Maior, muito maior do que aquela que recebera o Dr. Jorge Sampaio, Presidente da República, aquando da sua visita ao concelho em 2005. Estava salvo! Discurso para quê? Estava entre os seus ninguém iria querer ouvir as balelas sobre o concelho, as suas necessidades e a “trilogia de excelência produtiva”. Os gajos da comitiva vinham para comer e beber. Os jornalistas e os repórteres das televisões só queriam saber se o Simão estava mesmo doente ou se os médicos se tinham enganado e enganado toda a gente. Os tipos só vinham à espera de ouvir as bocas do Vieira, que, isso sim, é que é importante. Estava salvo! Bastava-lhe dizer e repetir:
“O BENFICA É O MAIOR! O BENFICA É O MAIOR!”

Segunda-feira, Abril 23, 2007

A Verdadeira Humildade

Como a minha prima Carminda não me disse puto, acabei mesmo por ler “O PENALVENSE”.
Às vezes, um gajo não devia falar demais!
Tinha metido na mona que seria sempre uma perda de tempo gastar os olhos no dito jornal, dado que há muitos anos se transformara num local onde a língua portuguesa era pontapeada em cada linha (Salomão, não é p’ra ti!), um local de generalidades repetidas, de notícias de importância e valor caseiro, vivendo dos anúncios da Câmara, dos apoios da América (olá professor Casanova!), local de pavoneamento de alguns presidentes de junta de freguesia (pretendendo justificar onde espatifam o pouco dinheiro que recebem) e de meninas melosas que fazem versos melados e enjoativos, do tipo “escola primária” (mas muito primária!). Quanto ao sentido religioso, linha mestra dada pelo fundador, nada a obstar, pois fora criado para esse fim.
Mas, voltando às leituras!
Engano meu, puro engano! Não vou mais deixar passar em claro, uma única vez que seja, a leitura do nosso querido, amantíssimo, esclarecedor, oportuníssimo, apolítico, isentíssimo jornal e agora também meu companheiro nas horas de ansiedade (causadas pela bácora da minha prima Carminda).
O exemplar de 30 de Março, com que a fortuna e a boa vontade do seu Director me quiseram presentear, trouxe-me finalmente a paz de espírito que eu necessitava e há muito ambicionava (tás tramada, Carminda!).

Confesso que, desconfiado, comecei a passar as páginas ao contrário, detrás para frente. Fui desfolhando, desfolhando e afinal a coisa não me pareceu tão mal como pensava. Mesmo ao mais incrédulo, a mão da sensatez bate à porta. Porque quero que todos comprem, melhor!, passem a assinar o nosso querido periódico, (não é Sr. Director?) deixo aqui dois ou três exemplos para aguçar a curiosidade na certeza de que nunca mais, alguém desta terra, olha de lado para o mensageiro das nossas novas.
O Sr. César Morais, lá continua a debitar sobre um desporto que nunca jogou, mas que aprendeu a conhecer nas páginas de “A BOLA” e de “O RECORD”. De qualquer forma, começo agora a creditar que vale a pena o esforço, que lhe justifica o cansaço (pensava eu que era do tabaco) e dá uma permanente secura na goela. Os emigrantes, agradecem as histórias do nosso Penalva. Força, Penalva!
Para que não fique esquecida há uma notícia que aparece duas vezes. É sobre a estrada de Sezures à Vacaria. O Senhor Director do Jornal -e muito bem- entendeu que tal assunto não merecia ficar no desconhecimento mesmo daqueles que não sabem onde é Sezures e pensam que a Vacaria é um lugar onde há vacas. Haver, deverá haver. Mas onde é que se constrói uma estrada para uma vacaria? Por isso, saiu como notícia da freguesia de Sezures e como notícia avulsa, digo, da Câmara. Quero saber quem é o cretino que, depois desta lição de geografia do nosso concelho, não vai de fim-de-semana até à Vacaria. Se se fez uma estrada nova, é para ser usada. Todos à Vacaria no dia 25 de Abril, que não sendo o Dia Mundial da Vaca, deu a conhecer algumas por aí!
Depois, a notícia que me encheu de orgulho ver estampada no jornal da minha terra. Então não é que estes pobres penalvenses, sem encontrar entre os seus ninguém de coragem para pegar nas rédeas da Santa Casa da Misericórdia, se arrastaram, durante anos e anos aos pés de um estranho, vindo de Armamar (que o amor a uma nossa conterrânea, trouxera até nós) e lhe suplicaram, mil vezes mil vezes, que nos salvasse da desgraça e comandasse aquela tormentosa nau! E ele, boa alma de Cristo, sempre se sacrificou e aceitou, com grandes custos para si e para os seus, trabalhar para o bem de todos nós, desgraçados pedintes de um pouco de regras e bom desempenho na administração da Santa Casa. Não fora ele, a sua humildade, a sua grande vontade em ajudar os necessitados (nós, os penalvenses), o seu amor ao próximo, o seu desinteresse pelas mordomias e a sua grandeza de alma, e hoje, nada do que existe, existiria!
Temos de dar graças a Deus –e, aqui, peço a ajuda do Sr. Director, Padre Delfim- por nos ter enviado esta alma caridosa, que, vendo-nos infelizes por não termos quem olhasse pelos nossos velhinhos e pelas nossas criancinhas, se imolou no trabalho insane de Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Penalva do Castelo. Obrigado, muito obrigado!
Não resisto a confessar que tal nobreza de alma me tocou no coração, tão fundo, tão fundo, que vou perdoar à ordinária da minha prima Carminda, por não me ter dado ainda novas da bronca que anda na vereação da nossa Câmara Municipal.
Carminda, estás perdoada! Mas telefona-me, está bem?

