Um dia, teve vontade de ver e conhecer outras paragens, outras serras. Desceu a montanha e caminhou até ao anoitecer. Ao longe, entre o escuro do céu cheio de estrelas reluzentes, a serenidade do barulho do mar e o calor aconchegante da caminhada, viu uma luz que tremia ao sabor do vento tímido que amenizava a noite. Um vulto, sentado numa pedra à beira da estrada, levantou-se suavemente e disse:
- "Estava à tua espera!". Ao pastor, a voz soou como um cântico melodioso, feiticeiro.
- "Hã? Quem és tu? Conheço-te?"
- "Não, ainda não!
- "E que me queres?...De onde vens?...Que valho eu?... És um anjo?".
- "Não! Quero ser o teu futuro!".
- "Porquê? Não te conheço!...Do futuro, apenas sei o que vejo agora. Nem mesmo sei o que quero. Não te conheço e não te quero na minha vida. Quero ser livre e não me prender a ninguém!"
- "Não te posso deixar ir assim. És um homem só. Tens de conhecer o amor!" - disse o vulto desconhecido.
O enfeitiçamento era total. A voz, as curvas diluídas da imagem, envoltas em seda que esvoaçava ao sabor da brisa cálida da noite tornavam aquele momento mágico, num sonho que o pastor nunca tivera. Resistiu:
- "Não quero o amor. Quero a minha liberdade. Quero conhecer o mundo e a vida. Quero ser livre como um bando de pássaros, livre como o vento. Deixa-me! Liberta-me do encanto da tua voz e do sonho do amor! …Diz-me quem és e que direito tens em querer ser o meu futuro?"
- "Como tu, sou uma alma em busca do amor. Só que tu não sabes que é chegada a tua hora e eu estou no teu caminho. É Natal, sabes?".
- "Sei, mas deixa-me partir! …Mas antes, mostra-me a face, diz-me quem és!".
- "Eu mostro! Com uma condição! Jura-me que voltas!"
- "Voltarei! Juro! Depois de conhecer o desconhecido, depois de ver o mar, depois de sentir o sabor da liberdade. Mostra-te!"
Suavemente as vestes flutuaram para longe, deixando ver um rosto perfeito, brilhante, dourado, e um sorriso doce como o mel acentuado por uns olhos, negros, vivos e apaixonados.
- "Aqui me tens. Agora és meu! És o meu outro eu! A minha sina é enfeitiçar quem me vê o rosto! És o meu escolhido! És o meu amor! Vou encantar-te com a maldição da saudade, a que te vai prender a mim. Estejas onde estiveres, sentirás a minha ausência, a falta do meu carinho, da minha presença, do meu amor. …Vai! Volta breve!”
E cantou:
OLHA, MEU AMOR,
É O ESTIGMA DA AUSÊNCIA,
O PARADOXO DA DISTÂNCIA,
A PRESENÇA AUSENTE DO TEU CORPO,
AS MÃOS FECHADAS SEM TER NADA
E O VALOR DA VIDA NÃO ACHADA.
É O LONGE AQUI TÃO PERTO!
É O CORAÇÃO DA SOLIDÃO SEMPRE ABERTO,
O TEU CHEIRO E A TUA COR DE CHOCOLATE,
TÃO PRESENTE,
QUE A DOR JÁ NÃO ME ABATE
MAS TRANSFORMA O PESO DO NADA, NUM NADA SEM PESO
E TÃO ETÉREO COMO A LUZ.
É O LONGE AQUI TÃO PERTO!
A SAUDADE
QUE EU TENHO, JÁ CORRÓI
NUM CIRANDAR DE EMOÇÕES
QUE ME DESTRÓI O CORPO, A MENTE E O TEMPO QUE FALTA ATÉ AÍ CHEGAR.
É O LONGE AQUI TÃO PERTO!
E TU ESTÁS PERTO, AÍ TÃO LONGE!


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