Sexta-feira, Abril 20, 2007

À espera da minha prima Carminda-parte II


Há pouco tocou e telefone e apanhou-me a dormitar na cadeira de balouço -oferta do meu compadre Celestino no dia em que me reformei. “Vais precisar dela, sacana!”- onde tentava, em vão, ler as notícias de “O PENALVENSE”, que gentilmente o seu Director me envia, religiosamente, todos os meses, mesmo nunca tendo pago a assinatura. Levo a oferta a título de generosidade e na vâ tentativa de me aliciar para ir à missa. Obrigado pelo jornal.
Não é meu costume adormecer a ler, mas, sendo o jornal que é, tenho uma desculpa de peso, igual à de tantos outros, que, esforçadamente, tentam saber novas do nosso concelho e apenas conseguem encontrar as notícias, que só o são naquele jornal caseiro feito à luz de velas, certamente.
Aliás, não conheço vivalma que não tenha a mesma reacção que eu: uma soneira impenitente que nos verga o pescoço e transporta carros de chumbo para as pálpebras.
Estremunhado, lembrei-me que seria outra vez o tipo da PT a tentar vender-me, pela milésima vez, uma conta da Internet. Ou então, os chatos do timesharing a oferecer-me um fim-de-semana num hotel no Algarve e mais um conjunto de panelas, se “tivesse a gentileza de aceitar um convite, que apenas é feito a muito poucos e que passaram numa selecção muito rigorosa dos nossos serviços internacionais”, se comparecesse no salão dos Bombeiros Voluntários para assistir à apresentação de um produto “novidade no nosso país”.
Mas não! Era, finalmente, a minha querida e amantíssima prima Carminda! Graças a Deus! A Carminda! O adorado medicamento que iria terminar com a minha tensão, sempre lá nas alturas há dois dias.
-Tou!
- Primo!
- Carminda! Finalmente! Passaste-te ou queres dar cabo de mim? Tanto tempo e não dizes nada! Sabes que, por tua culpa, nem tenho dormido? Não se faz, caramba! Olha que ainda pensei que te tivesse dado alguma coisa e tivesses ficado com a língua travada!
- Olha, filho, já não se pode confiar em ninguém. Estou aqui que nem me tenho! Sabes que por causa da Baronesa, ninguém se quer descoser? Aquelas cabras, que se faziam minhas amigas, não me dizem nada: que não ouviram, que não sabem o que se passou, que foi um chavascal na reunião mas que não deu para perceber nada, que falavam alto e grosso mas não dava para perceber…
(arquejou) …Umas cabras! Se em vez de mim fosse a Gatinha, contavam-lhe tudo. Cabras é o que elas são!
Lá começava a minha tensão a subir outra vez. Tanta ansiedade na espera e não havia meio de saber qual fora a bronca na reunião da Câmara. Um homem não é de ferro e estas coisas custam.
- Mas ó prima Carminda, nem têem uma ideia nem nada? Ninguém ouviu mesmo ou estão com medo?
- Não sei, primo. A única coisa que consegui saber é que tinha a ver com a compra de uns terrenos. Mais, não sei nem me disseram. Tenha paciência e dê-me mais um dia ou dois. Eu vou arrancar a um daqueles funcionários qualquer coisa. Vou, vou!
Plim! Telefone abaixo e eu a ficar com o auscultador nas trombas e ar de parvo.
Sentei, tentei acalmar e pensei:
(Vou à farmácia, passo no café de Baixo a ver se meto conversa com o Toninho do Boco, se lá estiver, vou à papelaria do Fernando Pina, ando por ali e, como quem não quer a coisa, vou ver se alguém sabe mais do que a minha prima Carminda. Ah! Lembrei-me agora1 Talvez o Fora de Horas saiba. Dou-lhe corda e vamos lá ver o que sai dali.)
Até saber mais sobre a bronca, vou respirar fundo, comer sem sal, evitar tocar no queijo e no presunto e deixar de visitar o Menicha ao fim da tarde para ver se estabilizo a tensão.
Se isto não resultar, volto a pegar no “PENALVENSE” e o coração desacelera. Tão certinho como eu estar aqui.

Quarta-feira, Abril 18, 2007

À espera da Carminda


Estou preocupado.
A minha prima Carminda não me telefonou a dar notícias. O que é muito grave e um sinal, para quem a conhece, de que a vida não lhe está a correr bem.
Ela e o telefone e o telefone e ela, são duas almas gémeas com uma natureza e um objectivo comuns: levar as boas e as más novas ao mundo (no caso dela, as novas, são sempre “boas” e “frescas”).
Alguma coisa falhou e, o pior, é que me deixa em pulgas.
Já verifiquei duas vezes se o aparelho cá de casa funciona, não vá dar-se o caso da trovoada da semana passada ter avariado a maquineta. Mas não, está tudo bem. O problema é mesmo da minha prima Carminda. Ou está doente, acamada e longe do telefone, ou, então, anda no “convívio”, como ela diz, para “se manter informada”.
Com a desculpa de comprar umas pastilhas para a garganta, fui até à farmácia de baixo e aproveitei para medir a tensão. Está dentro dos limites, mas, a continuar esta espera, deverá ser por pouco tempo. Ainda tentei tirar nabos da púcara da dona (que é uma boquinha sagrada, diga-se), mas, dali, népia.
- “Não sei. Ainda não ouvi nada”. O que é de admirar, acrescento eu.
Não sou de me meter na vida de ninguém, mas, como diz o Zé Raboto, enquanto saca um copo de fino (o melhor do mundo, diga-se).
_ “Pode não ser nada, mas ele que há coisitas, há. Lembro-me de uma vez…” e lá vai desfiando um rosário de boatos que vieram a confirmar-se, e que, segundo ele, também não pareciam grande coisa quando apareceram as primeiras vozes.
É o que eu penso! Nem a minha prima me teria telefonado ontem se não lhe cheirasse que a bronca seria grande lá para os lados da Câmara.
Este silêncio e a espera que se arrasta, dão cabo de mim.
Se não der notícias, quando for ao Menicha merendar com a malta do costume, passo lá por casa e, como não quer a coisa, dou-lhe um recado do género “não te esqueças que este ano a consoada é lá em casa!”.
Pode ser que se descaia.
Se não disser puto, não me resta outra solução senão encostar-me ao cromo do Toninho do Boco, que, esse, sabe de certeza o que se passou. Olha quem!
Tão certo como chamar-me Rufino.

Terça-feira, Abril 17, 2007

A minha prima Carminda

A minha prima Carminda –vá-se lá saber porque meios e artimanhas- é a fulana mais informada das coisas mais estranhas, mais escondidas, mais inverosímeis e mais ronhentas, que se passam em Penalva. Diz ela à boca cheia (literalmente) que Deus “ lhe deu as faculdades necessárias para distinguir entre o bom e o ruim” e que, “em Penalva há mais coisas ruins do que boas”, a começar “por aqueles que parecem que não partem um prato, mas partem a louça toda”. Isto diz ela, e, se o diz, é porque é verdade.
O que ela me conta, deixando passar em claro as beatices do costumes sobre quem é que “com tantos pecados só lhe fazia bem ir à missa” -e são muitos, podem crer, os que eu também acompanho nesta falha semanal, pecatus meum- tem que ser levado a crédito. Não falha, nunca falhou e, quase que juro de joelhos na calçada e à frente do Padre Delfim como testemunha, que nunca falhará.
Acreditem se quiserem, mas ela tem mesmo aquele dom que adivinha -e que os deuses só distribuem de vez em quando- de onde vai aparecer o escândalo das e dos amantes, as miséria que cada um tenta tapar do vizinho, a filhadaputice dos “bons” amigos, a sacanice na política da nossa terra e… não sei porque artes milagrosas, as broncas, invejas, o escárnio e maldizer entre as comadres cá do burgo. Nasceu assim! Eu, que a conheço muito bem, sei que de bruxa não tem nada, mas aquele sexto sentido para as malvadezes e cusquices deste mundo, às vezes deixa-me dúvidas.
Adiante!
Dizia-me ela, hoje pela manhãzinha:
- Olha, primo. Há caso na Câmara. O Vereador da oposição armou peixeirada na sexta-feira durante a reunião. Ainda não sei bem o que se passou mas logo telefono-te e já adianto mais coisas. Que é coisa da grossa, é! Pelo que me contaram, e olha que não perguntei nada, foi bonito de ver os funcionários de orelhas arrebitadas, sobrancelhas franzidas, olhos meios fechados e pescoços tortos a tentar ouvir o que se passava no andar de cima. Já estás a imaginar como, de repente, o trabalho aumentou naquela casa e passaram a andar todos de um lado para o outro de papéis na mão. Parece, que se não fosse a Baroneza andar a marcar passo pelos corredores, com cara de fiscal, tinham ouvido mais. Assim, com um ouvido nos burros e outro na moleira, pouco ouviram. Tenho lá amigos, como sabes! Mas depois eu conto-te.
E, sem mais, desliga o telefone.
Tenho que lhe dar um desconto, isso tenho. Tudo o que mexe com a Câmara dá-lhe comichão na língua e descontrola-lhe o bom senso. Aquela casa é um vulcão que alimenta a sua maledicência e é o fruto de muitas das suas conversas. Embirra com todos os políticos da terra, venham eles de onde vierem. Se calharem por lhe tirarem a vez no diz –que-diz e a substituírem bem de mais. Então, em tempo de campanha eleitoral, passa vida a apregoar aos quatro ventos:
- Ouvem-nos como eu os ouço? Depois, chocarreiras, somos nós, as mulheres. Eu tinha vergonha! Só falam mal uns dos outros! E querem eles mandar!
Por aqui, dou-lhe razão!
Dou-lhe razão, mas fico a aguardar as novidades, porque agora, quem tem febre por saber o que aconteceu, sou eu, que não me meto na vida de ninguém!

Quarta-feira, Abril 11, 2007

Eu também sou Engenheiro!


Eu também sou Engenheiro. Ponto final.
Sei que custa a crer, mas é verdade. Ouço-o todos os dias e já me habituei de tal maneira que, se antes de dizerem “Ó Rufino”, não colocam o “Eng.º” (Eng.º Rufino, claro está) fico fulo. Faltas de respeito é que não!
A minha mulher, que passa a vida azucrinar-me os ouvidos com a minha natural falta de habilidade para tratar das coisas lá de casa, não resiste a aplaudir quando mudo uma lâmpada fundida e, com um sorriso alargado diz:
- Um trabalho bem feito, sim senhor! É de Engenheiro!
Até o meu filho, que, pela idade é o que menos tem conhecimento das minhas potencialidades, não resiste a opinar quando lhe coloco a corrente da bicicleta no lugar:
- Boa, Pai! És mesmo Engenheiro!
Um dia destes, o meu vizinho, abriu os olhos de espanto quando me viu a segurar numa ponta do cordel com que o jardineiro tentava alinhar o corte da sebe e não resistiu a gritar do outro lado do muro (bem alto, aliás!):
- Ó vizinho Rufino, afinal o Senhor também é Engenheiro! E eu que pensava que era Doutor!
Não contente com a gritaria, ainda vai à porta da cozinha e atira lá para dentro:
-Ó mulher, chega aqui e vem ver o nosso vizinho! Agora é Engenheiro!
Depois não querem que um tipo ande vaidoso! Pois se até o nosso Primeiro-Ministro é Engenheiro!!!

Segunda-feira, Abril 02, 2007

Que mau ambiente!


Depois de uma trabalheira terrível que deve ter sido a deslocação (mais uma) aos Estados Unidos para um jantar com os mesmos do costume, logo a seguir ao seu regresso de Bruxelas, onde foi fazer ninguém sabe o quê, deve saber bem o descanso falando sobre coisas do nosso interesse e para o nosso bem estar.
O nosso Grande Líder e presidente da Câmara, teve uma semana em cheio no que diz respeito aos temas ambientais e ao seu compromisso futuro, nesta área. Tudo para bem do nosso degradado (desgraçado, digo eu) concelho, diz ele.
Na Rádio Mangualde tentou explicar o porquê da contaminação da totalidade das águas do concelho, impróprias para consumo, sem a consideração de um aviso à navegação, isto é, ao consumidor/pagante. Não conseguiu explicar e meteu os pés pelas mãos tentando justificar o que não tinha justificação: a incúria e o desleixo de quem é responsável pelo tratamento, manutenção e fiscalização do sistema de águas de consumo.
No jornal “O Centro” espremeu-se em promessas (a sua especialidade) sobre os investimentos ambientais no concelho até 2009 e até aparece numa fotografia a ver plantar uma árvore, numa descarada propaganda a uma companhia de seguros.
Aí disse que:
- Vai “construir mais ETAR’s para melhorar a eficiência no tratamento dos esgotos”; vai “dinamizar, através do Gabinete Técnico Florestal e a Associação dos Produtores Florestais, a reflorestação do concelho”; vai “implementar medidas proactivas de poupança de água e utilização racional dos recursos hídricos”; vai “fomentar a utilização de energias renováveis, estudando as soluções técnicas mais adequadas para a exploração da energia solar na Piscina Municipal e no Complexo Desportiva da Santa Ana”; e, vai “sensibilizar a população para a recolha selectiva de resíduos”.
Para quem está atento, os assuntos focados são, na verdade, de interesse geral, e, resta saber se, o Grande Líder tem capacidade para os levar a efeito, porque os meios que vai utilizar, estão há muito tempo ao seu serviço e, até agora, foi só fumo, não houve fogo.
Se não, vejamos:
- As ETAR’s que existem funcionam mal, sem fiscalização ou acompanhamento, com o espaço onde estão instaladas mal amanhados e abandonados. Antes de construir mais, porque não colocam as que existem em condições e de deixarem de ser um foco de contaminação?
- Dinamizar o quê, se o Gabinete Técnico Florestal, quase não existe e ainda não produziu nenhum documento estratégico para a nossa floresta, apesar do dinheirão já gasto? E a Associação dos Produtores Florestais? O que fez até agora senão estar à espera que lhe chovam no regaço uns subsidiozitos?
- Implementar medidas para a poupança de água quando há centenas de consumidores com os contadores avariados que gastam a seu belo prazer, sem controlo e sem pagar?
- A utilização das energias renováveis é um assunto que merece a nossa aprovação por dois motivos: 1º- pagar-se-á menos pelo gasóleo para aquecimento da água das piscinas; 2º- é só mandar fazer o estudo fora da Câmara e pagar, pelo que se parte do princípio que é exequível a curto prazo.
- A sensibilização para a recolha selectiva tem dado os seus frutos. Tem mesmo! Veja-se o local onde foram implantados os contentores e a quantidade de lixo que continua espalhado pela vila ou que é depositado fora dos mesmos. Para não falar da continuidade nos despejos de fogões, frigoríficos, baterias, etc., pelas matas do concelho e longe dos aglomerados populacionais.
Todos gostaríamos que às suas intenções acrescentasse outras, também importantes e que fosse capaz de as desenvolver:
Aumentar a capacidade dos depósitos e melhorar o nível de tratamento das águas de consumo para garantir um abastecimento eficaz; executar um Plano Municipal de Defesa Contra Incêndios Florestais; implementar estratégias ambientais para o futuro, como, por exemplo, a criação, na Senhora de Lurdes, de um Parque Temático da Natureza e Educação Ambiental; lançar e concretizar em definitivo, a Barragem dos Cantos, um dos seus cantos da campanha eleitoral; melhorar e renovar os espaços verdes na vila, que, da forma em que se encontram os nossos jardins, são um motivo de vergonha para todos nós; Revisão do Plano Director Municipal, pois já não há justificação para o seu atraso, etc.
Mas o que todos gostávamos mesmo, mesmo, era que, o Grande Líder e Presidente da Câmara, nos dissesse quem é o responsável pelo Ambiente na Câmara Municipal, porque ele, quando fala destas coisas, só cria mau ambiente.

Quinta-feira, Março 29, 2007

Concursos?...é pró que dão!


No concurso Os Grandes Portugueses”, realizado pela RTP, ganhou aquele que todos esperavam, mas que ninguém queria que ganhasse. Ganhou Salazar da mesma forma que, em Espanha, ganhará o Franco, se o concurso se realizar. É o sinal dos tempos. Nada disto tem a ver com o saudosismo por quem não deixou saudades.
A globalização das ideias, dos mercados, das influências políticas, a proximidade cada vez mais agressiva de novas culturas, o ressurgimento de fundamentalismos religiosos, as migrações em busca de novos horizontes e de novas oportunidades de vida, o avassalamento dos mercados mais débeis pelas grandes potências comerciais, o distanciamento, cada vez mais evidente, dos países ricos dos pobres, os novos conceitos de gestão cuja eficiência se mede pelos lucros astronómicos das empresas, que cada vez têm menos consciência social, o gradual afastamento dos políticos das realidades, a falta de segurança e o medo do futuro, não poderiam ter outro resultado que não fosse a vitória de quem nunca se submeteu a qualquer votação em vida. Ganhar, depois de morto, é a vitória estéril das cinzas porque o fogo há muito que se extinguiu.
Em segundo lugar, e, por contraponto apenas à vitória já esperada de Salazar, ficou Cunhal -para grande desgosto dos seus apoiantes que, para além de um comportamento muito pouco exemplar na derrota, viram, assim, o seu herói, ficar atrás do seu maior inimigo. Coisas da vida, que só não entende quem não olha à sua volta.
Daqui a 50 anos, numa hipotética repetição do concurso, uma coisa é certa: Salazar voltará a ser um dos finalistas, e, de Cunhal, ninguém falará, porque, para o bem ou para o mal, Cunhal foi sempre a imagem austera do miserabilismo, da vida privada -e escondida à curiosidade do comum dos cidadãos-, do mistério, do apoio ao regime mais odiado do planeta, de um regime para pobres que criou e legou à história monstros cada vez mais ricos e mais brutais.
Por mim, ganhava o rei D. Sebastião, que, farto de aturar um povo que era no dizer de Júlio César, como os Lusitanos, “um povo que não se governa nem se deixa governar”, foi-se matar para África e ainda hoje tem à sua espera 10 milhões de portugueses, sem contar com os emigrantes.

Sexta-feira, Março 16, 2007

Medo de quê?



Imaginava eu que os antifascistas eram pessoas politicamente bem preparadas, com uma cultura acima da média, convictos das suas crenças politicas, sólidos na defesa das suas ideias, solidários com as necessidades e anseios dos mais desfavorecidos, exemplos de firmeza no combate às injustiças sociais, desapegados das coisas terrenas, uns sacrificados em nome do bem comum, exemplo de bravura e sofrimento na defesa intransigente das suas convicções … e que não tinham medo de nada.
As histórias que se conheceram a seguir ao 25 de Abril sobre a resistência e a luta, levada a cabo pela esquerda durante o Estado Novo, por uma sociedade mais justa e melhor para todos, deixara-me a ideia e que eram pessoas capazes de entender os que, na sua ideia, “tinham trilhado caminhos errados” e ajudá-los a alcançar um estado comum de felicidade e bem estar. Pelo que vi aqui há alguns dia atrás, não podia estar mais errado!
A manifestação em Santa Comba Dão de um Grupo Antifascista duma associação qualquer -que, diziam, representavam- atirou para o caixote do lixo as minhas boas impressões sobre o seu comportamento solidário com todos nós. O mito do antifascista inteligente caiu ali, nas ruas de Santa Comba Dão.
A insípida, intolerante, mal preparada e envergonhada manifestação antifascista contra a construção do Museu Salazar, levada a cabo por cerca de 200 manifestantes, em ar de romaria paga, disse tudo o que eu precisávamos saber sobre a intolerância de quem sempre pensou que o mundo tinha que girar à volta da sua razão e das suas preclaras ideias políticas.
Demonstraram que não são politicamente bem preparados porque assustaram-se com uma intenção dos órgãos autárquicos locais, eleitos democraticamente, que nada tem de política. Não entenderam, que o regime que defendem e as ideias que demonstram perfilhar, não são melhores do que foi a ditadura de Salazar. A história comprova-o e hoje restam a anacrónica Cuba e a neo-capitalista-comunista China para o provar.
Cultura, demonstraram pouca porque só conhecem uma parte da história. Desconhecem que este país, com a sua preciosa ajuda, mudou no dia 25 de Abril e já não há regresso ao passado. Desconhecem que o Muro de Berlim, Cortina de Ferro, o Paraíso de Leste e o comunismo, já foi chão que deu uvas, e, hoje, já por lá prolifera a democracia, felizmente.
Estes 200 exemplares, de um antifascismo anacrónico nestes tempos, esqueceram a solidariedade e não perceberam que a intenção da Câmara de Santa Comba Dão era criar -mostrando um espólio pessoal que nada tem de político-, a possibilidade de um pólo de desenvolvimento local, neste interior tão mal tratado e tão abandonado. Daí se perceba que a maioria tivesse vindo, em excursão, de Lisboa.
E, depois, pior de tudo, os intemeratos, tiveram medo. Medo de um morto. Medo de ideias que já ninguém quer e que os próprios naturais da terra repudiaram há muito tempo. Medo de um nome, que já só vale porque foi ressuscitado num concurso televisivo. Medo que o Museu Salazar se tornasse num centro de peregrinação saudosista, tipo Mausoléu de Lenine, na Praça Vermelha, em Moscovo. (E eles lá sabem porque!)
Mas, medo tenho eu. Medo que estes antifascistas possam decidir e mandar neste pobre país. Medo que eu não me possa manifestar se um dia eles mandarem. Medo de, qualquer dia e a continuarem assim, me esquecer do seu contributo para o 25 de Abril, que lhes permitiu, naquele fim de semana, manifestarem-se livremente em Santa Comba Dão.
Cruzes, abrenúncio! Vade retro Satanás!

Preparo-me para receber uns quantos posts a chamarem-me fascista. Será mais do mesmo! Quem não é por mim é contra mim, pensam eles.

Terça-feira, Março 06, 2007

Cadê o apoio?



A notícia que se segue passou na comunicação social e apenas não foi lida pelos nossos responsáveis camarários. Não se lhes conhece qualquer reacção ou palavra de apoio. Limitaram-se a estar presentes na entrega ao Governador Civil do baixo-assinado subscrito por milhares de Penalvenses. Sem uma palavra. Certamente porque o documento nasceu do trabalho do Partido Comunista e da sua estrutura em Penalva do Castelo.
Eu assinei, por extenso. Felizmente, muitos outros, que não sendo comunistas viram naquele comunicado um acto de cidadania, também o fizeram.


PSD critica falta de médicos no Distrito de Viseu
http://www.portugaldiario.iol.pt/
2007/02/02
Os deputados do PSD eleitos por Viseu criticaram hoje o «esvaziamento» de médicos em alguns centros de saúde do distrito, devido à saída dos clínicos para as Unidades de Saúde Familiares (USF) das cidades, noticia a Lusa.
No distrito de Viseu, os centros de saúde de Vouzela, Vila Nova de Paiva e Penalva do Castelo estão, segundo os deputados social-democratas, a viver uma situação «insuportável» devido à saída desses profissionais.
«Desde que os médicos aleguem que vão integrar uma USF e que se propõem aí aumentar a cobertura assistencial, então podem livremente transitar dos centros de saúde do interior para os da cidade», criticam.
Os deputados questionam o ministro da Saúde, Correia de Campos, sobre as medidas que «prevê adoptar para evitar o esvaziamento dos centros de saúde» periféricos e do interior do país, em favor dos centros de saúde das cidades e do litoral.
Perguntam também ao governante «que medidas prevê adoptar, em concreto, para garantir o restabelecimento do quadro de médicos» do centro de saúde de Penalva do Castelo, concelho onde perto de um terço dos habitantes não tem médico de família.
Hoje de manhã realizou-se uma concentração de populares em Penalva do Castelo, promovida pela Comissão de Utentes dos Serviços Públicos de Saúde de Viseu, que entregou ao governador civil de Viseu um abaixo-assinado subscrito por 2.539 pessoas a contestar a falta de médicos.
O documento refere que «o centro de saúde de Penalva do Castelo serve uma população residente de mais de nove mil habitantes, significativamente envelhecida».
...///...

Segunda-feira, Março 05, 2007

A nossa Saúde está doente!



Onde está o nosso Centro de Saúde?
Se bem se lembram, no ano passado, esteve entre nós o Ministro da Saúde, que garantiu que ainda este ano (2007), teríamos em funcionamento o novo Centro de Saúde, agora com novo nome (Unidades Familiares de Saúde, ou algo parecido) e de dimensões mais reduzidas. Mais reduzidas ainda do que o actual, que é propriedade da Misericórdia e se encontra arrendado há mais de 30 anos ao Ministério a Saúde. Em 30 anos, as obras, a cargo do Estado, limitaram-se, que eu me lembre, a uns arranjos interiores e à substituição da telha…nada mais.
Pois podemos esperar sentados!!!
Até agora não vimos nada e, os responsáveis (Ministério da Saúde e Câmara Municipal), ainda não se dignaram ter uma palavra de explicação para o atraso na construção.
Afinal para que servem?
Do Ministro da Saúde, não podemos esperar que se lembre de nós, aqui perdidos no meio da serra, e um grão de areia na imensidão dos problemas que o afogam de manhã à noite.
E então para que servem os responsáveis eleitos para a Câmara Municipal? Não são os que estão mais perto de nós? Não lhes compete e responsabilidade de informar os munícipes? São pagos para quê?
Para que servem, então?
Para trabalhar já vimos (e estamos todos os dias a ver) que não servem. Para falar, pelos vistos, também não, pois não nos dizem pívia. Para comer, muito menos, pois deixaram faltar a comida aos convidados na Feira do Queijo. Para beber, só se for à ”moi” (há um vereador que tem bom vinho e não se inclui neste item). Para passear, só se for à borla e à nossa conta (Estados Unidos da América, França, Suiça, Bélgica, etc).
Afinal, para que servem? pergunto eu.
Será que é assim tão difícil emitir um comunicado e explicar à população o que é que se passa com a construção do Centro de Saúde? Será que os compromissos assumidos não foram ainda cumpridos, por parte da Câmara, e, o Ministério da Saúde, está à espera de alguma coisa? Será que têm vergonha do local que cederam para a construção? Será que estão à espera de eleições para mostrar serviço? Será que vai acontecer o mesmo que à Biblioteca, parada há tanto tempo que já cheira mal? Será que se têm interessado, realmente, por uma resolução rápida deste problema que nos afecta a todos?
Ou será que, no Ministério, nem os ouvem? Ou não vão lá chatear os tipos? Se calhar é isso: não vão lá!
Porra, digam qualquer coisa! Nem que seja através de convites para o almoço da inauguração (isso, sabem fazer muito bem!), que, por este andar, vai acontecer em 2050.

Sexta-feira, Março 02, 2007

Uma casa de cegos!



















Um post de um leitor, ao que parece assíduo, deste deu-me a conhecer que, na Lameira, junto aos tanques de lavar a roupa, está em construção um prédio, constituído por três moradias unifamiliares, que apenas em finais de Janeiro obteve licença da Câmara para poder iniciar a obra. Isto é: o projecto apenas foi licenciado em Janeiro deste ano.
Ora, que eu me lembre (o tal post também o confirma), aquela obra foi iniciada em Outubro do ano passado! Quer dizer que, nas barbas da fiscalização, do engenheiro responsável, do vereador do pelouro e do Presidente da Cãmara, foi possível construir um monstro daqueles sem qualquer licenciamento e sem que dessem conta! E isto passa-se na vila de Penalva do Castelo. O que não se passará nas aldeias onde, ao que parece, o fiscal apenas vai passear aproveitando uma ou outra paragem para se pôr em dia com os jornais desportivos e angariar novos clientes para uns projectozitos porque a vida está cara e custa todos!
No mínimo, e sem querer entrar por outros caminhos mais ínvios e desconfiados, teve de haver conivência com os serviços ou com os responsáveis. Um prédio daqueles não se levanta de um dia para o outro.
O caso é simples:
- Será que os empreiteiros têm mais poder do que o Presidente e estão-se a marimbar para ele?
- Será que os projectos foram feitos por funcionários da Câmara que dão cobertura à ilegalidade?
- Será que este fechar de olhos indicia outras situações menos claras e mais lucrativas?
- Será que já não há vergonha e os responsáveis pensam que concelho é uma propriedade sua onde fazem o que querem?
- Será que a GNR passa pelas obras em construção e não pede para verificar a legalidade da construção?
Afinal sempre tinham razão aqueles que na última campanha eleitoral denunciaram a enormidade que atingiu a construção ilegal e a completa falta de fiscalização, neste concelho.
E eu que não acreditei por pensar que era dôr de cotovelo!
Concluindo: confirma-se que os construtores civis são quem manda nas cãmaras!
O que leva outra conclusão: devem ser eles que pagam as campanhas!
(Disse ainda o autor do post, que me irá enviar mais casos. Fico a guardar e vou escarrachapá-los todos aqui, com fotografias e tudo!)

Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

Novidades, novidades...não há!


Passou-se o Natal, o Dia de Reis, o Carnaval, e, daqui a uns dias, passar-se-ia a Páscoa sem voltar a assentar arraiais por aqui. É mesmo de quem não tem vergonha!
Dizem-me (os amigos a quem fui pedir as janeiras já serôdias, de tardias) que tudo se mantém na mesma: ruas porcas e jardins maltratados (isso vi logo à chegada), obras sem licença e construção clandestina que baste, mais gente a entrar para Câmara sem se saber bem para quê, jeitinhos e favores aos amigos do costume, o pessoal que trabalha(?) no exterior continua sem rei nem roque, ninguém sabe o que faz um dos vereadores a tempo inteiro (o melhor cliente do bar da Câmara, dizem), a fiscalização continua a não actuar, etc.
Não há, portanto, novidades de maior, tirando o facto de, mais uma vez, ter passado por Penalva do Castelo, participando animadamente no almoço da Feira do Queijo, o deputado do PSD, José Cesário, mais conhecido nestas terras pelo Deputado Neftalina (como os fatos de cerimónia, só o vemos de ano a ano!). Quanto à Feira em si, parece que se repetiu a cena habitual da falta de comida. Com tanta falta de controlo e bom senso na distribuição dos convites (digo eu que não tive direito a um) não é de admirar. Fazer festas com o dinheiro dos outros é fácil, é barato e traz milhões de borlistas.
Novidade, novidade, é a colocação de câmeras de vídeo no edifício da Câmara Municipal. Agora, dá-lhes para vigiar os funcionários durante as horas de serviço: quem vai mais vezes ao bar, à casa de banho, quem faz gazeta sentado na secretária, quem passa mais tempo na Internet, quem conversa com quem. Enfim, há olhos sobre todos e todos vão arranjar uma forma de fintar a vigilância.
Bom seria que estas câmeras servissem para vigiar quem vende produtos de cosmética, perfumes, tachos e panelas e impedisse a entrada de vendedores ambulantes com produtos contrafaccionados. Pois é! Naquela casa também há, ao que me contam, quem entre para vender produtos falsos. O que não é de admirar, pois, ali, já tudo cheira a falso!
A minha esperança, é que a Câmara transmita as imagens num circuito de televisão alargado a todo o concelho e assim podermos verificar o trabalho dos nossos eleitos! Garantem-me, que para isso, cinco minutos diários bastariam!
E NÃO QUEREM CRER QUE EU ACREDITO???

Terça-feira, Novembro 28, 2006

Afinal, o Pai Natal existe.


Dizem que o Pai Natal não existe.
Meeentiiira! É mesmo mentira!
Acabei de o ver na televisão e um destes dias estava à porta do Fórum, em Viseu, a gritar OOOHHH OOOHHH aos putos que passavam e até se sentava com eles ao colo para as fotografias da praxe. Portanto, para aqueles boateiros e cépticos que passam a vida a duvidar de tudo, mesmo do que lhes entra pelos olhos dentro, aconselho-os a estarem mais atentos e, até aposto, que, um dia destes, verão o trenó e as renas a passar-lhes à porta.
Está claro que existe mas não pode falar com todos e, muito menos, dar tudo o que lhe pedem. Pôrra! Se assim fosse lá vinha o meu Ferrari!
Quando era miúdo - recordo-me bem- dava-me sempre uns chocolatitos e, uma ou duas vezes, até nozes e avelãs me deixou numa meia que eu sempre pendurava na lareira.
Bons tempos! Todos nos contentava-mos com pouco! Agora, com a mania das grandezas e com os reclames na televisão, todos pedem carrinhos a pilhas e computadores. Para além do trenó não poder com a carga, também as fábricas no Pólo Norte (acho que agora são na China) não conseguiriam dar vazão às encomendas.
Além disso, com a mania dos aquecimentos centrais e dos ares condicionados, onde é que estão a chaminés para poder entrar à vontade e fora de horas nas casas? Estão a esquecer-se de que nas cidades, nos prédios de apartamentos, as únicas chaminés são as que tiram os maus cheiros das casas de banho? Francamente! O homem (o Pai Natal é homem?) não merece tanto.
Por isso, porque não pedimos todos a mesma coisa (uma coisa que a todos sirva e a todos convenha) e lhe facilitamos a vida?
Uma coisa que seja fácil de entregar e útil para nós e para os nossos vizinhos!
Uma coisa tão simples, tão comum - mas tão útil - que transforme este Natal no melhor das nossas vidas!
Uma coisa que todos necessitamos e aspiramos no nosso dia a dia, mas que nem sempre encontramos!
Uma coisa cujo usufruto nos transmita calma e serenidade!
Uma coisa simples, afinal:
todos devemos pedir que, este ano, o bom do Pai Natal traga BOM SENSO A QUEM NOS GOVERNA.
Fácil e simples, não é?


Quarta-feira, Novembro 15, 2006

Vem aí o NATAL!

Sei que ainda é muito cedo para distribuir os presentes de Natal, mas, tomem lá a árvore enquanto há guita.

Fica a proposta de nos encontramos todos, na Noite de Natal, depois da Missa do Galo, junto à Pia de Pedra que foi roubada dos Tanques da Lameira.

Segunda-feira, Novembro 13, 2006

A Pia de Pedra da Lameira

Todos sabemos o que é uma pia: um recipiente de pedra, normalmente em granito ou mármore, que foi trabalhado de modo a ficar com uma concavidade onde se recolhe água.
Na nossa região, eram comuns dois tipos de pias, cujo uso estava ligado ao dia a dia dos trabalhos domésticos e do campo: as domésticas, mais pequenas e que serviam normalmente para deitar a vianda aos porcos e, as públicas, que estavam sempre colocadas junto das fontes e lavadouros, para que o gado, neste caso as ovelhas e os bois, pudessem matar a sede. Dizem os antigos, que estas últimas, às vezes, também serviam para curar, ou, pelo, menos refrescar a mona quando a bezana de tinto, tornava o olhar turvo e a chave recusava entrar na fechadura. Este seria, na nossa região abundante em bom tintol, uma utilidade extra á serventia das pias que matavam a sede aos animais em transumância ou no regresso à loja e ao desaparelhar do carro de bois.
Mesmo aqui na vila de Penalva do Castelo, que me lembre, sempre houve dois lugares onde se podiam encontrar: na Fonte do Outeiro e nos Tanques da Lameira. Podiam, digo bem! Porque já não podem!
A antiga e enorme pia que se encontrava nas traseiras dos Tanques de lavar a roupa, na Lameira, acaba de desaparecer misteriosamente. Tantos anos ali esteve á espera de melhores dias e mais respeito pelo seu passado de arca sagrada dos mil segredos de mulheres em alegre falatório, de quem diz o que não deve ou o que não quer.
Não consta que, farta de saber os mexericos por ali relatados, se levasse de incómodos e abandonasse aquele lugar estratégico do disse-que-disse e do desmazelo linguístico do mulherio em amena cavaqueira.
Não se regista que, incomodada pelos palavrões e fumo dos cigarritos, que os putos, á surrelfa, por ali queimaram, fizesse as malas (as pias têm malas?) e partisse para um lugar mais saudável e menos poluído.
Ninguém a viu a entrar sorrateiramente em qualquer capela ou igreja do nosso burgo, de visita ás suas primas mais chegadas: a pia batismal e a pia de água benta.
Também não foi, com certeza absoluta, cumprir qualquer promessa a Fátima, porque, para isso, aproveitava uma excursão organizada por um senhor prior qualquer.
No Centro de Saúde, não consta qualquer registo de entrada para cura de mazelas.
Com o início do ano lectivo, era natural que quisesse conhecer, finalmente, o novo sistema de ensino deste governo. Mas não! Não entrou em qualquer escola!
Também não apareceu na Feira da Maçã em Esmolfe ou na Festa da Castanha e do Vinho em Pindo (se calhar nem convidada foi).
Não anda a aprender a nadar nas Piscinas Municipais nem foi chamada para adjunta do novo Comandante dos Bombeiros.
É de facto um mistério o que aconteceu à pia da Lameira!

Mas eu tenho uma teoria e quase que aposto que está correcta!

Aí vai a teoria:
como sabem, as campas antropomórficas são sepulturas escavadas na rocha, em blocos graníticos, e encontram-se espalhadas em diversas freguesias do nosso concelho: Castelo de Penalva, Sezures e Esmolfe, pelo menos. Desde tempos imemoriais que estas campas, á superfície e cobertas por uma rocha com um formato plano, foram utilizadas para sepultar os nossos antepassados, cobrindo, transversalmente, quase todos os povos da antiguidade e civilizações. Se pensarmos bem, uma pia de pedra tem o formato de uma campa antropomórfica com a vantagem de ser móvel. Tal e qual como se fosse uma urna funerária.

Por isso, quem me diz a mim (com pleonasmo e tudo), que não foi algum comerciante de urnas que a levou?

Quarta-feira, Novembro 08, 2006

A castanha do Astérix!



Vem aí mais uma "Festa da Castanha e do Vinho" organizada pela Junta de Freguesia de Pindo.
Habituámo-nos já, a que, todos os anos, por alturas do S.a Martinho (que é o padroeiro da Freguesia), a Junta promova este evento.
Mas da CASTANHA!!!??? Onde estão os soutos de castanheiros e qual a importância da castanha na economia da freguesia de Pindo?
E do VINHO!!!??? Então, com as castanhas, não é geropiga que se bebe?
O mais curioso, é que neste regabofe, todos colaboram e participam: habitantes e Câmara Municipal.
Uns ainda não deram conta que é o seu dinheirinho a promover o Presidente da Junta e, a Câmara, ainda não decidiu cortar, de uma vez por todas, com a palhaçada que é o apoio a estas festanças delapidadoras dos dinheiros públicos.
Parafraseando o Astérix: "Estes tipos precisam é de levar castanha!"

Nas ruas de Paris

Ora bem!
Aqui está uma fotografia onde se reconhecem perfeitamente as 5 mulheres mais badaladas do Médio Oriente na sua última visita a Paris: (da esquerda para a direita) a Fátima, a Maria, a Lurdes, a Mónica e a Bárbara.
Para permitir uma melhor identificação e mostrarem um ar feliz e risonho, o Hammed (o gajo que está de cócoras, que além de fazer aqui de fotógrafo, é também o feliz marido de todas elas), pediu-lhes para não colocarem os óculos de sol. Convenhamos que facilitou muito. De facto, seria quase impossível ver o sorriso matreiro da Fátima, o sinalzito maroto na face da Maria, os lábios sempre muito pintados da Mónica, o narizito arrebitado da Lurdes ou aquele corte de cabelo curto, á garçon, que identifica perfeitamente a Bárbara.
Tive a sorte de as ver passear no Trocadero e não resisti em fazer uma ligeira comparação com as mulheres ocidentais, sobretudo com as parisienses, que têm fama de andar sempre na moda. É inegável! Estas mulheres têm muito mais classe, muito mais charme, muito mais pose, muito mais modernidade, muito mais estilo e são muito mais sexys. As fotografias não mentem.
Além do mais, vestem muito melhor.
Aquele Hammed é mesmo um sortudo!


Quarta-feira, Outubro 25, 2006

O músico, ou... enquanto há vida há esperança!

Era uma vez um puto que nasceu sem jeito nenhum para a música. Já crescido, sentia uma enorme satisfação em brincar com as campainhas das portas vizinhas. Aquele som era o único ao qual a sua habilidade tinha acesso.
O pai, coitado, músico e de família de músicos, vivia desgostoso com a falta de talento do filho. O raio do miúdo, mostrava mais inclinação para a bola do que para a pauta.
O pai bem tentou ensinar-lhe o solfejo mas o catraio não atinava. A tendência musical era tão pouca que pensava que, uma colcheia, era um colchão onde apenas dormiam as mulheres. Confundia as notas na pauta e nunca chegou a perceber porque é que não punham letras no meio das linhas em vez de borrões de tinta. Decididamente, aquele não seria o seu futuro. Aprendeu a ler com facilidade, e, de burro, não tinha nada, mas, de música...nada. O pai, esse, coitado, não se conformava. Aquela ovelha ranhosa, só tinha ouvido para o “passa a bola!”, “chuta agora!”, “corre, vai lá!”, e outras porcarias ligadas ao futebol.
O futuro deste rebento, como músico, não se apresentava muito risonho. O rapaz lá foi crescendo e as possibilidades de corrigir a falta de habilidade, desvaneceram-se com a idade para grande desgosto paterno.
Mas a esperança é sempre a última coisa a morrer e a vida traz sempre soluções, mesmo para os casos em que natureza não foi pródiga na distribuição de talentos. O pai tinha, lá no íntimo, uma fé escondida e, como dizia o outro:
- É preciso ter fé, porque o homem vive é de fezes.
Em determinada altura, aí pelos seus dez anitos, o pai fez a última tentativa. Se aquela não desse resultado, teria que viver o resto da sua vida com o enorme desgosto de ver crescer o seu amado filho sem tocar outros instrumentos, que não fossem as já conhecidas campainhas de porta e o toca discos. Vai daí, convenceu a Direcção dos Bombeiros Voluntários lá da terra de que o que era necessário para cativar os jovens para o voluntariado, era uma fanfarra. (Sim, uma fanfarra dessas com direito a farda com muitos dourados e barrete ridículo!) Ganha a aposta na Direcção, foi-lhe fácil arranjar uma catráfia de putos para a chinfineira, com um argumento que deixava qualquer pai sem outra vontade que não fosse ter o seu rebento a aprender música e a marchar pelas ruas da vila:
- Vamos tirar os miúdos da rua! Vamos ensinar-lhe o que é disciplina! Comigo não há baldas!
E a sarabanda passou a ostentar o garboso nome de “Fanfarra dos Bombeiros Voluntários”.
Escusado será dizer que o seu estimado (e nada habilidoso filho) foi o primeiro a inscrever-se (contra a vontade, mas foi).
O garoto lá fez um tremendo esforço, decorou a posição das notas na pauta, aprendeu a esguichar uns sons esquisitos na corneta e passou a ser motivo do orgulho musical daquele pai, devoto de Santa Cecília (a padroeira dos músicos, para quem não sabe).
A verdade é que a qualidade não era muita, mas, o garbo dos executantes e o orgulho do chefe da fanfarra, lá foram disfarçando as fífias que ameaçavam, de surdez permanente, os ouvintes.
Ora, como é próprio da natureza, tudo passa: passa o tempo, passa a paciência, passa moda e…passou à história a fanfarra.
Daquele desastre, salvou-se uma coisa: o seu querido filho, aprendera finalmente a distinguir a tal colcheia do colchão e actuara algumas vezes em público. Se um pai não se orgulha disso, vai orgulhar-se de quê? Passou, assim, a ser um verdadeiro membro daquela família com historial na Banda?
O tempo foi passando, os estudos (sem interrupções e com percalços próprios da juventude) foram enriquecendo os conhecimentos daquele jovem e distinguiu-se mesmo como líder da Associação de Estudantes da sua escola, com grande contentamento do pai. Aderiu, como quase todos os jovens, a um partido político, que, por mera coincidência, era o mesmo pelo qual o seu pai morria de amores. Para contentamento de todos os familiares foi também Presidente da Concelhia da Juventude do partido. Acredita-se que o inspirador de tal militância tenha sido o seu progenitor, que, sendo durante anos e anos membro da Concelhia de Penalva atingira, por mérito político, um lugar no executivo camarário lá do sítio.
E o mundo deu, de facto muitas voltas, e, aquele pai preocupado, viu, finalmente, a sua fé recompensada.
A câmara local, por exigência dos novos padrões de ensino, tinha que contratar um professor de música para ensinar o bêábá das notas musicais aos pequenitos da escola primária. Abriu, então, um concurso para aquele lugar e foram alguns os interessados que se apresentaram na almejada esperança de serem os escolhidos. Entre eles, estava o filho que tantos desgostos dera ao pai por não ter nascido com talento (mesmo que fosse um jeitito, já dava) para a música, mas que, com muito esforço e denodado trabalho, aprendera a distinguir uma nota musical de uma nota escrita e de uma nota de quinhentos mil réis.
O seu curriculum era vasto: tocara na arruada das festas da vila dois anos seguidos, tocara nas comemorações de aniversário de mais de cinco corporações de bombeiros do distrito, abrilhantara, pelo menos, sete ou oito outras festividades de associações sociais, culturais e desportivas, etc., etc., etc. E os outros? O que é que tinham? Um miserável curso do Conservatório de Música, e, quando muito, eram membros da banda musical há muitos anos (aqui, velhice não é estatuto) ou tinham tirado cursos de música sem qualquer relevância para o efeito.
Portanto, o que pesou na escolha para o lugar de professor de música, foram aqueles anos na fanfarra dos bombeiros, que, em boa hora, o seu pai criara. É certo que nunca fora um bom aprendiz de solfejo e muito menos um bom músico, mas também não iria ensinar os putos da escola para seguirem uma carreira profissional agarrados a qualquer instrumento musical!
O Presidente da Cãmara, que também era do mesmo partido político, disse que em nada interferira no processo, apesar do candidato escolhido ter sido voluntário e ter liderado a juventude partidária e as colagens de propaganda, nas suas campanhas eleitorais. (O que toda a gente acreditou, como é evidente!).
O pai, que jurou não ter interferido na selecção dos candidatos, quando recebeu do filho a boa nova de que seria ele o escolhido do concurso, sentiu faltarem-lhe as forças, virou os olhos ao céu e desfalecendo de alegria, ainda consegui balbuciar antes de desmaiar:
- Eu sabia! Eu sabia que tu irias longe na música! Meu filho, o mundo ainda vai ser teu! A glória espera-te! Ainda vais tirar o lugar no júri do “Canta Comigo”, na TVI, ao Maestro António Vitorino de Almeida!

Sexta-feira, Outubro 20, 2006

Futebol???









Ora esta! Tá bem, tá! Com então futebol?!?!

Olha o alinhamento...



















A reconstrução (?) da casa onde estava aquartelada a GNR, na Rua 1º de Dezembro, junto à Igreja da Misericórdia, é, manifestamente, um caso de polícia.
Deveria ser aberto pelo Ministério Público um inquérito a tal babaridade e que condenasse, todos os que intervieram e autorizaram aquela construção, a alinhar o muro do Sr. Prof. Silva à cabeçada.
A pena seria justa mas, na minha opinião, incumprível.
Acham que quem aprovou e licenciou aquela obra tem cabeça?